domingo, 24 de maio de 2015

O Pentecostes como sinal de uma Humanidade nova



Em 24 de maio, assinala-se o dia de Pentecostes. Inicialmente, o Pentecostes era uma festa agrícola, associada à fase final da estação da primavera, na qual se agradecia a Deus pela colheita do trigo e da cevada, mas posteriormente tornou-se a festa na qual se comemorava a entrega dos Dez Mandamentos a Moisés, no monte Sinai, cinquenta dias do Êxodo do povo hebreu da dominação no Egito. Daí que esta festividade fosse um motivo para grandes peregrinações de judeus e prosélitos oriundos dos diversos territórios da diáspora à cidade santa de Jerusalém.
No dia de Pentecostes do ano 30, há precisamente 1975 anos, reuniu-se na parte baixa de Jerusalém, conhecida também como cidade de David, uma comunidade de judeus seguidores de Jesus. Não era uma comunidade muito numerosa. Depois dos acontecimentos terríveis e adversos que antecederam a Páscoa daquele, não tinham permanecido muitos membros. 
Contudo, após a experiência terrível da prisão e da morte de Jesus, algumas mulheres e alguns homens tinham passado por vivências extáticas e visionárias que fizeram surgir dentro deles a convicção firme de que Jesus estava vivo, embora numa dimensão diferente da nossa dimensão física e espácio-temporal. O Jesus que tinha proclamado a Boa Nova, que tinha sido torturado e morto, Deus não o abandonou, mas ressuscitou-o para a vida eterna. Foi elevado por Deus, sendo agora o arauto por excelência do Reino Divino do amor e da paz, o que aponta o caminho, a verdade e a vida.
Os discípulos de Jesus, bem como os seus irmãos e a sua mãe, Maria, reuniram-se no local onde tinha sido a última ceia de Jesus.
A narrativa do Pentecostes nos Atos dos Apóstolos dá conta de um conjunto de experiências espirituais especialmente intensas que transmutaram a vida daqueles homens e das daquelas mulheres e que mudaram o curso da própria História da Humanidade.



A comunidade vivenciou a experiência do Espírito de Deus O Espírito é apresentado como a força infinita de Deus, através de dois símbolos: o vento de tempestade e o fogo. São os símbolos da revelação de Deus no monte Sinai, quando Deus deu ao povo de Israel a Lei e estabeleceu a sua aliança. Estes símbolos evocam a força irresistível de Deus, que vem ao encontro da pessoa humana, comunica com esta e que a transmuta radicalmente.
O Espírito de Deus é apresentado em forma de línguas de fogo. A língua não é somente a expressão da identidade cultural de um grupo humano, mas é também a maneira de comunicar, de estabelecer laços duradouros entre as pessoas, de criar comunidade. Falar outras línguas é criar relações dos seres humanos entre si, com a natureza e com a Fonte originária de onde emana todo o Universo.
É o surgimento de uma Humanidade unida e reconciliada, pela partilha da mesma experiência interior, fonte de liberdade, de comunhão e de amor.
Impulsionada pela efusão do Espírito, a comunidade messiânica de Jerusalém superou as suas barreiras, os seus preconceitos e os seus receios e começou a profetizar a mensagem libertadora do Reino de Deus aos milhares de peregrinos oriundos dos diversos territórios da diáspora, de culturas e civilizações dispares.  
É neste enquadramento que deve-se entender os efeitos da manifestação do Espírito, na qual todos os ouviam proclamar na sua própria língua as maravilhas de Deus.
A proposta libertadora de Jesus faz de todos os povos uma comunidade de amor e de partilha, valorizando a diversidade de culturas que faz a riqueza da Humanidade. O essencial passa a ser a experiência do amor que, no respeito pela liberdade e pela diversidade, deve unir todas as pessoas da Terra.
E da maior relevância ter em conta que o Espírito de Deus é absolutamente livre e pode manifestar-se em todos os seres de boa vontade, que buscam a paz interior e exterior, atrás da prática do amor incondicional, do altruísmo, da compaixão e do desapego. Como disse Jesus ao seu discípulo e amigo Nicodemos: «O vento sopra onde quer e tu ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim, acontece com todo aquele que nasceu do Espírito (Jo 3,8)».
O Espírito de Deus não é propriedade de ninguém e de nenhuma confissão religiosa. Neste sentido, o Espírito de Deus manifestou-se em Jesus, mas também manifestou-se noutras figuras cimeiras da História espiritual da Humanidade, como Krishna, Moisés, Zoroastro, Siddartha Gautama (Buda), Confúcio ou Sócrates, entre outros.  
O Pentecostes anuncia a Humanidade nova, na qual todos os seres humanos serão capazes de comunicar e de se relacionar como irmãos, porque o Espírito reside no coração de todos como lei suprema, fonte de amor e de liberdade.