segunda-feira, 21 de maio de 2012

A ascensão de Jesus. uma breve explicação para o homem do século XXI

No dia 20 de maio, celebrou-se a solenidade litúrgica da Ascensão de Jesus. O livro dos “Atos dos Apóstolos” começa pela sua narração. È a derradeira despedida. Jesus deixa de estar presente no plano terreno com os discípulos, subindo ao céu de forma definitiva.
A expressão bíblica “sobe aos céus” deve ser bem compreendida. Jesus não se eleva como um astronauta. Esta expressão é uma maneira de expor que Jesus entra numa outra dimensão da existência e que ele participa do poder e da glória de Deus.
Lucas, na qualidade de autor do O livro dos “Atos dos Apóstolos”, utiliza as imagens habitualmente usadas pelos escritores para falar das intervenções divinas na história humana. O “Céu” designa a morada de Deus. A “Nuvem” é um sinal simultaneamente da proximidade e da transcendência de Deus. As montanhas são os lugares privilegiados de encontro entre Deus e os seres humanos.
Não se deve dissociar a Ressurreição da Ascensão. Eles são aspetos do mesmo mistério: Jesus ressuscitado entra definitivamente na realidade divina. Por isso, a Ascensão deve ser compreendida no contexto dos acontecimentos da Páscoa. Para lhes dar maior realce, Lucas separou-os. De um lado, a vitória sobre a morte. Do outro lado, a participação no poder e na gloria de Deus. Os quarenta dias referidos por Lucas entre a Ressurreição e a Ascensão não devem ser entendidos em termos literais. Na linguagem bíblica, “quarenta dias” ou “quarenta anos” significa um tempo notável. Recorde-se os quarenta dias de jejum de Jesus ou os quarenta anos da viagem do povo de Israel, liderado por Moisés, entre o Egito e a Terra Prometida.   
Isto explica o facto dos evangelhos de Mateus e de João não falarem na Ascensão. Para eles, é claro que Jesus, logo no momento da Ressurreição, é participante do poder e da glória divinos.
Na sua descrição da Ascensão, Lucas escreve que Jesus disse aos seus discípulos: Mas ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo”. Após enuciar as últimas palavras do Mestre, Lucas prossegue a sua descrição: “Dito isto, elevou-se à vista deles e uma nuvem subtraiu-o a seus olhos. E como estavam com os olhos fixos no céu, para onde Jesus se afastava, surgiram de repente dois homens vestidos de branco, que lhes disseram: «Homens da Galileia, porque estais assim a olhar para o céu?»”.
Devemos ver aí simultaneamente uma prova da presença divina e um apelo. Por um lado, a prova de que os discípulos e todos os seres humanos de boa vontade vão receber o Espírito Santo, o Espírito de Deus, para prosseguir a obra de Jesus. Por outro lado, um apelo para que não fiquem de braços cruzados. O que é relevante é dar testemunho de Jesus para que a sua mensagem salvadora e libertadora do Reino de Deus se concretize plenamente no nosso mundo.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

A Ressurreição de Jesus: uma abordagem histórica

A questão da Ressurreição de Jesus desempenha um papel fundamental no centro da fé cristã. Não existe forma de Cristianismo que não afirme que após a morte de Jesus na cruz, Deus o trouxe de volta à vida.
É um facto histórico comprovado que Jesus foi executado publicamente na Judeia no século I da nossa era, sob a autoridade do prefeito romano Pôncio Pilatos, através da crucificação, com o envolvimento dos principais dirigentes do Sinédrio judeu. As narrativas do Novo Testamento e de autores não cristãos como Flávio Josefo, Tácito, Luciano de Samósata e Maimónides atestam a veracidade desses aspetos históricos tão importantes da vida de Jesus Cristo.
Contudo, a questão da ressurreição é mais complexa. Até o século XVIII, a crença na ressurreição de Jesus era um dado inabalável e incontroverso. O Iluminismo do século XVIII e a crítica histórica do século XIX, no entanto, suscitaram uma série de questionamentos. A razão pôs em xeque a plausibilidade de que uma pessoa seja ressuscitada dentre os mortos e faça aparições públicas. Quando se aplicou a historiografia crítica aos textos bíblicos, a historicidade das narrativas da ressurreição foi posta em questão.
Na atualidade, como deve ser interpretada a ressurreição de Jesus? Embora não seja fácil formular um enquadramento histórico da ressurreição de Jesus, podemos enunciar alguns pontos essenciais que ajudem a defini-la.
Um primeiro ponto fundamental é que certamente os primeiros discípulos acreditaram que o próprio Jesus estava vivo, fora ressuscitado e exaltado na glória com Deus. Por outras palavras, o testemunho do Novo Testamento não é meramente um fenómeno existencial ou comunitário, de que Jesus subsiste na fé da comunidade, e sim um fenómeno real e objetivo, na hipótese de que esses termos sejam apropriados, por afirmar que Deus agiu em benefício de Jesus, de modo que ele se encontra vivo.
Segundo, a ressurreição de Jesus não foi um retorno à vida neste mundo e não foi a reanimação de um cadáver. Pelo contrário, a ressurreição de Jesus foi uma passagem para uma outra dimensão, uma assunção à esfera da realidade última e absoluta que é Deus e que, enquanto Criador, difere da criação. O que se passou na ressurreição de Jesus diz respeito a uma outra ordem de realidade que transcende a realidade espácio-temporal do Universo onde estamos inseridos, porque é o domínio de Deus.
Em terceiro lugar, a ressurreição foi a exaltação e glorificação da pessoa individual, Jesus de Nazaré. Aquele que foi ressuscitado não é outro senão o próprio Jesus, de modo que existe continuidade e identidade entre ele, no decorrer da vida, e o seu ser com Deus.
Por fim, não é demais reiterar o caráter absolutamente central da ressurreição de Jesus no surgimento e no desenvolvimento do Cristianismo. O Cristianismo, que começou como um movimento de génese judaica do primeiro século da nossa era, era um movimento pelo reino de Deus, um movimento messiânico e um movimento de ressurreição.
À primeira vista, a crucificação de Jesus era o símbolo de esperança não apenas derrotada, mas esmagada e dizimada. Em geral, admite-se que a crucificação de Jesus causou desorientação e desânimo em seus discípulos. Há evidências de que deixaram Jerusalém, talvez tenham fugido, na sequência do que era visto como a tragédia da crucificação de Jesus. Mas, passado pouco tempo, desenvolveu-se um movimento religioso particularmente dinâmico que transformou radicalmente o percurso histórico da Humanidade. Este surto de energia humana desenvolveu-se porque Jesus havia ressuscitado, com base no princípio de que a Sua ressurreição deve ser concebida como a declaração divina de que a vida de Jesus é a revelação por excelência de Deus na história humana.

terça-feira, 6 de março de 2012

Entre Damieta e Assis: a opção entre a guerra e a paz

Outono de 1219. Um exército de cruzados oriundos da Europa Ocidental cerca a cidade egícia de Damieta, no âmbito da Quinta Cruzada.
A cruzada foi liderada por André II, rei da Hungria; Leopoldo VI, duque da Áustria; Jean de Brienne, rei titular de Jerusalém, e Frederico II, imperador do Sacro Império Romano-Germânico.
Decidiu-se que para se conquistar Jerusalém (controlada pelos muçulmanos desde 1187) era necessário conquistar o sultanato do Egito primeiro, uma vez que este controlava o território da Palestina. Em maio de 1218, as tropas de Frederico II se puseram a caminho do Egito, sob o comando de Jean de Brienne. Desembarcados em São João de Acre, decidiram atacar Damieta, cidade que servia de acesso ao Cairo, a capital. Em agosto começaram o cerco de Damieta.
Num ambiente marcado pela guerra e pela violência, um homem marcou a diferença: Francisco de Assis.
Francisco,  já então conhecido como fundador da Ordem dos Frades Menores, deixou a sua cidade de Assis para ir ao encontro dos irmãos muçulmanos para lhes anunciar o evangelho da Paz. A 5 de novembro assistiu à tomada de Damieta por parte dos cruzados cristãos, depois de os ter tentado convencer a evitar a sangrenta batalha.
Em seguida, manteve uma entrevista com o sultão Malik Al-Kamil que, impressionado, ao fim da visita pediu que Francisco orasse para que Deus lhe mostrasse a forma de cultuá-lo que fosse de seu agrado e permitiu que pregasse entre os seus súbditos. Dali passou para a Palestina, peregrinando pelos Lugares Santos, onde recebeu a notícia de que os irmãos no Marrocos haviam sido martirizados
Num tempo em que muitos pregavam a cruzada e usavam a violência das armas em nome da fé, Francisco teve a inspiração de propor outro caminho, ordenando, na sua Regra, que “os irmãos que vão para entre os Muçulmanos se devem comportar no meio deles do seguinte modo: não litiguem nem disputem mas sujeitem-se a toda a criatura humana por amor de Deus e confessem ser cristãos”.
Mas haveria que lembrar mais um acontecimento, de entre os diversos gestos de paz promovidos pelo "Povorello" de Assis, para melhor percebermos o motivo pelo qual Assis aparece associada ao renovamento do Espírito de Paz.
Contam as fontes franciscanas que, pelo ano de 1225, entre o bispo de Assis e o podestá (governante) da cidade, houve um conflito grave, ao ponto de o primeiro ter excomungado este último. Francisco, triste e indignado sobretudo por ver que ninguém fazia algo para restabelecer a paz entre os dois, decidiu intervir. Envolveu então seus irmãos para que convidassem bispo e podestà e a população da cidade para celebrarem um encontro de reconciliação.
Compôs, para essa circunstância, mais uma estrofe do seu Cântico do Irmão Sol que reza assim: “Louvado sejas tu, meu Senhor, por quem perdoa por teu amor; por quem sofre provações e doença; feliz quem as suporta em paz, porque será por ti, Altíssimo, coroado!”
Deu-se o encontro, em que os frades cantaram esta estrofe e, e a paz foi restabelecida. Recordo estes episódios e as palavras de Francisco para recordar – caso fosse necessário - que é o mesmo Espírito que moveu Francisco a transpor fronteiras para dialogar com o Outro ou que o moveu a intervir em tantas situações de conflito entre pessoas, poderes e instituições, que está na génese do “Espírito de Assis”.
O Papa João Paulo II, inspirando-se na ousadia evangélica dos gestos e palavras do Santo de Assis, quis fazer renascer das cinzas do século XX, um século marcado por guerras e pela intolerância, esse Espírito que nos convoca ao encontro e ao diálogo para a paz. Momentos que se foram repetindo ao longo das últimas duas décadas e meia, em Assis e por todo o mundo, que constituem já um património valioso da humanidade.
O Espírito de Assis não é, pois, o espírito de Francisco ou de qualquer outro homem, é o Espírito do próprio Deus.
O Espírito de Deus está fora do qualquer controlo humano. Ele é como o vento. É o que Jesus afirmava a Nicodemos. “Tu ouves o vento, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim acontece àquele que nasce do Espírito” (Evangelho de João 3, 8). 
O Espírito não se deixa fechar por quem quer que seja, superando as fronteiras que os seres humanos levantam entre classes socias, países, etnias e culturas. É por isso que aqueles que estão sob ação são os mais livres de entre os homens e mulheres.
Ele não sopra unicamente entre os cristãos, mas também nas mentes e nos corações de todos os homens e de todas as mulheres de boa vontade. Os cristãos deverão reconhecer a sua presença e a sua ação nas mais diversas manifestações em prol da dignificação da pessoa humana.
Não há, pois, que ter medo dos que são movidos por esse Espírito, devemos é perguntar, que espírito nos move a nós. Só percorrendo o caminho da paz, estamos no caminho certo, porque estamos no caminho do Deus da paz e do amor. Por isso, não existe um caminho para o diálogo: o caminho é o diálogo; assim como não há uma via para a paz: a via é a própria Paz.
O diálogo, não é, para o cristão, opcional, mas uma exigência da própria fé, que nos diz que nenhuma situação humana nos é estranha ou indiferente, muito menos quando a dignidade e os direitos fundamentais da pessoa humana são postos em causa.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Refletir sobre o Holocausto


27 de janeiro é o Dia Internacional de Memória do Holocausto. Um dia para não esquecer os milhões de vítimas do regime nazi, nomeadamente o horror vivido por homens, mulheres e crianças deportadas de toda a Europa para os campos de concentração, entre eles Auschwitz-Birkenau, na Polónia, libertado pelas tropas da extinta União Soviética a 27 de janeiro de 1945.

A Organização das Nações Unidas instituiu a data em 2005 para manter viva a memória deste acontecimento, um dos mais trágicos da História da Humanidade.

Não é fácil refletir sobre o Holocausto, pois entra-se num mundo de horror, de ódio, de perseguição, de cegueira ideológica, de estupidez, de conivências e de omissões. Mas a tarefa, ainda que dolorosa, é necessária para que o passado não seja esquecido e a consciência ética não seja ofuscada.
O percurso histórico da Humanidade revela o que o ser humano é e do que ele é capaz. Pensar o Holocausto é voltar-se para a dimensão mais obscura e terrível da condição humana e ver que o ser humano foi capaz de produzir uma tragédia tão grande que nos faltam palavras suficientes para expressar o seu horror.
O mundo não é mais o mesmo antes e depois do Holocausto. A presença do mal é de tal maneira sufocante que muitos se recusam a aceitar um sentido para a vida. Como dizia o Theodore Adorno (1903-1969), filósofo alemão e um opositor convicto do nazismo:
"Depois de Auschwitz, a sensibilidade não pode deixar de ver em toda afirmação da positividade da existência uma charlatanice, uma injustiça para com as vítimas, e tem de revoltar-se contra a extração de um sentido, por abstrato que seja, daquele trágico destino".
Um sobrevivente do Holocausto declarou que a Europa se tornou um lago de sangue congelado. No continente de Beethoven, Goethe e Mozart, as ideais do humanismo, do cristianismo e da democracia foram terrivelmente despedaçados.
Por conseguinte, a palavra “Shoah” é adequada para descrever uma tragédia de tão ampla magnitude. "Shoah" é uma palavra hebraica que significa extermínio e devastação, e é usada para se referir ao Holocausto.
Já o termo "Holocausto" tem origem grega e pertence ao mundo religioso: significa o sacrifício em que uma oferenda é inteiramente consumida pelo fogo. A ideia de holocausto, aplicada ao massacre de homens, mulheres e crianças nos campos de concentração do Terceiro Reich nazi, pretende significar a abrangência da matança, que foi um verdadeiro genocídio. Estes campos de concentração exterminaram 6 milhões de judeus e 5 milhões de não-judeus, que incluíam polacos, russos, homossexuais e opositores de diversas correntes políticas ao nazismo.
O impacto do Holocausto na consciência ética da Humanidade foi tão profundo que levou à adoção da Declaração Universal dos Direitos do Homem pela Assembleia Geral das Organizações das Nações Unidas, em 10 de dezembro de 1948.
Analisando a história das relações entre cristãos e judeus, depois do Holocausto, da Segunda Guerra Mundial e do Concílio Vaticano II, muita coisa mudou. As principais confissões cristãs não sonham com o retorno à cristandade de outrora, com os seus privilégios e distinções. Aceitam a sociedade moderna pluralista e a autonomia das realidades temporais. Aceitam a democracia e mudaram a sua forma de encarar os não-cristãos.
Nós não somos prisioneiros do passado e não estamos condenados a repeti-lo. O ser humano, imagem e semelhança de Deus, é livre e capaz de conversão, não só de uma forma pessoal, mas também de uma forma coletiva, ainda que ela se faça num processo de avanços e recuos.

Uma consequência da Segunda Guerra Mundial e os seus impasses, é que os cristãos de diversas confissões conquistaram uma consciência mais nítida de sua missão que inclui a defesa dos pobres e oprimidos.

Como cristãos, partilhamos com profundo respeito e compaixão a experiência de extermínio sofrida por todos os que sofreram nas mais diversas formas de autoritarismo e pelo povo judeu em particular.

Desejamos que a nossa tristeza nos leve a novas relações com o povo judeu, sem antissemitismos, desconfianças e ressentimentos, mas com respeito recíproco compartilhado, como convém àqueles que adoram o único Criador e Senhor e têm um mesmo pai na fé, que é Abraão.

A consciência cristã aprendeu com o povo judeu que o Universo e a Humanidade são criações divinas, que Deus é fiel às suas promessas, e que Ele tem o poder de ressuscitar os mortos.

Por isso, o mundo tem sentido, a vida vale a pena ser vivida e a morte do justo não é em vão, pois todo o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, tem direito a uma vida livre e digna. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O Ecumenismo como missão para o século XXI

No âmbito da Conferência Universal das Missões Protestantes, organizada na cidade escocesa de Edimburgo, em 1910, considerada como um dos principais pontos de partida do ecumenismo moderno, um delegado de uma Igreja do Extremo Oriente proferiu as seguintes palavras:
“Enviaste-nos missionários que nos fizeram conhecer Jesus Cristo, e por isso vos estamos muitos gratos. Mas trouxeste-nos também as vossas distinções: uns prega-nos o metodismo, outros o luteranismo, o congregacionalismo ou o episcopalismo. Pedimos que nos pregueis simplesmente o Evangelho e deixai que seja o próprio Jesus Cristo a suscitar no seio dos nossos povos, pela ação do seu Espírito, a Igreja, conforme às suas exigências, conforme também ao génio da nossa etnia, que será a Igreja de Cristo na China, a Igreja de Cristo na Índia, liberta de todos os «ismos» que atribuis à pregação do Evangelho entre nós”.
Passado mais de um século, as palavras acima mencionadas não podiam ter maior pertinência.
Desde o início, a história do Cristianismo, modelada por seres humanos na busca de fidelidade a Deus, mas sempre também sujeitas a falhas e limitações, apresenta-se marcada por tensões e divisões, muitas delas com caráter duradouro.
O Evangelho de Jesus não é transmitido no mundo contemporâneo por cristãos que professam em comum o essencial da mesma fé, mas por cristãos divididos entre si, separados uns dos outros. Divergências na compreensão da fé, sobretudo conceções diferentes sobre a Igreja e a sua unidade, os sacramentos e os ministérios, continuam a impedir a realização de uma unidade visível.
A divisão dos cristãos contrasta com um dos princípios fundamentais da fé cristã, enunciado no Credo. Com efeito, a fé cristã professa, como elemento essencial da sua identidade, a unidade da Igreja de Jesus Cristo: “Creio na Igreja una, santa, católica e apostólica”. Com esta formulação do Credo, proclamada pelos Concílios de Niceia (325) e de Constantinopla (381), afirmam as principais Confissões cristãs que a sua fé no Deus Uno e Trino se traduz na realidade da Igreja, comunidade visível de crentes que procuram viver o Evangelho de Jesus ao longo dos tempos.
A realidade de divisão contrasta com a confissão de fé, interpelando os cristãos a uma atitude ecuménica na busca da unidade, tendo como como finalidade um testemunho mais autêntico e da mensagem salvífica e libertadora do Evangelho a favor da Humanidade.
A proclamação do Evangelho junto dos homens e das mulheres do nosso tempo só será eficaz se promovermos os laços de comunhão entre os cristãos das diversas confissões.
Seria, por exemplo, uma contradição querermos estar unidos a Jesus e, ao mesmo tempo, estarmos divididos entre nós, comportando-nos de uma forma individualista, indo cada um por sua conta, julgando-nos ou até excluindo-nos uns aos outros. É preciso, portanto, uma renovada conversão a Deus que nos quer unidos.
Um dos resultados mais frutuosos do ecumenismo ao longo do último século, não obstante as vicissitudes do processo ecuménico e a diversidade de conceções e práticas das diversas Igrejas, foi ter-se alcançado um consenso relevante sobre dois princípios fundamentais: a unidade cristã deve ser uma unidade visível; a unidade a concretizar deve ser uma unidade na diversidade, assente naquilo que é verdadeiramente necessário e suficiente.
Por um lado, existe a consciencialização nas principais Confissões cristãs de que a unidade á concretizar é uma unidade visível, baseada em elementos doutrinais e institucionais comuns,
e não somente uma unidade de cariz espiritual, interior e afetiva. A unidade cristã deve exprimir-se como comunhão da mesma fé, no reconhecimento mútuo dos ministérios e dos sacramentos, na celebração comum da eucaristia e no desenvolvimento do serviço fraterno que emana do Evangelho.
Como segundo aspeto relevante, enfatiza-se que a unidade a construir deve ser uma unidade na diversidade, cuja visibilidade não implicaria uma instituição eclesial única e centralizada, nem numa uniformidade de expressões e linguagem, mas num consenso sobre o conteúdo da fé, dos sacramentos, dos ministérios, do testemunho e do serviço comum. Consequentemente, deve ser uma unidade que salvaguarde e respeite a pluralidade em diversos registos e níveis.
O desenvolvimento e o aprofundamento do ecumenismo exige a prossecução dos seguintes desafios: 1) Consolidar a receção dos resultados do diálogo entre as Igrejas e os organismos ecuménicos, tanto no nível da informação quanto da circulação, como um processo de assimilação vital, urgente e necessária; 2) Organizar a vida das comunidades num verdadeiro espírito e método ecuménicos, na pastoral, na espiritualidade, na catequese, nas instituições e estruturas; 3) Promover o diálogo, a partir do respeito das recíprocas identidades e tradições; 4) buscar com sinceridade a reconciliação, demonstrando sincera abertura para compreender a teologia e a prática das Igrejas irmãs; 5) Investir em estruturas ecuménicas, a nível local, regional e nacional 6) Apostar na formação ecuménica, tanto dos ministros ordenados quanto das comunidades dos fiéis; 7) Clarificar os horizontes do diálogo, estabelecendo metas a serem alcançadas, sobretudo nos horizontes doutrinal, pastoral e espiritual.
O diálogo ecuménico nunca foi fácil, mas devemos ter em conta que o ecumenismo emana radicalmente da esperança cristã, que não se baseia na simples confiança nas capacidades humanas.
O ccumenismo aparece como um dom ligado ao agir salvífico de Deus, que quer construir uma nova Humanidade na verdade, na justiça, no amor e na paz, e como missão a cumprir pelos crentes.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Tudo o que sobe converge: a visão do Universo segundo Pierre Teilhard de Chardin

O grande espírito de Pierre Teilhard de Chardin nunca se contentou com o estudo de detalhes, particularidades e singularidades, que é a principal preocupação de uma grande parte dos pensadores da pós-modernidade ocidental.
Era um verdadeiro filósofo e o tinha seu olhar fixo no todo, e qualquer elemento particular era visto na perspectiva da totalidade. Como verdadeiro filósofo, era desafiado pelo problema do uno e do múltiplo.
Para Teilhard de Chardin, tudo no Universo está imerso na transcendência divina, que lhe confere o seu sentido por excelência.
No começo de tudo, está Deus como o ponto Alfa, como origem de todo ser, que fez o nosso Universo e o nosso planeta em particular literalmente explodir em formas cada vez mais perfeitas e complexas de vida.
E no termo de tudo, do seu movimento e de seu sentido, está Deus como o ponto Ómega; para o qual tudo tende.
Sendo Deus a unidade pura, deu aos seres a faculdade de participar de sua unidade, em si mesmos, e tenderem sempre para unidades mais amplas, pois todo o movimento de subida é um movimento de “convergência”, como exprime no seu aforismo: “Tudo o que sobe, converge”.
s átomos, que já são unidades de uma energia complexa, unem-se, permanecendo eles mesmos, na unidade de moléculas cada vez maiores. As moléculas subsistem permanecendo elas mesmas, mas de alguma forma transfiguradas na célula viva.
As células vivas se unem, de novo, e se especializam permanecendo elas mesmas em organismos cada vez mais diversificados.
O processo de complexificação não pára com o surigimento de seres humanos pensantes e reflexivos.
Teilhard dá grande destaque à socialização à escala planetária e global, considerando que o ser humano só o é perfeitamente quando chega aos limites de si mesmo e manifesta a solidariedade a todo humano, passado, presente e futuro.
Os sinais do desenvolvimento da socialização planetária estão presentes no desenvolvimento das comunicações, que tem vindo a acentuar-se desde o advento da Revolução Industrial.
As comunicações eletrónicas – telégrafo, telefone, rádio, televisão, e sobretudo a Internet que Teilhard não conheceu, mas em que viria uma confirmação de seus sonhos – permitem unir os cérebros de todos os seres humanos fazendo-os pensar e atuar em conjunto, como se fosse um supercérebro.
As informações em tempo real, fazem que milhões e milhões de pessoas participem das mesmas emoções, e interajam através dos continentes formando um só público, um enorme ser coletivo que
tendencialmente abarca a humanidade inteira.
Claro que o mal não está excluído desse processo. Contudo, para Teilhard de Chardin, um cristão convicto, a vitória final será do bem, e a humanidade socializada desvendará que o seu destino é a “amorização”.
A “amorização” consiste na expansão de amor que una definitivamente a Humanidade, formando uma unidade de ordem superior de espírito e de liberdade, formando a noosfera.
Como foi referido anteriormente, tudo no Universo parte de Deus e converge para Ele.
Então, para além dos patamares da biogénese e da noogénese, deve-se acrescentar a instância definitiva, a cristogénese.
Neste ponto, Teilhard de Chardin preconiza a sua conceção do Cristo cósmico, o centro supremo da consistência espiritual de todo o universo, presente como um elemento universal e encarnado por todo o Cosmo, orientando-o para o Pai: o qual é justamente o ponto Ômega, ao qual vai submeter-se e entregar o seu Reino.
A cristogénese é também um movimento de subida e de convergência, prenunciado pelas fases anteriores, mas que representa a realidade definitiva do Universo.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A espiritualidade de Teilhard de Chardin: uma breve abordagem

Pierre Teilhard de Chardin, que nasceu em Orcines, em 1 de maio de 1881, e faleceu em Nova Iorque, em 10 de abril de1955, foi um padre jesuíta, teólogo, filósofo e paleontólogo francês que logrou construir uma visão integradora entre a ciência e a religião.
Disposto a desfazer o mal entendido entre a ciência e a religião, nem sempre foi devidamente compreendido pelos representantes de ambas. Muitos colegas cientistas negaram o valor científico de sua obra, acusando-a de vir carregada de um misticismo e de uma linguagem estranha à ciência. Do lado da Igreja Católica, por sua vez, foi proibido de lecionar, de publicar suas obras teológicas e submetido a um quase exílio na China.
Como cientista, Teilhard de Chardin estava familiarizado com as evidências geológicas e fósseis da evolução do planeta e da espécie humana.
Como cristão, tinha consciência da necessidade de um cristianismo renovado que contribuísse para a sobrevivência do planeta e o progresso da Humanidade.
Como outros cristãos de épocas anteriores, Teilhard reconheceu a premente necessidade de articular o cristianismo com a cultura e o espírito de seu próprio tempo.
Hoje, em face da ciência moderna, da tecnologia e de um mundo cada vez mais globalizado, essa necessidade é mais urgente do que nunca.
No cerne da sua reflexão, está a visão filosófica, teológica e mística a respeito da evolução de todo o Universo, do caos primordial até o despertar da consciência humana sobre a Terra, estágio esse que, segundo ele, será seguido por uma Noogénese, a integração de todo o pensamento humano numa única rede inteligente que acrescentará mais uma camada em volta da Terra: a Noosfera, que recobrirá todo a biosfera do planeta Terra. A orientar todo esse processo, existe uma força que age a partir de dentro da matéria, que orienta a evolução em direção a um ponto de convergência: o Ponto Ômega. Teilhard sustentava a ideia de um Panenteísmo cósmico: a crença de que Deus e o Universo mantém uma criativa e dinâmica relação de progressiva evolução.