domingo, 13 de janeiro de 2013

Maria Madalena ou a dimensão feminina do Cristianismo



Pietro Perugino 047.jpg


Desde a publicação do livro “O Código da Vinci”, do escritor norte-americano Dan Brown, Maria Madalena tornou-se uma figura incontornável quando se fala da história do cristianismo.
O sucesso extraordinário do livro e do filme, bem como dos diversos títulos que surgiram na sequência da controversas polémica suscitada pelo conteúdo da obra acima mencionada, relaciona-se com a relaciona-se, entre outros fatores, com as referências polémicas a questões essenciais da fé cristã, o que faz dele um instrumento de desafio e uma trama em que pode cair quem não distingue entre história e teologia nem está suficientemente firmado na fé sobre Jesus e sobre as narrativas dos Evangelhos recebidos por todas as Igrejas desde há muitos séculos.
O que pode saber-se sobre Maria Madalena acerca do Novo Testamento e dos demais escritos denominados como apócrifos, isto é, que não foram oficialmente aceites pelas Igrejas.
Antes de mais, é da maior relevância acabar com o equívoco de que Maria Madalena foi uma prostituta arrependida e penitente. Conta a lenda que ela fugiu com uma soldado romano e que, depois de repudiada, foi violada por outros soldados. Jesus teria expulsado os demónios do seu corpo e ela, abandonando a prostituição, seguiu o movimento messiânico liderado pelo Mestre. Nesta lenda, existe uma associação, no mínimo lamentável, entre possessão maligna e sexualidade. 
Esta história acima referida remonta ao século VI. Em 591, o papa Gregório Magno, cujo pontificado durou entre 59º e 604, combinando erradamente algumas mulheres referidas nos Evangelhos – a mulher adúltera (Jo. 8,3-11), a pecadora que unge os pés de Jesus com as suas lágrimas (Lc. 7,36-38), a mulher de quem Jesus expulsou sete espíritos maus (Mc. 16, 9) – declarou Maria Madalena como uma prostituta.
As Igrejas do Oriente sempre rejeitaram esta tradição e as Igrejas Protestantes raramente a aceitaram. Mas, alguma iconografia e certos escritos ao longo da história da Igreja do Ocidente apresentaram-na por vezes como um símbolo do pecado sexual feminino, na preocupação de explorar o lado negativo da figura da mulher na Igreja.    
De facto, Maria Madalena foi uma figura proeminente, pois o seu nome aparece 12 vezes no Novo Testamento.
Maria Madalena veio da cidade de Magdala, de onde deriva o seu nome. A cidade estava localizada próximo do mar da Galileia, local central de comércio e que pertencia à rota internacional que atravessava a Palestina, onde as pessoas de todas as religiões e costumes se encontravam no mercado. Era uma cidade próspera, que comercializava peixe salgado, tecidos tingidos e bens agrícolas. Havia tolerância na comunidade, pelo encontro das culturas judaica e helénistica, profundamente conhecidas. A cidade de Magdala é o local para onde Jesus e seus discípulos se dirigiram em travessia, após ter alimentado mais de cinco mil pessoas com cinco pães e alguns peixes.
Embora não seja designada expressamente com o título de apóstola, Maria Madalena as características que distinguem os apóstolos dos outros discípulos.
Na verdade, ela acompanhou Jesus desde o início do seu ministério até à morte na cruz, pondo, até, os seus bens ao serviço da missão do Mestre. O seu amor por Jesus nunca esmoreceu, inclusive nos momentos mais sombrios da paixão e da morte. Ao contrário de outros discípulos, não fugiu nem negou o Mestre.
Foi a primeira pessoa a ver Jesus ressuscitado e, na alegria dessa vivência, levou a boa notícia aos demais discípulos. Eles duvidaram inicialmente, mas ela manteve a sua fé inabalável de que Deus ressuscitou e glorificou Jesus como Messias. Ela é verdadeiramente a apóstola dos apóstolos.
Geralmente, os evangelhos gnósticos, considerados mais tardios do que os quatro evangelhos canónicos do Novo Testamento, são textos originários de movimentos gnósticos ou esotéricos dos séculos II e III que pretendiam ter um conhecimento completo e absoluto de tudo através da superação dos limites da corporalidade para se tornarem mais espirituais. Alguns evangelhos gnósticos, de que se destaca o chamado “Evangelho de Filipe” dão uma grande importância a Maria Madalena, a quem chamam “a companheira do Senhor”, mas não dizem que Jesus e Maria foram casados.
Há quem reclame que sendo Jesus um rabi devia necessariamente ter casado. Contudo o judaísmo rabínico é posterior ao tempo de Jesus, no qual havia diferentes formas de exercer o judaísmo. Por outro lado, em grupos religiosos daquele tempo, como os Essénios, que tinham alguns pontos em comum com Jesus, praticava-se o celibato, o que permite pensar que Jesus tenha sido celibatário.
Mas, mesmo que tivesse casado tal não levantaria qualquer questão à essência da fé cristã, pois, desde os primeiros séculos se professa que em Jesus coexiste a dimensão divina com o a dimensão humana. É essa a grande afirmação do Credo de Niceia e de Constantinopla, quando declara Jesus como plenamente divino e humano. A questão do possível casamento de Jesus com Maria Madalena é do foro meramente histórico, de que não existe prova. Mas, mesmo que fosse verdadeira, isso não interferiria na natureza messiânica de Jesus.
Como escreveu o Abade Pierre (1912-2007), fundador dos Irmãos de Emaús e uma das figuras mais prestigiadas da França contemporânea, Jesus tanto pode ter tido uma vida sexual num amor partilhado como não, o que não o impediu de ser plenamente humano.
As mulheres foram muito importantes no desenvolvimento do cristianismo primitivo pelo papel que  desempenharam nas diversas  comunidades como apóstolas, profetizas, diaconisas, discípulas e cooperadoras, dando continuidade à tradição iniciada no movimento de Jesus  com Maria Madalena, Maria, mãe de Jesus e outras mulheres que acompanharam o Mestre ao longo da sua vida terrena.
Uma visão nova do papel das mulheres não pode deixar de ter repercussões na organização e na vivência das Igrejas, as quais devem ser cada vez mais comunidades inclusivas, que contribuam para um testemunho mais autêntico do amor de Deus pela Humanidade.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A visita de Magos a Jesus: uma abordagem multidisciplinar




No primeiro domingo de cada ano, celebra-se a festividade da Epifania, na qual se recorda a visita dos Magos ao menino Jesus.
A palavra Epifania significa aparição manifestação e vem do grego “epiphanéia.” No sentido religioso, a festividade da Epifania é a festa do reconhecimento da universalidade da salvação. Não há um povo, um grupo, uma pessoa a quem se destina com exclusividade a salvação oferecida por Deus em Jesus de Nazaré.
É importante que os cristãos e todas as pessoas de boa vontade meditem neste mistério. É o mistério de amor e da salvação da Humanidade e de toda a Criação. É Deus que vem ao encontro do ser humano para libertá-lo, para chamá-lo à plenitude da vida e da felicidade.
A visita dos Magos a Jesus é descrita no Evangelho de Mateus. É um texto de caráter essencialmente teológico,  o que não significa que não tenha uma base histórica, como veremos. Olhando para o povo da antiga Aliança, o evangelista quer falar do significado e do lugar do Messias na história da salvação. O Messias prometido pelos profetas do Antigo Testamento, enviado por Deus, realmente veio não somente para cumprir as promessas realizadas na antiga Aliança, mas para salvar a humanidade no seu todo. Jesus é o Messias da humanidade, o enviado por excelência de Deus, para transformar a História humana.
Os Magos não são personagens criados por dois milénios de tradição cristã. A sua existência, além de estar bem testemunhada no Evangelho, pode ser constatada por descobertas históricas.
Os Evangelhos marcam o nascimento de Jesus quando Octávio Cesar Augusto era imperador de Roma, quando Quirino era governador da província romana de Síria, e nos últimos anos do rei Herodes, o monarca vassalo dos romanos que governava a Palestina, que faleceu no mês de março do ano 4 a.C. Para os historiadores, Jesus nasceu uns sete anos antes da nossa era. O evangelista Mateus relaciona o evento com a aparição de uma estrela particularmente luminosa no céu do Médio Oriente.
Esta curiosa e extraordinária aparição está descrita numa tabuinha, na qual foram redigidos caracteres cuneiformes (uma das antigas formas de registos escritos). Trata-se de um autêntico documento astronómico e astrológico (então as duas ciências eram irmãs gêmeas) que revela a existência de uma conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes no ano 7 antes da nossa era.
Existem muitas hipóteses sobre a estrela que os magos viram e que os levou a enfrentar uma longa viagem com o objetivo de prestar homenagem a um recém nascido.
Em 1603, Johannes Kepler, astrônomo e matemático da corte do imperador Rodolfo II de Habsburgo, descobriu que tinha existido uma conjunção planetária de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, no ano 7 antes da nossa era, lembrando também que o famoso rabino e escritor Isaac Abravanel (1437-1508) havia falado de um influxo extraordinário atribuído pelos astrólogos hebreus àquele fenômeno.
Faltava uma demonstração clara. Chegou em 1925, quando o erudito alemão Padre Schnabel decifrou anotações neobabilônicas de escritura cuneiforme gravadas numa tábua encontrada entre as ruínas de um antigo templo,, na escola de astrologia de Sippar, antiga cidade localizada na confluência dos rios  Tigre e Eufrates, a uns cem quilômetros ao norte da Babilônia. A tabuinha encontra-se agora no Museu estadual de Berlim.
Entre os vários dados de observação astronómica sobre os dois planetas, Schnabel encontra na tábua um dado surpreendente: a conjunção entre Júpiter e Saturno na constelação de Piscis ocorreu no ano 7 antes da nossa era.. Além disso, segundo os cálculos matemáticos, esta tripla conjunção pôde ser vista com grande claridade na região do Mediterrâneo.
Os magos pertenciam à casta de sacerdotes persas e babilônios que se dedicavam ao estudo da astronomia e da astrologia. Apesar de não serem judeus, provavelmente eram seguidores da religião de Zoroastro e tinham conhecimento das profecias do Antigo Testamento sobre a vinda do Messias, dado que exstiam importantes comunidades judias na Mesopotãmia e na Pérsia.
Na astrologia antiga, Júpiter era considerado como a estrela do Príncipe do mundo e a constelação de Peixes como o sinal do final dos tempos. O planeta Saturno era considerado no Oriente a estrela da Palestina. Quando Júpiter se encontrou com Saturno na constelação de Peixes, significou que o Messias tinha surgido neste ano na Palestina.
Para finalizar, a visita dos Magos a Jesus mostra a universalidade da missão e da mensagem de Jesus, que visa a salvação para todos os seres humanos. Além disso, é uma salvação integral, que diz respeito à pessoa humana na sua plenitude, em todas as suas dimensões: pessoal e social, espiritual e corpórea, histórica e transcendente.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Rússia: o País das duas revoluções


Ficheiro:Soviet Union, Lenin (55).jpg

O ano que está a terminar marca o 95.º aniversário de um dos processo de transformação social e histórica mais significativos do século XX e da História da Humanidade em geral: a Revolução Russa.
Escrevi “Revolução Russa”, mas será mais correto falar de Revoluções Russas. Com efeito, houve duas revoluções russas: a revolução de fevereiro e a revolução de outubro.
No início de 1917, a Rússia, um dos principais países beligerantes na Primeira Guerra Mundial, era um verdadeiro vulcão em vias de explosão.
No domínio social, caraterizava-se por uma sociedade em que a nobreza e a Igreja Ortodoxa constituíam dois grupos sociais claramente privilegiados, que detinham a grande maioria das propriedades, num país de dimensões continentais em que cerca de 80% da população era constituída por camponeses que viviam em condições miseráveis e de verdadeira servidão, apesar de esta ter sido formalmente abolida pelo czar Alexandre II em 1861. O operariado industrial, que representava 2% da população vivenciava igualmente duras condições de vida. A burguesia russa não era muito numerosa e forte, o que contribuía para uma sociedade cada vez mais polarizada e desigual. 
No domínio económico, predominava uma agricultura arcaica, tecnicamente atrasada e de baixo rendimento. A industrialização, intensificada no último quartel do século XIX, concentrava-se num reduzido número de cidades e empresas de grande dimensões, muitas delas dominadas por capitais estrangeiros. 
Politicamente, vigorava o regime de monarquia absoluta e autocrática. O czar Nicolau II, que reinava desde 1881, assenta o seu poder numa corte corrupta e ostensiva, nas forças armadas e policiais e numa Igreja Ortodoxa alheia a todas as tentativas de renovação teológica, eclesial e espiritual. 
Etnicamente, a Rússia czarista era uma prisão de povos. As numerosas nacionalidades não russas da Império achavam-se completamente privadas de direitos, submetidas continuamente a todo o género de ultrajes e humilhações. O regime czarista tinha ensinado a população russa a ver as nacionalidades não russas como etnias inferiores, às quais se dava o qualificativo oficial de gente "de outras raças", e inha inculcado o desprezo e o ódio em relação a elas. O regime alimentava conscientemente as discórdias nacionais, instigava uns povos contra os outros, organizava perseguições de judeus e massacres entre tártaros e arménios no Cáucaso.
Na sequência da derrota da Rússia na guerra com o Japão (1903-1905), as diversas forças políticas de oposição ao absolutismo czarista tentaram uma revolução, em 1905. Apesar da revolução ter sido violentamente reprimida, o czar Nicolau II, relutantemente,  lançou o famoso Manifesto de outubro, que permitiu a criação de uma Duma (Parlamento) nacional e a existência de partidos políticos. Estas medidas surtiram escasso efeito, visto que os partidos eram sistematicamente vigiados e a Duma era controlada pela aristocracia e pelo czar, cujos poderes continuaram bastante amplos, fazendo dele o último monarca absoluto da Europa. Em 1914, a Rússia entrou em guerra como aliada da Entente contra as Potências Centrais (Alemanha, Império Austro-Hungáro e Império Otomano). A guerra agravou as dificuldades da população do vasto Império Russo em geral, agravando as suas precárias condições de vida. No plano militar, a Rússia foi derrotada pela Alemanha e pelos seus aliados com certa facilidade.
Em 23 de fevereiro de 1917, pelo calendário juliano, que se refere ao dia 8 de março no calendário gregoriano, uma série de reuniões e manifestações aconteceram em Petrogrado, por ocasião do Dia Internacional da Mulher. Nos dias que se seguiram, a agitação continuou a aumentar, recebendo a adesão das tropas encarregadas de manter a ordem pública, que se recusavam a atacar os manifestantes.
No dia 27 de fevereiro, uma multidão de soldados e trabalhadores com trapos vermelhos em suas roupas invadiu o Palácio Tauride, onde a Duma se reunia. Durante a tarde, formaram-se dois comités provisórios em salões diferentes do palácio. Um, formado por deputados moderados da Duma, que se tornaria o Governo Provisório. O outro era o Soviete de Petrogrado, formado por trabalhadores, soldados e militantes socialistas de várias correntes. Temendo uma repetição dos incidentes sangrentos de 1905, o grão-duque Mikhail ordenou que as tropas leais baseadas no Palácio de inverno não se opusessem à insurreição e se retirassem. Em 2 de março, cercado por amotinados, Nicolau II assinou sua abdicação.
Em face desta situação, a Duma proclamou a República, pondo fim à Monarquia imperial. Formou-se o Governo Provisório presidido pelo príncipe Georgy Lvov, um liberal, tendo o socialista Aleksandr Kerenski como um dos seus ministros mais proeminentes.  
Era um governo interessado em manter a participação russa na Primeira Guerra Mundial e que pretendia fazer instaurar Rússia um regime político democrático e federal.
O Governo Provisório não conseguiu debelar a crise interna e ainda insiste na continuação da guerra contra a Alemanha, em 4 de maio, um novo governo Provisório é formado, agora por mencheviques e socialistas-revolucionários, sendo presidido por Aleexandr Kerenski. 
A crise social e as derrotas na guerra contra a Alemanha provocam diversas sublevações, como as Jornadas de julho, que tiveram a participação dos marinheiros de Kronstadt. As insubordinações são controladas, porém é grande a pressão da população, é justamente depois desses incidentes, que Kerensky surge como principal dirigente do Governo Provisório e os socialistas reformistas chegam a obter maioria. 
Nessa conjuntura, o derrube do Governo Provisório já estava certamente desenhado, Lenine, líder do Partido Bolchevique, com a ajuda secreta da Alemanha, entrou clandestinamente na Rússia, criando as condições para a organização de uma insurreição armada que tem seu ponto culminante no dia 25 de outubro de 1917, que marcou a Revolução Vermelha.
Nessa ação, merece destaque a constituição de um Comitê Militar Revolucionário sob a liderança de Trotsky formado por quarenta e oito bolcheviques, quatro anarquistas e quatorze socialistas revolucionários de esquerda, sendo responsável pela ação que toma o Palácio de inverno em Petrogrado, sede de Kerensky e do seu governo. Kerensky fugiu da Rússia. Os bolcheviques, largamente maioritários no Congresso Panrusso dos Sovietes, tomam o poder em 7 de novembro de 1917. É criado um Conselho dos Comissários do Povo, presidido por Lênine. Trotsky assume o Ministério dos Negócios Estrangeiros e Estaline o das Nacionalidades. . 
Com o  fim da Revolução Branca, que vislumbrava uma Rússia democrática, verificou-se o surgimento do primeiro regime comunista do mundo, que assumiu rapidamente um caráter totalitário, escravizando e exterminando milhões de pessoas sistematicamente durante várias décadas, até ao derradeiro colapso, em 1991. E esta mesma ditadura por fim, dividiu o mundo, originando a Guerra Fria.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Contemplar Deus para além do masculino e do feminino

Eye of God


Quando se fala de Deus, geralmente a sua imagem está ligada à dimensão masculina. Mas esta imagem não tem fundamento sólido na História de revelação divina.
Com efeito, no primeiro livro da Bíblia, o, Génesis, é mencionado claramente que Deus criou a Humanidade e a criou homem e mulher; e criou ambos como sua imagem e semelhança (Gn 1, 27).
Portanto, somente enquanto masculino e feminino, a Humanidade representa Deus no planeta Terra. Deus está muito para além do género.
Nas últimas décadas, muitos cristãos deram conta de que a linguagem religiosa estava demasiado presa dentro da dimensão masculina.
Baseados na verdade fundamental da fé de que cada pessoa humana é imagem e semelhança de Deus, muitos crentes questionaram se não devemos superar a linguagem sexista (usando só os termos de um sexo, no caso, do masculino) e chegar a utilizar um discurso que aproveita tanto os valores de um sexo quanto de outro para expressar a riqueza infinita do Mistério Divino.
Efectivamente, um crescente número de crentes evitam de falar só de homem para expressar a humanidade e aprendem a dizer sempre homem e mulher, ou simplesmente o ser humano, ou a pessoa humana.
De forma semelhante, evitam de falar de Deus apenas como Pai; introduzindo também a palavra Mãe. Em 1978, o Papa João Paulo I, cujo pontificado durou somente 33 dias, fez um dia a seguinte proclamação numa audiência pública:"Deus é Pai, mas é principalmente Mãe". Esta proclamação provocou um profundo incómodo nos setores mais conservadores da Igreja Católica.
No Antigo Testamento, os profetas usavam expressões que simbolizavam Deus como a Mãe que eleva as pessoas até o colo, beija-as e enxuga-lhes as lágrimas. Ao dizer que Deus é misericordioso, para a mentalidade judaica significa dizer: Deus é como uma mãe que possui entranhas e se compadece de seus filhos e filhas como toda mãe se comove de seus filhos e de suas filhas.
Em Jesus, encontramos a integração perfeita do feminino e do masculino. Em primeiro lugar do masculino, pois Jesus não foi mulher, mas homem. Mas como todo o ser humano, ele incluía dentro de sua realidade também a dimensão feminina que ele expressou de uma forma admirável e verdadeiramente revolucionária para o seu tempo. Todo o dinamismo de Jesus, a sua coragem em enfrentar as oposições e a forma como encarou a própria morte, revelam a dimensão masculina dele, presente também na mulher, mas de forma distinta. A faceta feminina de Jesus expressa-se em aspectos essenciais como a ternura da existência humana, o cuidado, a misericórdia, a sensibilidade ao mistério da vida, particularmente para com os mais vulneráveis e excluídos e a interioridade na oração,
Os relatos dos Evangelhos apresentam-nos que Jesus como alguém que havia integrado a "anima" (dimensão feminina) dentro do seu "animus"(dimensão masculina). Primeiramente elabora uma relação profundamente humana e terna para com as mulheres que passam pelo seu caminho, várias das quais são suas discípulas (Lc. 10,38-42). Ele considera as mulheres como iguais em dignidade aos homens, uma ideia então verdadeiramente revolucionária.
Sempre toma a defesa da mulher desamparada como a adúltera, a mulher sirio-fenícia que suplica ajuda, a samaritana, a mulher corcunda e a que sofria de hemorragia.
Com atitudes bem femininas se verga sobre os pobres que encontra pelos caminhos; enche-se de compaixão face ao povo abandonado (Mc. 6,34), não esconde as lágrimas quando sabe do amigo Lázaro que morrera (Jo. 11,35). De forma muito feminina diz que quis juntar os filhos de Jerusalém como uma galinha reúne os pintainhos sob suas asas e eles não quiseram (Lc. 13,34).
Uma visão nova de Deus e de Jesus como seu enviado por excelência não pode deixar de ter repercussões na organização e na vivência das Igrejas, as quais devem ser cada vez mais comunidades inclusivas, nas quais mulheres e homens formem um discipulado de iguais, e contribuam no desenvolvimento de sociedades mais inclusivas, justas e solidárias.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Não há paz sem diálogo


As sociedades contemporâneas têm como uma das suas principais características a diversidade étnica, cultural e religiosa, que as migrações a nível global têm acentuado.
Esta dinâmica provoca uma interação intensa e constante entre perspetivas diferentes, por vezes complementares, mas, outras vezes, conflituantes.
Nos últimos anos, particularmente após os trágicos acontecimentos de 11 de setembro de 2001, tem-se agravado o risco do “choque de civilizações”, radicado na incapacidade de gerir esta diversidade, nomeadamente na recusa do diálogo e do respeito mútuo entre religiões.
A rutura do diálogo provoca feridas profundas na Humanidade. Todas as religiões falam de amor, compaixão e fraternidade, e cada religião, se vivida na sua plenitude genuína, deve levar a ações de paz.
Mas, nos cenários da contemporaneidade, encontramos indivíduos ou grupos que promovem conflitos em nome de um Deus dobrado ao seu desejo de poder e de domínio. Quando uma religião se torna uma ideologia, quando usa palavras e métodos ideológicos, então ela está perdida, torna-se destrutiva.
Independentemente da nossas convicções religiosas, temos responsabilidade de estabelecer uma boa comunicação com todos e oferecer o testemunho de uma vida coerente com a fé.
A nossa missão consiste em ser homens e mulheres de comunhão e de diálogo. Uma ótima forma de diálogo é a solidariedade espiritual: trazer à presença de Deus os irmãos e irmãs de outras convicções religiosas, com suas preocupações, angústias, aspirações e esperanças. A certeza que nos encoraja é a constatação de que é muito mais “aquilo que nos une do que o que nos divide”, e que temos muitas palavras em comum com cada ser humano, filho ou filha de Deus que é Pai de todas as suas criaturas.
Neste contexto, a Aldeia das Religiões é um projeto que merece o maior dos elogios. Dinamizado entre os dias 25 a 28 de outubro, este projeto foi uma excelente oportunidade para envolver os jovens (de todas as idades) a nível nacional e europeu em torno do diálogo entre as religiões, contribuindo a promoção dos valores da paz, da fraternidade e do enriquecimento mútuo.


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Viver o Evangelho com Amor

As sociedades ocidentais e a sociedade portuguesa em particular vivem uma conjuntura particularmente difícil, que afeta a generalidade dos seus membros e particularmente aqueles, que são cada vez, que se encontram numa situação sócio-económica mais vulnerável.
A presente crise deve ser uma oportunidade privilegiada de discernimento critico sobre as suas causas e as soluções necessárias para a sua superação.
Para além das suas dimensões económica e social, a atual crise não deixa de ser cultural e de valores.
Por isso mesmo, para além da indispensável atuação dos poderes públicos e das organizações da sociedade civil, a superação da atual crise requer uma mudança de consciência a nível individual e coletivo.
Todos os homens e mulheres que vivem neste planeta possuem uma dignidade essencial e direitos fundamentais, mas têm igualmente uma responsabilidade inegável pelo que fazem ou deixam de fazer. Todas as nossas decisões e atos, assim como as nossas omissões, têm consequências.
Os cristãos têm uma responsabilidade especial em manter viva essa responsabilidade, aprofundá-la e transmiti-la às gerações atuais e futuras.
As alegrias e as tristezas, as esperanças e as angústias dos seres humanos de hoje, sobretudo de todos aqueles que sofrem com as diversas formas de exclusão e de violência, devem ser também
as alegrias e as tristezas, as esperanças e as angústias dos discípulos de Jesus Cristo, e não existe nenhuma realidade verdadeiramente humana que não deva encontrar eco no seu ser.
Os cristãos devem procurar cumprir fielmente os seus deveres terrenos, guiados pelo espírito do Evangelho. Erram os que, sabendo que não temos aqui na Terra uma realidade permanente, pensam que podem por isso descuidar os seus deveres terrenos, sem terem em conta que a própria fé os obriga a cumprir com maior intensidade, segundo a vocação própria de cada um. Mas não menos erram os que, pelo contrário, consideram poder entregar-se às ocupações terrenas, como se estas fossem inteiramente alheias à vida religiosa, a qual pensam consistir somente no cumprimento dos atos de culto e de certos deveres morais. Esta separação entre a fé que se professa e o comportamento quotidiano deve ser considerado como um dos mais graves erros do nosso tempo.
Os cristãos têm a responsabilidade de cultivar uma espiritualidade orientada para o mundo contemporâneo, que contribua para a sua regeneração como homens e mulheres novos, inseridos na sociedade, santos e santificadores, seguindo o exemplo de Jesus Cristo.
A espiritualidade acima mencionada edifica o mundo segundo o Espírito de Deus; torna capaz de olhar para além da História, sem dela se afastar; de cultivar um amor apaixonado por Deus, sem tirar o olhar dos irmãos e de os amar como Ele os ama. É uma espiritualidade que confere unidade, sentido e esperança à existência, tantas vezes contraditória e fragmentada. Animados por tal espiritualidade, os cristãos podem contribuir, à maneira do fermento, para a santificação do mundo, através do cumprimento do próprio dever, guiados pelo espírito evangélico, e a manifestarem Jesus Cristo e a sua mensagem aos outros com o testemunho da sua própria vida.
Na vivência existencial do cristão, não pode haver duas vidas separadas: por um lado, a vida chamada “espiritual”, com os seus valores e exigências; e, por outro, a chamada vida “secular”, ou seja, a vida da família, do trabalho, das relações sociais, da cultura e da participação cívica e política.
Os cristãos, em estreita colaboração com todos os homens e mulheres de boa vontade, têm a responsabilidade de contribuir para uma sociedade na qual a dignidade da pessoa humana seja verdadeiramente promovida e valorizada.
Para tornar a sociedade mais digna da pessoa humana, é necessário revalorizar o amor fraterno na vida social - nos planos político, económico, cultural e ecológico - fazendo dele a norma suprema da nossa ação.
Se a justiça é, em si mesma, apta para uma partilha mais justa e equitativa dos direitos e dos deveres entre os seres humanos, somente o amor é capaz de libertar o ser humano na sua plenitude. Não se pode regular as relações humanas unicamente com a medida da justiça. Esta, em toda a diversidade das relações humanas, deve submeter-se, à primazia do amor, que é paciente e benigno, conforme proclama São Paulo no seu célebre hino ao amor, inserido na sua primeira carta à comunidade cristã da cidade grega de Corinto.
O amor deve ser o sinal distintivo dos cristãos. Jesus ensina-nos que a lei fundamental da perfeição humana e, portanto, da transformação do mundo, é o mandamento novo do amor, conforme está explicitado no Evangelho. O comportamento da pessoa só é plenamente humano quando nasce do amor, manifesta o amor, e é ordenado ao amor.
Esta verdade é igualmente válida no âmbito social. O amor deve estar presente em todas as grandes dimensões da vida social, como a economia, o trabalho, a política e a ecologia, entre outras.
Mais do que nunca, é necessário que os cristãos sejam testemunhas profundamente convictas do amor de Deus pela Humanidade, contribuindo para a construção de um mundo mais livre e mais fraterno.
 


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

O Concílio Vaticano II: 50 anos depois



No presente ano, celebra-se o 50.º aniversário da abertura do Concílio Vaticano II, um dos acontecimentos mais significativos do Cristianismo nos últimos dois séculos.
O Concílio Vaticano II, como ficou conhecido o XXI Concílio Ecumênico da Igreja Católica, foi convocado no dia 25 de dezembro de 1961, através da bula "Humanae salutis", pelo papa João XXIII, que o inaugurou no dia 11 de outubro de 1962. O Concílio só terminou no dia 8 de dezembro de 1965, no papado de Paulo VI.
O grande desejo de João XXIII era de que o Concílio Vaticano II fosse um segundo Pentecostes para a Igreja, O Vaticano II foi uma autêntica irrupção do Espírito de Deus sobre a Igreja, um acontecimento salvífico. Com efeito, existe “antes” e um “depois” do Vaticano II.
O contexto histórico do pós-segunda Guerra Mundial, nomeadamente as profundas transformações sócio-económicas das sociedades ocidentais, a presença crescente do Terceiro Mundo, dinamizada em grande parte pelo fim dos impérios coloniais europeus, o desenvolvimento dos meios de comunicação de massa e as mudanças nos domínios da cultura e dos costumes, bem como o contexto teológico-pastoral – emergência das teologias da história e transcendental, desenvolvimento dos movimentos litúrgico e bíblico, retorno às fontes patrísticas, aparecimento da Ação Católica – não deixaram de pesar na decisão histórica do papa João XXIII.
Sendo um profundo conhecedor da situação da Igreja Católica, João XXIII era um ser humano genuinamente preocupado com o relacionamento da Igreja com a Humanidade.
Neste âmbito, o Concílio debruçou-se sobre a melhor maneira da Igreja Católica renovar as suas estruturas internas e de servir o mundo, bem como para a promoção de uma nova forma de relacionamento com as demais confissões cristãos e as outras religiões, contribuindo deste modo para uma consciencialização mais profunda da unidade do género humano.
A relevância do Concílio deve ser valorizada na receção que lhe foi dada pelas comunidades cristãs, católicas e não católicas, e por outros setores da sociedade em todo o mundo As implicações dessa receção foram o desenvolvimento das conferências episcopais e dos sínodos, a valorização das Igrejas locais, a promoção do papel dos leigos, o surgimento das teologias contextuais — libertação latino-americana, negra africana, negra sul-africana, negra norte-americana, asiática, indígena — e o florescimento de novas correntes teológicas que buscam responder aos desafios atuais da humanidade, como a teologia feminista e a teologia ecológica.
Passado meio século, ainda não se concretizou plenamente a esperança de  uma Igreja em comunhão com a Humanidade, promotora da unidade, servidora do Reino de Deus.
A Humanidade dos nossos dias não pergunta à Igreja pela estrutura mais exata e bela da liturgia, nem por um regime mais ou menos ideal da cúria romana, nem tão pouco pelas divergências teológicas que distinguem os cristãos das diversas confissões. Interpela se a Igreja pode testemunhar a proximidade orientadora do mistério inefável que chamamos Deus.
Por conseguinte, a Igreja Católica e as demais Igrejas cristãs precisam de concentrar-se no essencial, ou seja, voltar a Jesus e ao Evangelho, promovendo uma evangelização que leve a uma experiência espiritual de Deus. É tempo de espiritualidade e de mística. E também de profecia em relação ao mundo dos pobres e dos excluídos, que são a grande maioria da Humanidade, e em relação ao planeta Terra, cujo equilíbrio ecológico está gravemente ameaçado. Mística e profecia são fundamentais nos nossos dias. Os cristãos tem a responsabilidade de gerar esperança e sentido a um mundo dilacerado pela guerra, pela pobreza e pela exploração desordenada de recursos essenciais para a vida das gerações atuais e futuras. É preciso ir ao essencial. E não nos devemos deixar enganar, não cair na velha tentação de tocar violino enquanto o Titanic afunda-se…
Nesse tempo de crise e de incerteza, os cristãos devem afirmar que, no meio do caos, está presente a Ruah, o Espírito de Deus que pairava sobre o caos inicial para gerar a vida, o mesmo Espírito que inspirou Jesus e o ressuscitou de entre os mortos.
Da crise da atualidade, pode surgir um tempo de graça, uma Igreja renovada, mais universal e evangélica, que promova a comunhão com os crentes das demais religiões e todos os seres humanos de boa vontade, tendo como finalidade fazer da Terra um planeta no qual todas as pessoas não sejam atormentadas pela guerra, pela fome e pelo medo, e possam viver de uma forma livre e digna.