quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O diálogo entre as espiritualidades e a ecologia


Atualmente, porventura mais do que nunca, o diálogo entre as diversas espiritualidades assume uma relevância fundamental para o progresso ético e civilizacional da Humanidade
Não se trata de alcançar uma religião única, nem de promover um cocktail de religiões, nem tão pouco de substituir a religião por uma ética.
A meta de um entendimento universal entre as religiões e as demais espiritualidades deve ser uma ética comum da Humanidade, baseada em valores de verdade e de tolerância a nível planetário e na responsabilização dos seres humanos relativamente ao seu próprio presente e futuro e ao futuro do nosso planeta.
O diálogo entre as diversas religiões e espiritualidades passa por um caminho racional de tolerância e de diálogo empenhado, acompanhado de investigações aprofundadas no domínio do estudo comparado das diversas correntes religiosas, espirituais e filosóficas.
Um dos domínios privilegiados para este diálogo é a ecologia, tendo em conta que é da maior relevância enfatizar a responsabilidade humana de preservar um ambiente sustentável para todos.
Com efeito, a Humanidade de hoje, se conseguir conjugar as novas capacidades científicas e tecnológicas com uma elevada dimensão ética, será certamente capaz de salvaguardar o planeta Terra como lar comum da espécie humana no seu todo, respeitando os direitos das gerações atuais e vindouras a uma vida livre, digna e feliz.
Neste âmbito, serão analisadas sucintamente as perspetivas budista e cristã sobre a ecologia.

A ecologia no budismo
O budismo considera que o Universo e todas as criaturas que nele existem se encontram num estado de sabedoria, amor e compaixão completos, atuando em reciprocidade e interdependência.
Segundo os ensinamentos budistas, há uma interdependência muito próxima entre o meio ambiente natural e os seres humanos e os demais seres sencientes que nele habitam.
Considerando que que os seres humanos são basicamente gentis por natureza, o budismo preconiza que devem-se manter relações gentis e pacíficas com a comunidade de seres humanos, mas também que é da maior relevância muito importante estender a mesma atitude gentil para com o meio ambiente natural.


A ecologia no cristianismo
A Bíblia ensina que cada ser humano é criado por amor, feito à imagem e semelhança de Deus. Não somos Deus. A Terra existe antes de nós e foi-nos dada,
O convite a dominar a Terra contido no livro do Génesis não significa favorecer a exploração selvagem da natureza, mas cuidar da Terra como quem cuida de um jardim. Os ensinamentos das Escrituras bíblicas apelam aos seres humanos a reconhecer que cada criatura é objeto da ternura do Divino que lhe atribui um lugar no mundo.
Recentemente, em 18 de junho do presente ano, o papa Francisco anunciou a sua encíclica “Laudato si”, que tem como temática central a ecologia.
A encíclica é o grau máximo das cartas que um Papa escreve e a expressão 'Laudato si' (Louvado seja) remete para o “Cântico das Criaturas”, de Francisco de Assis, que mostrou na sua vida como são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os mais pobres e vulneráveis, a participação na sociedade e a paz interior.
É a primeira vez que um papa aborda o tema da ecologia no sentido de uma ecologia integral  de forma tão completa. Além disso, aborda o tema dentro do novo paradigma ecológico, coisa que nenhum documento oficial da Organização das Nações Unidas até hoje fez.
Fundamental é seu discurso com os dados mais seguros das ciências da vida e da Terra. Lê os dados com uma profunda intuição, pois discerne que por detrás deles se escondem dramas humanos e ecológicos. Valoriza a colegialidade, incluindo as contribuições de dezenas de conferências episcopais do mundo inteiro. Acolhe as contribuições de outros pensadores como os católicos Pierre Teilhard de Chardin, Romano Guardini, Dante Alighieri e Juan Carlos Scannone, do protestante Paul Ricoeur e do muçulmano sufi Ali Al-Khawwas. Por fim, os destinatários da encíclica são todos os seres humanos, pois todos são habitantes da mesma casa comum.

A ética universal e a ecologia  
Atualmente, é um imperativo ético cuidar da natureza, porque é criação, dom e presente de Deus.
Nesta imensa missão, precisamos do contributo das sabedorias do Oriente do Ocidente. Ambas estão contidas nos três aspetos fundamentais da via do Dharma: sabedoria (prajna), meditação (dhyna) e ética (sila).
Quando, a partir da espiritualidade cristã, se deixa impelir pela escuta budista da voz do Dharma, enriquece-se o que significa para a consciência cristã respirar no Espírito. A espiritualidade budista também é enriquecida.
Portanto, o diálogo entre as espiritualidades pode contribuir para o encorajamento de um estilo de vida profético e contemplativo, capaz de gerar felicidade e alegria. A ecologia integral implica passar da exterioridade à interioridade, para descobrir a presença do Divino em todas as coisas.
Baseando-se na sua própria experiência, Ali Al-Khawwas, um dos principais mestres espirituais do sufismo islâmico, enfatizava a importância de não separar demasiado as criaturas do mundo e a experiência interior do Divino. Dizia ele: «Não é preciso criticar preconceituosa­mente aqueles que procuram o êxtase na música ou na poesia. Há um “segredo” subtil em cada um dos movimentos e dos sons deste mundo. Os iniciados chegam a captar o que dizem o vento que sopra, as árvores que se curvam, a água que corre, as moscas que zunem, as portas que rangem, o canto dos pássa­ros, o dedilhar de cordas, o silvo da flauta, o suspiro dos enfer­mos, o gemido dos aflitos… ».