sábado, 21 de julho de 2012

Rio+20: repensar o nosso futuro comum


A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, mais conhecida como Rio+20, decorreu entre os dias 13 e 22 de junho de 2012 na cidade brasileira do Rio de Janeiro, cuja finalidade era consolidar o compromisso político global em prol do desenvolvimento sustentável .
Tratou-se de mais uma das cimeiras das Nações Unidas sobre os as questões globais cada vez prementes do ambiente e do desenvolvimento. A primeira teve lugar em Estocolmo, em 1972. Depois no Rio de Janeiro, em 1992. Em Joanesburgo, em 2002. E agora, como indicou o título, de regresso ao Rio de Janeiro.
Da primeira Cimeira do Rio em 1992, última, resultaram a chamada "Agenda 21" e as "Convenções das Alterações Climáticas, da Biodiversidade e de Combate à Desertificação". Todas estas iniciativas foram um prelúdio para diversos desenvolvimentos significativos, que daí surgiram, nomeadamente o Protocolo de Quioto. Em 2002, decorreu em Joanesburgo a Cimeira da Terra embora com resultados mais modestos.
Concluída a Cimeira Rio+20, ficou um sentimento geral de deceção com os resultados obtidos, nomeadamente com o documento aprovado pelos Estados participantes, intitulado “O Futuro que Queremos”.
As organizações não governamentais não deixaram de manifestar a sua posição crítica relativamente ao resultado atingido, que se limita a uma declaração não vinculativa, sem que tenham sido assumidos compromissos ambiciosos ou definidas ações práticas. Só por si este documento não irá desenvolver as transformações económicas, sociais, políticas e ambientais necessárias para a promoção do desenvolvimento sustentável, cabendo a cada um de nós, cidadãos do planeta Terra, uma atuação sustentável com rumo ao futuro que queremos.
O insucesso da Cimeira Rio+20 pode ter diversas leituras. Neste texto, proponho uma leitura que procura relacionar a crise global do ambiente com a crise dos grandes conceitos estratégicos da civilização moderna, nomeadamente o conceito de progresso.
Infelizmente, esquecemos com demasiada frequência que muitas das grandes ruínas existentes nos desertos e nas florestas do nosso planeta são monumentos às armadilhas de um desenvolvimento ecológica e humanamente insustentável, as lápides funerárias de civilizações que caíram vítimas do seu próprio sucesso. No destino destas sociedades, outrora prósperas, sofisticadas e brilhantes, encontramos ensinamentos valiosos para a nossa contemporaneidade.
O desenvolvimento acelerado da população mundial, da economia e da tecnologia durante os séculos XIX e XX e a primeira década do século XXI colocaram sobre o nosso planeta um fardo que pode ser perigoso para o futuro da Humanidade. 
Atualmente, estamos em via de promover alterações climáticas profundas e irreversíveis. A biodiversidade é cada vez mais limitada, o que enfraquece a capacidade de suporte para a nossa própria existência duradoura e sustentável, como civilização humana. O aumento da riqueza não foi acompanhado pela correção das injustiças sociais. Antes pelo contrário. Nunca como no nosso tempo existiu um tão grande desigualdade entre pobres e ricos, mesmo dentro das sociedades mais desenvolvidas, o que fragiliza a solidez da democracia, uma das grandes conquistas civilizacionais da Humanidade.
Atualmente, o nosso conhecimento da história planetária, extraordinariamente ampliado nas últimas décadas, dá-nos uma imagem frágil do nosso posicionamento no Cosmos. As investigações realizadas demostram a existência de ciclos climáticos dominados pelo predomínio de diversas idades glaciares, alternados por períodos mais amenos de duração muito mais breve.
Existem alguns autores chegam mesmo a sugerir que a Humanidade, tal como a conhecemos hoje, aproveitou  uma breve janela de oportunidade associada ao último período interglaciar. Tratar-se-ia de um “longo verão”, que permitiu em poucos milénios promover o nascimento da agricultura e as sucessivas revoluções tecnológicas e culturais, que conduziram às presentes estruturas das sociedades contemporâneas.
Perante esta situação, temos a responsabilidade ética de fazer do nosso pequeno planeta Terra um mundo cujas criaturas não sejam atormentadas pela guerra, torturadas pela pobreza e e pelo medo, divididas pela absurda separação de etnias, de cores e de ideologias.
Devemos ter a coragem e a lucidez de promovermos esta missão, a fim de que nos filhos e os filhos de nossos filhos possam orgulhar-se da sua condição de seres humanos.
Para reflexão, junto um documento de uma organização cristã mundial, a Cáritas Internacional, sobre o desenvolvimento sustentável do nosso planeta.


O FUTURO NA PERSPETIVA DA CARITAS:
TODOS COM FOME DE JUSTIÇA, EQUIDADE, SUSTENTABILIDADE ECOLÓGICA E CORRESPONSABILIDADE!


O mundo atravessa há alguns anos uma crise sem precedentes com resultados dramáticos: maior desigualdade, exclusão, violência, a exacerbação dos conflitos, migração forçada, o empobrecimento um número crescente de pessoas e o escândalo de 1000 milhões de pessoas passarem fome.
A Cáritas Internacional, confederação mundial de 164 organizações católicas de solidariedade, reafirma a seu conceito de desenvolvimento humano integral solidário, entendido como um conceito abrangente que tem em conta a interdependência da família humana e o seu bem-estar nas suas diferentes dimensões: económica, social, política, cultural, ecológica e espiritual.
Exigimos uma mudança de paradigma, uma nova civilização que coloque a dignidade e bem-estar de homens e mulheres no centro de toda ação. Os compromissos assumidos na Cimeira do Rio + 20 devem contribuir para validar esta perspetiva.
“Sem verdade, sem confiança e amor pelo que é verdadeiro, não há consciência e responsabilidade social, e a atividade social acaba à mercê de interesses privados e lógicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade, sobretudo numa sociedade em vias de globalização que atravessa momentos difíceis como os atuais.” (CiV 5).
No caminho para esta mudança, no qual esperamos que a Cimeira Rio+20 seja um marco, existem cinco elementos/dimensões que são fundamentais:
1) UM FUTURO SEM FOME
Apelamos aos líderes para que tornem a luta contra a fome uma prioridade e garantam o direito à alimentação. A alimentação é a base para desenvolver as nossas capacidades e talentos. Se, como está expresso no documento zero, 1/6 da população mundial é subnutrida (75% deles são pequenos agricultores), então estes não podem contribuir plenamente para o bem-estar das suas comunidades e das suas famílias. Desperdiçar recursos importantes essenciais para a saúde do nosso planeta.
2) UM FUTURO COM VISÃO
Apelamos aos líderes para que mantenham a visão dos Objetivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM) e os seus compromissos na sua implementação. Os ODM representam um roteiro para o desenvolvimento sustentável e para um mundo mais justo. É essencial que, dentro de um novo quadro, estes objetivos incluam não só os compromissos assumidos pelos países desenvolvidos como também a promoção de um modelo de desenvolvimento a favor do bem-estar de toda a humanidade, do primado da justiça, da equidade, da sustentabilidade ecológica e responsabilidade.
3) UM FUTURO NO QUAL CUIDAMOS DA NOSSA CASA: A CRIAÇÃO
Apelamos à capacidade transformadora de todos os seres humanos para que utilizem com o máximo cuidado a Criação e que incentivem ativamente projetos, ideias e ações de conservação do meio-ambiente. Os ambientes da nossa vida, sejam rurais ou urbanos, devem permitir uma vida digna e saudável e devem ser ecologicamente sustentáveis. A exploração dos recursos naturais instalou-se, domina e expande-se. O ambiente como “recurso” ameaça o ambiente como 'casa'.
4) UM FUTURO COM UMA NOVA ECONOMIA VERDE
A Cáritas apoia a ideia de uma economia verde desde que assente nos princípios éticos da equidade e da solidariedade. Apelamos a que a construção de uma visão da "economia verde" não substituía ou deixe de fora as propostas do conceito de "desenvolvimento humano, integral e sustentável", construídas durante décadas.
Existe uma verdadeira preocupação, por parte das organizações, que o novo conceito de "economia verde" seja centrado num modelo de mercado e que venha fortalecer os princípios neoliberais de crescimento e que tenha como consequência a gestão privada do mercado da sustentabilidade, o aumento dos preços, uma privatização inimaginável de bens comuns (água, oceanos, florestas) e planos de ajustamento estrutural ambientais.
5) UM FUTURO COM UM NOVO CONTRATO SOCIAL
Propomos um modelo económico que tenha presente a democracia participativa e que promova a dignidade humana, o desenvolvimento humano sustentável e a distribuição de riqueza. Apelamos a todas as pessoas de boa vontade para que contribuam para uma cultura de respeito e diálogo e que fomente o acesso aos direitos e à justiça. È necessário definir um novo contrato social que tenha em conta a nossa interdependência e que nos impele a agir como cidadãos com responsabilidade pelo bem comum. Somos todos consumidores dos produtos da criação e, como indivíduos responsáveis, temos a possibilidade de escolher formas de vida que promovem o desenvolvimento, que respeitam o ambiente e que contribuem para reduzir os efeitos negativos nas populações mais pobres.

domingo, 1 de julho de 2012

A doutrina da Trindade explicada ao Homem do século XXI





Existem três maneiras de analisar racionalmente a doutrina da Trindade. as correntes ortodoxa, latina e moderna.
A teologia ortodoxa oriental parte da unidade da natureza do Pai. O Pai é fonte e origem de toda a divindade. Ele profere a Palavra, que é o Filho. Ao proferir a Palavra lhe sai simultaneamente o Sopro, que é o Espírito Santo. Os três recebem do Pai toda a natureza divina, por isso são consubstanciais.
A teologia latina, partilhada pela Igreja Católica Romana, pela Comunhão Anglicana e pelas principais Igrejas Protestantes partem da natureza divina, que é espiritual. O Espírito absoluto sem princípio e origem de tudo é o Pai. O Pai se conhece por sua Inteligência e gera o Filho. Pai e Filho se amam e juntos expiram o Espírito Santo. A mesma natureza se encontra nos três, por isso há um só Deus.
A teologia moderna parte das três Pessoas Juntas. Realça o facto de que as três estão sempre inter-relacionadas e em eterna comunhão (pericórese) .Esta relação é tão absoluta que os divinos Três se unificam sem se fundirem, sendo então um único Deus vivo.
Quando falamos do Pai, do Filho e do Espírito Santo, como três divinas Pessoas, a maioria dos cristãos entende a palavra pessoa no sentido corrente: um indivíduo que possui inteligência, vontade, sentimentos e pode dizer eu.  Em Deus haveria três inteligências, três vontades, três consciências. Se dissermos somente isto, sem acrescentarmos que os Três
estão sempre relacionados, cairemos fatalmente no erro do triteísmo. Com isso queremos dizer que, na verdade, teríamos três deuses distintos.
Como resultado desta dificuldade da compreensão da doutrina da Trindade pelo pensamento moderno, houve dois teólogos, um protestante, Karl Barth, e outro católico, Karl Rahner, que tentaram substituir a palavra pessoa na linguagem trinitária. Ela criaria mais dificuldades do que ajudaria os cristãos de hoje para entender o mistério da comunhão divina.  
Quando falamos de Deus simplesmente, fora da referência trinitária, diziam eles, podemos falar de pessoa. Caso contrário, pensaríamos que Deus significaria uma força cósmica impessoal. Deus seria então a Pessoa absoluta ou o Sujeito eterno.
Mas com referência à Santíssima Trindade sugeriam que se evitasse a palavra pessoa. No lugar dela, Karl Barth propõe que falássemos em três modos de ser. Trindade significaria, portanto, que a Pessoa eterna (Deus) realmente existe em três modos de ser, como Pai sem origem, como Filho sempre gerado do Pai e como Espírito Santo eternamente vindo do Pai e do Filho conjuntamente.
Karl Rahner aceitou esta mesma ideia, inserindo uma pequena modificação. Em vez de falar em três modos de ser, falou em três modos de subsistência. Esta modificação tenciona evitar o erro do modalismo. Segundo esta doutrina errónea, desenvolvida nos primeiros séculos do cristianismo, no fundo não se aceita a Santíssima Trindade, mas um só Deus se revelando em três maneiras distintas; seria somente para nós três; em si mesmo, Deus seria e continuaria sempre um. Karl Rahner diz que Deus é um mistério de comunhão. Está sempre saindo de si e se entregando em vida e amor É a autocomunicação
como mistério radical. Então: enquanto a autocomunicação, no próprio acto de se entregar permanece soberana e incompreensível, um princípio sem princípio se chama Pai; enquanto
esta autocomunicação se exprime e se faz compreensível e por isso é Verdade, se chama Filho; enquanto esta autocomunicação acolhe em Amor e cria União se chama o Espírito Santo. Este processo não é compreendido somente por nós, mas revela Deus assim como é em si mesmo; evitamos o modalismo e estamos diante do mistério da comunhão que sempre
se realiza em três modalidades reais e nos insere dentro do mesmo processo fazendo que, como pessoas, sejamos mais e mais capazes de doação e de amor.
Embora no Novo Testamento não existe uma doutrina elaborada da Trindade, tal que foi proclamada nos Concílios Ecuménicos, nomeadamente no Concílio de Niceia (325) e de Constantinopla (381), existem fórmulas triádicas, Para nos ajudar a compreender a relação
do Pai, do Filho e do Espírito, a luz do Novo Testamento, não existe melhor texto do que
o testemunho de defesa de Santo Estevão perante o Sinédio judaico, relatado por Lucas nos Actos dos Apóstolos:
Durante o seu discurso, Estevão tem uma visão: “Mas este, cheio do Espírito Santo e de olhos fixos no Céu, viu a glória de Deus e Jesus de pé, à direita de Deus” (Act. 7, 55).
Estevão não vê Deus em três seres, nem um símbolo triangular, muitas vezes
associado à Trindade na arte cristã ocidental:
A visão de Estevão consiste no seguinte:
- O Espírito Santo está ao lado de Estevão, está nele próprio. O Espírito Santo é a força e o poder visíveis provenientes de Deus, inspirando Estevão.
- O próprio Deus fica escondido, somente a sua glória e o seu poder é que são manifestos.
_ Jesus está à direita de Deus, isto é, partilha o tono divino com o mesmo poder e glória. Como Filho de Deus ressuscitado e acolhido na vida eterna de Deus, é simultaneamente representante de Deus junto da Humanidade e representante da Humanidade junto de Deus.
Portanto, bom base na reflexão de Hans Küng e de outros pensadores cristãos, aos nossos contemporâneos, podemos apresentar ao doutrina da Trindade da seguinte forma:
- Crer em Deus Pai significa crer no Deus único que criou o Universo e ama todas as suas criaturas, nomeadamente a Humanidade;
- Crer em Deus Filho significa crer na revelação do Deus único na figura histórica de Jesus de Nazaré, que é a Palavra, Imagem e Filho de Deus;
- Crer em Deus Espírito Santo significa crer na presença poderosa e santificadora de Deus e na sua acção sobre os seres humanos e o Universo em geral.
Em suma, a Trindade, numa explicação adequada à nossa contemporaneidade, deve ser compreendida como a forma infinitamente amorosa como Deus agiu e se revelou através de Jesus através da dádiva do Espírito Santo, de modo a promover a salvação universal e integral da Humanidade.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

O Ocidente o o resto do mundo


22 de agosto de 1415. Um exército português, comandando pelo rei D. João I, conquistou a cidade norte-africana de Ceuta, um acontecimento que veio marcar o início da expansão ocidental.
Contudo, no início do século XV, o predomínio do Ocidente no contexto mundial era tudo menos provável.
Com efeito, a Europa Ocidental estava devastada pelas terríveis consequências da Peste Negra, que dizimou dois terços da população, e das diversas guerras, tanto entre Estados como no interior dos mesmos.
A América do Norte era um vasto território desorganizado e pouco hospitaleiro, comparando com o esplendor das civilizações dos Astecas, no atual México, e dos Incas, que dominavam toda a área territorial entre os Andes e o Pacífico.
A China era a civilização mais poderosa do mundo. A Cidade Proibida estava a ser construída. O imperador Ming, Yong-Le, enviou o seu arrojado almirante Zheng He com uma vasta armada de navios e de 27.000 homens, explorar as costas da Ásia e da África Oriental.
O Império Otomano alargava os seus territórios nos Balcãs e conquistou a cidade de Constantinopla, em 1453, pondo fim ao Império Romano do Oriente, cujo declínio já se arrastava desde há séculos.
Contudo, os países da parte mais ocidental do grande continente euroasiático começaram a emergir e assumiram-se progressivamente como potências à escala global.
Com efeito, nos últimos cinco séculos, o Ocidente conseguiu impor-se progressivamente, passando a liderar os destinos do mundo, uma situação que permaneceu inalterada até há bem pouco tempo, quando as potências politica e economicamente emergentes (Japão, China, India, Brasil e Rússia) começaram a colocar em causa a superioridade estratégica do Ocidente no contexto planetário.
De acordo com o historiador britânico Niall Ferguson, autor do bilhante livro "Civilzação - O Ocidente e os Outros", os fatores que contribuiram para a ascensão civlizacional do Ocidente foram os seguintes:
- A competição, que consistiu na descentrlização da vida política e económica, que criou as condições para o desenvovimento dos Estados-nações e da economia de mercado;
- A revolução científica, como via inovadora prvileigiada de conhecimento e de transformação da natureza;
- O reconhecimento dos dirteitos patrimoniais, que consstiiu no promado do direito como forma de garantia dos direitos patrimoniais e da resolução pacífica dos conflitos entre os seus detentores, criando condições para formas progressivamente mais sólidas de governo democrático e representativo; .
- O desenvolvimento da medicina como ramo da ciência que contribuiu para uma vida mais longa e saudável, inicialmente nos paises ocidentais, posteriotemrnte nos territórios coloniais; 
- A sociedade de consumo, criando uma sociedade baseada na compra e venda de bens de consumo, sem a qual a Revolução Industrial não seria sustentável;
_ A formação de uma ética de trabalho, baseada no Cristianismo, criando um enquadramento moral para a sociedade dinâmica e potencialmente instável gerada pelas condições atrás referidas.
Na sua obra, o autor preconiza dois argumentos essenciais para reflexão. Por um lado, o argumento de que a China e outros países emergentes estão a  ser mais eficientes na concretização das condições acima mencionadas, embora nem sempre a liberdade e democracia sejam valorizados. Por outro lado, o argumento de que o Ocidente estaria a perder a confiança nas suas capacidades, nas suas potencialidades e sobretudo nos seus valores.

A ascensão de Jesus. uma breve explicação para o homem do século XXI

No dia 20 de maio, celebrou-se a solenidade litúrgica da Ascensão de Jesus. O livro dos “Atos dos Apóstolos” começa pela sua narração. È a derradeira despedida. Jesus deixa de estar presente no plano terreno com os discípulos, subindo ao céu de forma definitiva.
A expressão bíblica “sobe aos céus” deve ser bem compreendida. Jesus não se eleva como um astronauta. Esta expressão é uma maneira de expor que Jesus entra numa outra dimensão da existência e que ele participa do poder e da glória de Deus.
Lucas, na qualidade de autor do O livro dos “Atos dos Apóstolos”, utiliza as imagens habitualmente usadas pelos escritores para falar das intervenções divinas na história humana. O “Céu” designa a morada de Deus. A “Nuvem” é um sinal simultaneamente da proximidade e da transcendência de Deus. As montanhas são os lugares privilegiados de encontro entre Deus e os seres humanos.
Não se deve dissociar a Ressurreição da Ascensão. Eles são aspetos do mesmo mistério: Jesus ressuscitado entra definitivamente na realidade divina. Por isso, a Ascensão deve ser compreendida no contexto dos acontecimentos da Páscoa. Para lhes dar maior realce, Lucas separou-os. De um lado, a vitória sobre a morte. Do outro lado, a participação no poder e na gloria de Deus. Os quarenta dias referidos por Lucas entre a Ressurreição e a Ascensão não devem ser entendidos em termos literais. Na linguagem bíblica, “quarenta dias” ou “quarenta anos” significa um tempo notável. Recorde-se os quarenta dias de jejum de Jesus ou os quarenta anos da viagem do povo de Israel, liderado por Moisés, entre o Egito e a Terra Prometida.   
Isto explica o facto dos evangelhos de Mateus e de João não falarem na Ascensão. Para eles, é claro que Jesus, logo no momento da Ressurreição, é participante do poder e da glória divinos.
Na sua descrição da Ascensão, Lucas escreve que Jesus disse aos seus discípulos: Mas ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria e até aos confins do mundo”. Após enuciar as últimas palavras do Mestre, Lucas prossegue a sua descrição: “Dito isto, elevou-se à vista deles e uma nuvem subtraiu-o a seus olhos. E como estavam com os olhos fixos no céu, para onde Jesus se afastava, surgiram de repente dois homens vestidos de branco, que lhes disseram: «Homens da Galileia, porque estais assim a olhar para o céu?»”.
Devemos ver aí simultaneamente uma prova da presença divina e um apelo. Por um lado, a prova de que os discípulos e todos os seres humanos de boa vontade vão receber o Espírito Santo, o Espírito de Deus, para prosseguir a obra de Jesus. Por outro lado, um apelo para que não fiquem de braços cruzados. O que é relevante é dar testemunho de Jesus para que a sua mensagem salvadora e libertadora do Reino de Deus se concretize plenamente no nosso mundo.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

A Ressurreição de Jesus: uma abordagem histórica

A questão da Ressurreição de Jesus desempenha um papel fundamental no centro da fé cristã. Não existe forma de Cristianismo que não afirme que após a morte de Jesus na cruz, Deus o trouxe de volta à vida.
É um facto histórico comprovado que Jesus foi executado publicamente na Judeia no século I da nossa era, sob a autoridade do prefeito romano Pôncio Pilatos, através da crucificação, com o envolvimento dos principais dirigentes do Sinédrio judeu. As narrativas do Novo Testamento e de autores não cristãos como Flávio Josefo, Tácito, Luciano de Samósata e Maimónides atestam a veracidade desses aspetos históricos tão importantes da vida de Jesus Cristo.
Contudo, a questão da ressurreição é mais complexa. Até o século XVIII, a crença na ressurreição de Jesus era um dado inabalável e incontroverso. O Iluminismo do século XVIII e a crítica histórica do século XIX, no entanto, suscitaram uma série de questionamentos. A razão pôs em xeque a plausibilidade de que uma pessoa seja ressuscitada dentre os mortos e faça aparições públicas. Quando se aplicou a historiografia crítica aos textos bíblicos, a historicidade das narrativas da ressurreição foi posta em questão.
Na atualidade, como deve ser interpretada a ressurreição de Jesus? Embora não seja fácil formular um enquadramento histórico da ressurreição de Jesus, podemos enunciar alguns pontos essenciais que ajudem a defini-la.
Um primeiro ponto fundamental é que certamente os primeiros discípulos acreditaram que o próprio Jesus estava vivo, fora ressuscitado e exaltado na glória com Deus. Por outras palavras, o testemunho do Novo Testamento não é meramente um fenómeno existencial ou comunitário, de que Jesus subsiste na fé da comunidade, e sim um fenómeno real e objetivo, na hipótese de que esses termos sejam apropriados, por afirmar que Deus agiu em benefício de Jesus, de modo que ele se encontra vivo.
Segundo, a ressurreição de Jesus não foi um retorno à vida neste mundo e não foi a reanimação de um cadáver. Pelo contrário, a ressurreição de Jesus foi uma passagem para uma outra dimensão, uma assunção à esfera da realidade última e absoluta que é Deus e que, enquanto Criador, difere da criação. O que se passou na ressurreição de Jesus diz respeito a uma outra ordem de realidade que transcende a realidade espácio-temporal do Universo onde estamos inseridos, porque é o domínio de Deus.
Em terceiro lugar, a ressurreição foi a exaltação e glorificação da pessoa individual, Jesus de Nazaré. Aquele que foi ressuscitado não é outro senão o próprio Jesus, de modo que existe continuidade e identidade entre ele, no decorrer da vida, e o seu ser com Deus.
Por fim, não é demais reiterar o caráter absolutamente central da ressurreição de Jesus no surgimento e no desenvolvimento do Cristianismo. O Cristianismo, que começou como um movimento de génese judaica do primeiro século da nossa era, era um movimento pelo reino de Deus, um movimento messiânico e um movimento de ressurreição.
À primeira vista, a crucificação de Jesus era o símbolo de esperança não apenas derrotada, mas esmagada e dizimada. Em geral, admite-se que a crucificação de Jesus causou desorientação e desânimo em seus discípulos. Há evidências de que deixaram Jerusalém, talvez tenham fugido, na sequência do que era visto como a tragédia da crucificação de Jesus. Mas, passado pouco tempo, desenvolveu-se um movimento religioso particularmente dinâmico que transformou radicalmente o percurso histórico da Humanidade. Este surto de energia humana desenvolveu-se porque Jesus havia ressuscitado, com base no princípio de que a Sua ressurreição deve ser concebida como a declaração divina de que a vida de Jesus é a revelação por excelência de Deus na história humana.

terça-feira, 6 de março de 2012

Entre Damieta e Assis: a opção entre a guerra e a paz

Outono de 1219. Um exército de cruzados oriundos da Europa Ocidental cerca a cidade egícia de Damieta, no âmbito da Quinta Cruzada.
A cruzada foi liderada por André II, rei da Hungria; Leopoldo VI, duque da Áustria; Jean de Brienne, rei titular de Jerusalém, e Frederico II, imperador do Sacro Império Romano-Germânico.
Decidiu-se que para se conquistar Jerusalém (controlada pelos muçulmanos desde 1187) era necessário conquistar o sultanato do Egito primeiro, uma vez que este controlava o território da Palestina. Em maio de 1218, as tropas de Frederico II se puseram a caminho do Egito, sob o comando de Jean de Brienne. Desembarcados em São João de Acre, decidiram atacar Damieta, cidade que servia de acesso ao Cairo, a capital. Em agosto começaram o cerco de Damieta.
Num ambiente marcado pela guerra e pela violência, um homem marcou a diferença: Francisco de Assis.
Francisco,  já então conhecido como fundador da Ordem dos Frades Menores, deixou a sua cidade de Assis para ir ao encontro dos irmãos muçulmanos para lhes anunciar o evangelho da Paz. A 5 de novembro assistiu à tomada de Damieta por parte dos cruzados cristãos, depois de os ter tentado convencer a evitar a sangrenta batalha.
Em seguida, manteve uma entrevista com o sultão Malik Al-Kamil que, impressionado, ao fim da visita pediu que Francisco orasse para que Deus lhe mostrasse a forma de cultuá-lo que fosse de seu agrado e permitiu que pregasse entre os seus súbditos. Dali passou para a Palestina, peregrinando pelos Lugares Santos, onde recebeu a notícia de que os irmãos no Marrocos haviam sido martirizados
Num tempo em que muitos pregavam a cruzada e usavam a violência das armas em nome da fé, Francisco teve a inspiração de propor outro caminho, ordenando, na sua Regra, que “os irmãos que vão para entre os Muçulmanos se devem comportar no meio deles do seguinte modo: não litiguem nem disputem mas sujeitem-se a toda a criatura humana por amor de Deus e confessem ser cristãos”.
Mas haveria que lembrar mais um acontecimento, de entre os diversos gestos de paz promovidos pelo "Povorello" de Assis, para melhor percebermos o motivo pelo qual Assis aparece associada ao renovamento do Espírito de Paz.
Contam as fontes franciscanas que, pelo ano de 1225, entre o bispo de Assis e o podestá (governante) da cidade, houve um conflito grave, ao ponto de o primeiro ter excomungado este último. Francisco, triste e indignado sobretudo por ver que ninguém fazia algo para restabelecer a paz entre os dois, decidiu intervir. Envolveu então seus irmãos para que convidassem bispo e podestà e a população da cidade para celebrarem um encontro de reconciliação.
Compôs, para essa circunstância, mais uma estrofe do seu Cântico do Irmão Sol que reza assim: “Louvado sejas tu, meu Senhor, por quem perdoa por teu amor; por quem sofre provações e doença; feliz quem as suporta em paz, porque será por ti, Altíssimo, coroado!”
Deu-se o encontro, em que os frades cantaram esta estrofe e, e a paz foi restabelecida. Recordo estes episódios e as palavras de Francisco para recordar – caso fosse necessário - que é o mesmo Espírito que moveu Francisco a transpor fronteiras para dialogar com o Outro ou que o moveu a intervir em tantas situações de conflito entre pessoas, poderes e instituições, que está na génese do “Espírito de Assis”.
O Papa João Paulo II, inspirando-se na ousadia evangélica dos gestos e palavras do Santo de Assis, quis fazer renascer das cinzas do século XX, um século marcado por guerras e pela intolerância, esse Espírito que nos convoca ao encontro e ao diálogo para a paz. Momentos que se foram repetindo ao longo das últimas duas décadas e meia, em Assis e por todo o mundo, que constituem já um património valioso da humanidade.
O Espírito de Assis não é, pois, o espírito de Francisco ou de qualquer outro homem, é o Espírito do próprio Deus.
O Espírito de Deus está fora do qualquer controlo humano. Ele é como o vento. É o que Jesus afirmava a Nicodemos. “Tu ouves o vento, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim acontece àquele que nasce do Espírito” (Evangelho de João 3, 8). 
O Espírito não se deixa fechar por quem quer que seja, superando as fronteiras que os seres humanos levantam entre classes socias, países, etnias e culturas. É por isso que aqueles que estão sob ação são os mais livres de entre os homens e mulheres.
Ele não sopra unicamente entre os cristãos, mas também nas mentes e nos corações de todos os homens e de todas as mulheres de boa vontade. Os cristãos deverão reconhecer a sua presença e a sua ação nas mais diversas manifestações em prol da dignificação da pessoa humana.
Não há, pois, que ter medo dos que são movidos por esse Espírito, devemos é perguntar, que espírito nos move a nós. Só percorrendo o caminho da paz, estamos no caminho certo, porque estamos no caminho do Deus da paz e do amor. Por isso, não existe um caminho para o diálogo: o caminho é o diálogo; assim como não há uma via para a paz: a via é a própria Paz.
O diálogo, não é, para o cristão, opcional, mas uma exigência da própria fé, que nos diz que nenhuma situação humana nos é estranha ou indiferente, muito menos quando a dignidade e os direitos fundamentais da pessoa humana são postos em causa.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Refletir sobre o Holocausto


27 de janeiro é o Dia Internacional de Memória do Holocausto. Um dia para não esquecer os milhões de vítimas do regime nazi, nomeadamente o horror vivido por homens, mulheres e crianças deportadas de toda a Europa para os campos de concentração, entre eles Auschwitz-Birkenau, na Polónia, libertado pelas tropas da extinta União Soviética a 27 de janeiro de 1945.

A Organização das Nações Unidas instituiu a data em 2005 para manter viva a memória deste acontecimento, um dos mais trágicos da História da Humanidade.

Não é fácil refletir sobre o Holocausto, pois entra-se num mundo de horror, de ódio, de perseguição, de cegueira ideológica, de estupidez, de conivências e de omissões. Mas a tarefa, ainda que dolorosa, é necessária para que o passado não seja esquecido e a consciência ética não seja ofuscada.
O percurso histórico da Humanidade revela o que o ser humano é e do que ele é capaz. Pensar o Holocausto é voltar-se para a dimensão mais obscura e terrível da condição humana e ver que o ser humano foi capaz de produzir uma tragédia tão grande que nos faltam palavras suficientes para expressar o seu horror.
O mundo não é mais o mesmo antes e depois do Holocausto. A presença do mal é de tal maneira sufocante que muitos se recusam a aceitar um sentido para a vida. Como dizia o Theodore Adorno (1903-1969), filósofo alemão e um opositor convicto do nazismo:
"Depois de Auschwitz, a sensibilidade não pode deixar de ver em toda afirmação da positividade da existência uma charlatanice, uma injustiça para com as vítimas, e tem de revoltar-se contra a extração de um sentido, por abstrato que seja, daquele trágico destino".
Um sobrevivente do Holocausto declarou que a Europa se tornou um lago de sangue congelado. No continente de Beethoven, Goethe e Mozart, as ideais do humanismo, do cristianismo e da democracia foram terrivelmente despedaçados.
Por conseguinte, a palavra “Shoah” é adequada para descrever uma tragédia de tão ampla magnitude. "Shoah" é uma palavra hebraica que significa extermínio e devastação, e é usada para se referir ao Holocausto.
Já o termo "Holocausto" tem origem grega e pertence ao mundo religioso: significa o sacrifício em que uma oferenda é inteiramente consumida pelo fogo. A ideia de holocausto, aplicada ao massacre de homens, mulheres e crianças nos campos de concentração do Terceiro Reich nazi, pretende significar a abrangência da matança, que foi um verdadeiro genocídio. Estes campos de concentração exterminaram 6 milhões de judeus e 5 milhões de não-judeus, que incluíam polacos, russos, homossexuais e opositores de diversas correntes políticas ao nazismo.
O impacto do Holocausto na consciência ética da Humanidade foi tão profundo que levou à adoção da Declaração Universal dos Direitos do Homem pela Assembleia Geral das Organizações das Nações Unidas, em 10 de dezembro de 1948.
Analisando a história das relações entre cristãos e judeus, depois do Holocausto, da Segunda Guerra Mundial e do Concílio Vaticano II, muita coisa mudou. As principais confissões cristãs não sonham com o retorno à cristandade de outrora, com os seus privilégios e distinções. Aceitam a sociedade moderna pluralista e a autonomia das realidades temporais. Aceitam a democracia e mudaram a sua forma de encarar os não-cristãos.
Nós não somos prisioneiros do passado e não estamos condenados a repeti-lo. O ser humano, imagem e semelhança de Deus, é livre e capaz de conversão, não só de uma forma pessoal, mas também de uma forma coletiva, ainda que ela se faça num processo de avanços e recuos.

Uma consequência da Segunda Guerra Mundial e os seus impasses, é que os cristãos de diversas confissões conquistaram uma consciência mais nítida de sua missão que inclui a defesa dos pobres e oprimidos.

Como cristãos, partilhamos com profundo respeito e compaixão a experiência de extermínio sofrida por todos os que sofreram nas mais diversas formas de autoritarismo e pelo povo judeu em particular.

Desejamos que a nossa tristeza nos leve a novas relações com o povo judeu, sem antissemitismos, desconfianças e ressentimentos, mas com respeito recíproco compartilhado, como convém àqueles que adoram o único Criador e Senhor e têm um mesmo pai na fé, que é Abraão.

A consciência cristã aprendeu com o povo judeu que o Universo e a Humanidade são criações divinas, que Deus é fiel às suas promessas, e que Ele tem o poder de ressuscitar os mortos.

Por isso, o mundo tem sentido, a vida vale a pena ser vivida e a morte do justo não é em vão, pois todo o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, tem direito a uma vida livre e digna.