terça-feira, 19 de março de 2013

Novo papa, novos desafios

Pope Francis I appears on the central balcony in Vatican City.

A eleição do novo papa Francisco ocorre numa época particularmente relevante da História da Humanidade. 
À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e globalizado, a Humanidade enfrenta, ao mesmo tempo, grandes oportunidades e grandes riscos.
Vivemos numa era de produção e de consumo sem precedentes. O progresso tecnológico desenvolveu as redes de comunicação de tal modo que podemos falar de uma “aldeia global”. A democracia e o primado do direito são valores formalmente reconhecidos pela generalidade dos países do mundo, embora em muitos deles haja uma grande distância entre as proclamações jurídicas e a prática dos poderes públicos  
Contudo, o sistema económico dominante, baseado numa confiança excessiva no mercado, tem causado sérios problemas sociais, políticos e ambientais. Os benefícios do desenvolvimento não estão a ser distribuídos equitativamente e as desigualdades sociais estão a aumentar, inclusive nas sociedades mais democráticas e prósperas do nosso planeta. Os conflitos e a violência têm aumentado e são causa de grande sofrimento. O crescimento sem precedentes da população humana tem sobrecarregado os sistemas ecológicos e sociais. O meio ambiente tem sido seriamente afetado, sendo os resultados mais visíveis as alterações climáticas e a extinção maciça de espécies. 
Neste contexto, a Humanidade espera da Igrejas cristãs e da Igreja Católica em particular que elas sejam faróis de esperança, o que implica uma renovação da Igreja Católica.
Para haver uma renovação genuína da Igreja Católica, é importante superar desde já um equívoco. Hoje, quando se fala de Igreja, é numa instituição gigantesca e nos seus hierarcas e sacerdotes que se pensa: papa, bispos, padres e diáconos. Temos de regressar às origens, quando Igreja significava a comunhão das Igrejas, entendidas como comunidades de cristãos congregados em nome de Jesus.
È interessante constatar que as últimas declarações do papa Bento XVI e as primeiras declarações do papa Francisco partilham a necessidade de valorizar a dimensão espiritual da Igreja Católica em detrimento da sua dimensão institucional.
No dia 14 de fevereiro, ainda papa, Joseph Ratzinger declarou o seguinte. "Nós somos a Igreja; a Igreja não é uma estrutura; nós, os próprios cristãos juntos, todos nós somos o Corpo vivo da Igreja. Naturalmente, isto é válido no sentido de que o 'nós', o verdadeiro 'nós' dos crentes, juntamente com o 'Eu' de Cristo, é a Igreja".
Por sua vez, no dia 16 de março, o papa Francisco anunciou no seu primeiro encontro com os representantes dos meios de comunicação social: “(A Igreja) apesar de ser indubitavelmente uma instituição também humana e histórica, com tudo o que isso implica, não é de natureza política, mas essencialmente espiritual: é o Povo de Deus, o Povo santo de Deus, que caminha rumo ao encontro com Jesus Cristo. (…) Cristo é o centro. Não o sucessor de Pedro, mas Cristo. Cristo é o centro. Cristo é o ponto fundamental de referimento, o coração da Igreja. Sem Ele, Pedro e a Igreja não existiriam, nem teriam razão de ser”. Também defendeu “uma Igreja pobre e para os pobres”. 
Atualmente, estamos perante uma oportunidade histórica de reformar a Igreja Católica. Não é preciso começar do zero. O Concílio Vaticano II foi um começo revolucionário, mas continua, em grande parte, por cumprir e sofreu desvios cujas consequências se sentem de forma amarga.
Importa alterar o modo da designação dos bispos, os lideres das Igrejas locais, na sua imensa diversidade geográfica e cultural. Eles devem ser eleitos por sínodos diocesanos constituídos por representantes dos clérigos e dos leigos, os quais devem ser eleitos democraticamente.
O bispo de Roma, isto é, o Papa, deveria ser eleito por um colégio constituído pelos representantes das conferências episcopais, das congregações religiosas e dos movimentos laicais, seguindo o princípio de o que diz respeito a todos, deve ser tratado por todos.
A Igreja deve assumir um compromisso cada vez mais sólido com a promoção da justiça social e da dignidade da pessoa humana. Se Deus se revelou em Jesus como Deus dos pobres, dos excluídos e das vítimas deste mundo, uma Igreja que não tornar visível essa revelação será sempre infiel a Jesus. A Igreja deveria retomar e propor aos poderes políticos e económicos deste mundo o ensinamento de Jesus de que é impossível servir a Deus e ao dinheiro. Esta será uma reforma constante e difícil, mas a Igreja deve ter muito claro e não esquecer nunca que está em jogo a sua fidelidade ao Deus revelado pelos profetas e de um modo muito especial por Jesus.
Deve ser reconhecida a igualdade de direitos e responsabilidades de homens e mulheres na Igreja, bem como a valorização da sexualidade enquanto dimensão fundamental da condição humana.
Deve ser incentivado o diálogo ecuménico com as demais Igrejas cristãs, o que passa pelo reconhecimento mútuo dos ministérios e dos sacramentos.
Deve ser promovido o diálogo com as religiões não cristãs e os não crentes, para que todos os homens e mulheres de boa vontade possam trabalhar em conjunto em prol de um mundo mais livre, solidário e sustentável.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A resignação de Bento XVI e o futuro da Igreja Católica




Raio cai na Basílica de S.Pedro em dia de resignação (EPA/ALESSANDRO DI MEO) 

No dia 11 do presente mês, o papa Bento XVI anunciou a sua resignação, um gesto que surpreendeu o mundo.
Com efeito, o último Papa que renunciou de livre vontade foi em 1294 o eremita Pietro Angeleri, que adoptou o nome papal de Celestino V. Mais perto de nós, Gregório XII também se demitiu, em 1415, não tanto por vontade própria, mas para garantir a unidade da Igreja, então dilacerada pelo Grande Cisma do Ocidente.
Foi um gesto de uma grande grandeza moral, lucidez e humildade, que deveria ser seguido como exemplo noutras estruturas da Igreja e da sociedade em geral. De um modo lúcido e ponderado, sentiu que não tinha as energias psíquicas e espirituais para liderar a Igreja Católica, sobretudo numa época, como a nossa, na qual os desafios do mundo, com incidência na fé, são gigantescos e não cessam de crescer.
É ainda prematuro fazer um balanço do pontificado de Bento XVI, mas pode-se apresentar algumas pistas de reflexão.
Deste pontificado fica a relevância do diálogo entre a fé e a razão, o prosseguimento do diálogo com as outras confissões cristãs e com as diferentes religiões, o empenho na paz entre israelitas e palestinianos e a defesa de uma globalização regulada e socialmente justa, que foi proclamada pela encíclica “Caritas in Veritate”.  
Mas não se pode esquecer a incapacidade de reformar a Cúria Romana, uma questão fulcral para o futuro da Igreja Católica. O próprio Bento XVI queixou-se de que as estruturas da Cúria lhe sonegavam informações. Além disso, os escândalos, desde a pedofilia à corrupção, do Vatileaks às intrigas no Vaticano, não contribuíram em nada para o prestígio da Igreja Católica no mundo contemporâneo.
Mais do que um líder, Joseph Ratzinger é um intelectual, aliás brilhante. É justo reconhecê-lo com um dos três pensadores cristãos mais importantes da atualidade, juntamente com o teólogo Hans Küng e o Dr. Rowan Williams, o antigo arcebispo anglicano de Cantuária.
Anunciada a resignação, já começou a ser abordada a questão da sucessão. Mas mais importante do que a questão da sucessão, temos que compreender o atual momento histórico e a necessidade premente de promover reformas estruturais na Igreja, de modo que ela possa ser um farol de esperança não somente para os cristãos de todo o mundo, mas para todos os seres humanos com quem partilhamos o nosso planeta Terra.
Não é tempo de retoques parciais. Na atualidade, é preciso ir ao essencial. Legitimamente, há quem questione a forma de designação do Papa, actualmente feita pelo colégio dos cardeais, sugerindo que ela deveria ser feita por um colégio constituído pelos presidentes de todas as conferências episcopais do mundo, refletindo de uma forma mais adequada a universalidade e a diversidade da Igreja.
A Igreja Católica, tal como as demais Igrejas cristãs, precisa de focalizar-se na essência do cristianismo, seguir Jesus e o seu Evangelho, promover uma evangelização que leve a uma experiência espiritual mais autêntica de Deus. Mas que também seja profética na proclamação de um modelo de desenvolvimento baseado na dignidade da pessoa humana e na ecologia, colocando-se ao lado do mundo dos pobres e excluídos que são a maior parte da Humanidade, e da mãe Terra, que está seriamente ameaçada.
Neste contexto, é da maior relevância que a Igreja Católica seja:
- Uma Igreja fraterna, com abolição do fosso entre leigos e clérigos e onde os crentes participem na designação dos seus bispos;
- Uma Igreja uma nova atitude face ao papel das mulheres, terminando com a sua exclusão dos ministérios ordenados;
- Uma Igreja que não imponha o celibato obrigatório aos sacerdotes;
- Uma Igreja que valorize a sexualidade como dimensão fundamental da condição humana, abandonando a ingerência na consciência dos fiéis, mas condenando, obviamente, todas as formas de abuso sexual;
- Uma  Igreja empenhada na globalização dos direitos humanos e na proteção do meio ambiente.
Numa época de crise universal, a Igreja deve ser um sinal da presença do Espírito de Deus no mundo, o Espírito que pairava sobre o caos inicial para gerar a vida, o mesmo Espírito que inspirou Jesus e o ressuscitou dentre os mortos.  
Por conseguinte, a Igreja é impelida pelo Espírito de Deus para promover a libertação dos seres humanos de todos os tempos e de todos os lugares, de modo a fazer do nosso planeta Terra um mundo mais livre, solidário e sustentável.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

A Liberdade e a Justiça segundo John Rawls



John Rawls,  foi um filósofo norte-americano,  tendo desempenhado um papel proeminente na filosofia política e moral do século passado e do inicio do presente século. 
Do seu nome completo John Rawls Bordley, nasceu em Baltimore, no estado de Maryland, em 21 de fevereiro de 1921, e faleceu em Lexington, Massachussets, em 24 de novembro. Esteve ao serviço do Exército norte-americano na frente do Pacífico da Segunda Guerra Mundial. Na sequência do bombardeamentos atómicos de Hiroshima e de Nagasaki, recusou prosseguir a vida militar e optou pela vida académica. Foi professor de Filosofia Política na Universidade de Harvard, tendo publicado, entre outras, as seguintes obras: Uma Teoria da Justiça (A Theory of Justice, 1971), Liberalismo Politico (Political Liberalism, 1993) e o O Direito dos Povos (The Law of Peoples, 1999).   
Retomando a teoria do contrato social, Rawls propõe-se a responder de que modo podemos avaliar as instituições sociais: a virtude das instituições sociais consiste no fato de serem justas. Em outros termos, para o filósofo norte-americano, uma sociedade coesa e ordenada partilha de uma conceção pública de justiça que regula a estrutura básica da sociedade. Com base nesta preocupação, Rawls formulou a teoria da justiça como eqüidade.
Para chegar a entendimento comum sobre o que é justo, ele imaginou uma situação hipotética e histórica similar ao estado de natureza (chamada de posição original) na qual os indivíduos escolheriam princípios de justiça. Tais indivíduos, concebidos como racionais e razoáveis, estariam ainda submetidos a um véu de ignorância, ou seja, desconheceriam todas aquelas situações que lhe trariam vantagens ou desvantagens na vida social (classe social e status, educação, conceções de bem, características psicológicas, etc.). Desta forma, na posição original todos compartilham de uma situação eqüitativa: são considerados livres e iguais.
Ao retomar a figura do contrato social como método, Rawls não tem como objetivo fundamentar a obediência ao Estado (como na tradição do contratualismo clássico de Hobbes, Locke e Rousseau). Ligando-se ao pensamentio de Kant (construtivismo kantiano), a ideia do contrato é introduzida como recurso para fundamentar um processo de construção de uma sociedade justa
Ao longo da sua obra, John Rawls analisa as consequências filosófico-políticas da questão relativa à possibilidade da existência de uma sociedade justa e estável, constituída por cidadãos livre e iguais, embora profundamente divididos entre eles por causa das suas ideias compreensíveis e razoáveis, de cariz ético, filosófico e religioso.
Segundo Rawls, esta questão prende-se com o problema da justiça. Rawls desenvolve uma teoria da justiça como equidade. Esta propõe uma conceção da justiça que afirma a prioridade do justo sobre o bem e define alguns princípios de justiça, visando a constituição duma estrutura de base social justa: o respeito das liberdades fundamentais; a igualdade de oportunidades e o princípio da diferença.
Rawls apresenta estes princípios da seguinte maneira.
Em primeiro lugar: cada pessoa deve ter um direito igual ao sistema mais alargado de liberdades de base iguais para todos, que seja compatível com um mesmo sistema de liberdades para os outros.   
Em segundo lugar: as desigualdades sociais e económicas devem ser organizadas de tal sorte que, ao mesmo tempo, possamos razoavelmente esperar que elas possam ser vantajosas para cada um eque elas sejam ligadas à posições e funções abertas à todos.
Rawls empreende uma reflexão sobre a conceção de pessoa livre. É à partir desta reflexão que quisemos extrair a significado do conceito de liberdade.
A conceção de Rawls define a pessoa como todo o ser humano capaz de ser, durante toda a sua vida, um membro normal e plenamente cooperante da sociedade.
Para compreender esta conceção, parece-nos imperioso dar conta da significação que Rawls dá ao conceito de sociedade.
Para este autor, a sociedade é um sistema equitativo de cooperação entre as pessoas livres e iguais que são tratadas como membros plenamente cooperantes da sociedade durante toda a sua vida.
Esta definição da pessoa e da sociedade em Rawls apresenta-nos a pessoa como essencialmente um ser cooperante. O pano de fundo desta conceção encontra-se identificado com uma filosofia política que se situa na tradição do contrato social. Com efeito, para Rawls, a pessoa concebida como ser cooperante, é constituída por duas faculdades da personalidade moral: a capacidade de ser razoável e a capacidade de ser racional.
A faculdade de ser razoável consiste na capacidade de respeitar os termos equitativos da cooperação. Estes compreendem substancialmente as ideias de reciprocidade e de mutualidade. Mais precisamente, ser razoável significa ser capaz dum sentido da justiça, isto significa que a pessoa humana deve ser capaz de ter uma compreensão dos princípios de justiça, para os aplicar e deixar-se motivar por um desejo eficaz de ação à partir dos mesmos princípios e de acordo com eles enquanto termos equitativos de cooperação em sociedade.
A faculdade de ser racional é a capacidade de formar e de manter uma conceção do bem. Uma conceção do bem é a ideia que a pessoa tem a propósito duma vida humana que merece ser vivida, quer dizer a representação duma vida digna. Isto compreende um sistema definido de fins e de finalidades que podem ser prosseguidos individualmente ou coletivamente. A conceção do bem comporta também a visão do mundo e da relação que a pessoa aí mantém.
Rawls propõe-nos uma conceção da pessoa livre. Assim, ele apresenta-nos três aspetos da pessoa livre. É livre aquele que:
- Possui a faculdade moral de formar uma conceção do bem;
- É fonte de revindicações válidas que se autenticam elas mesmas;
- É capaz de assumir a responsabilidade dos seus fins.
Analisando a conceção rawlsiana da liberdade, pode ser compreendida como a faculdade humana de formar, revisar e prosseguir uma conceção do bem melhorando-a pelas revindicações válidas que se autenticam elas mesmas e realizando-as através de meios que podemos razoavelmente esperar obter da contribuição de todos os membros da sociedade.
Para Rawls, a liberdade tem necessidade dos outros homens diante dos quais ela possa aparecer, se manifestar, quer dizer ela precisa dum espaço público. Este aspeto do espaço público é também assinalado por Rawls quando ele compreende a pessoa humana como ser cooperante, e a sociedade como sistema equitativo de cooperação entre pessoas livres e iguais.
Notamos também que Rawls contesta a identificação da liberdade ao livre arbítrio. Isto quer dizer que a liberdade é mais da ordem da ação e da palavra. O homem livre é aquele que age, que começa alguma coisa nova, que forma, revisa e prossegue uma conceção do bem; aquele que atual de acordo com os princípios equitativos de justiça.
John Rawls situa-se na perspetiva do liberalismo norte-americano e é levado por uma preocupação de propor uma teoria filosófico-política sobre a possibilidade de uma sociedade justa e livre em condições marcadas por conflitos profundos de ideias e doutrinas. É um apelo ao conceito da tolerância diante do pluralismo, afirmando a possibilidade de ser livre, apesar de condição pluralista da sociedade na qual a pessoa está inserida. Aí se apresenta o paradoxo da existência humana: liberdade e condição.

domingo, 13 de janeiro de 2013

Maria Madalena ou a dimensão feminina do Cristianismo



Pietro Perugino 047.jpg


Desde a publicação do livro “O Código da Vinci”, do escritor norte-americano Dan Brown, Maria Madalena tornou-se uma figura incontornável quando se fala da história do cristianismo.
O sucesso extraordinário do livro e do filme, bem como dos diversos títulos que surgiram na sequência da controversas polémica suscitada pelo conteúdo da obra acima mencionada, relaciona-se com a relaciona-se, entre outros fatores, com as referências polémicas a questões essenciais da fé cristã, o que faz dele um instrumento de desafio e uma trama em que pode cair quem não distingue entre história e teologia nem está suficientemente firmado na fé sobre Jesus e sobre as narrativas dos Evangelhos recebidos por todas as Igrejas desde há muitos séculos.
O que pode saber-se sobre Maria Madalena acerca do Novo Testamento e dos demais escritos denominados como apócrifos, isto é, que não foram oficialmente aceites pelas Igrejas.
Antes de mais, é da maior relevância acabar com o equívoco de que Maria Madalena foi uma prostituta arrependida e penitente. Conta a lenda que ela fugiu com uma soldado romano e que, depois de repudiada, foi violada por outros soldados. Jesus teria expulsado os demónios do seu corpo e ela, abandonando a prostituição, seguiu o movimento messiânico liderado pelo Mestre. Nesta lenda, existe uma associação, no mínimo lamentável, entre possessão maligna e sexualidade. 
Esta história acima referida remonta ao século VI. Em 591, o papa Gregório Magno, cujo pontificado durou entre 59º e 604, combinando erradamente algumas mulheres referidas nos Evangelhos – a mulher adúltera (Jo. 8,3-11), a pecadora que unge os pés de Jesus com as suas lágrimas (Lc. 7,36-38), a mulher de quem Jesus expulsou sete espíritos maus (Mc. 16, 9) – declarou Maria Madalena como uma prostituta.
As Igrejas do Oriente sempre rejeitaram esta tradição e as Igrejas Protestantes raramente a aceitaram. Mas, alguma iconografia e certos escritos ao longo da história da Igreja do Ocidente apresentaram-na por vezes como um símbolo do pecado sexual feminino, na preocupação de explorar o lado negativo da figura da mulher na Igreja.    
De facto, Maria Madalena foi uma figura proeminente, pois o seu nome aparece 12 vezes no Novo Testamento.
Maria Madalena veio da cidade de Magdala, de onde deriva o seu nome. A cidade estava localizada próximo do mar da Galileia, local central de comércio e que pertencia à rota internacional que atravessava a Palestina, onde as pessoas de todas as religiões e costumes se encontravam no mercado. Era uma cidade próspera, que comercializava peixe salgado, tecidos tingidos e bens agrícolas. Havia tolerância na comunidade, pelo encontro das culturas judaica e helénistica, profundamente conhecidas. A cidade de Magdala é o local para onde Jesus e seus discípulos se dirigiram em travessia, após ter alimentado mais de cinco mil pessoas com cinco pães e alguns peixes.
Embora não seja designada expressamente com o título de apóstola, Maria Madalena as características que distinguem os apóstolos dos outros discípulos.
Na verdade, ela acompanhou Jesus desde o início do seu ministério até à morte na cruz, pondo, até, os seus bens ao serviço da missão do Mestre. O seu amor por Jesus nunca esmoreceu, inclusive nos momentos mais sombrios da paixão e da morte. Ao contrário de outros discípulos, não fugiu nem negou o Mestre.
Foi a primeira pessoa a ver Jesus ressuscitado e, na alegria dessa vivência, levou a boa notícia aos demais discípulos. Eles duvidaram inicialmente, mas ela manteve a sua fé inabalável de que Deus ressuscitou e glorificou Jesus como Messias. Ela é verdadeiramente a apóstola dos apóstolos.
Geralmente, os evangelhos gnósticos, considerados mais tardios do que os quatro evangelhos canónicos do Novo Testamento, são textos originários de movimentos gnósticos ou esotéricos dos séculos II e III que pretendiam ter um conhecimento completo e absoluto de tudo através da superação dos limites da corporalidade para se tornarem mais espirituais. Alguns evangelhos gnósticos, de que se destaca o chamado “Evangelho de Filipe” dão uma grande importância a Maria Madalena, a quem chamam “a companheira do Senhor”, mas não dizem que Jesus e Maria foram casados.
Há quem reclame que sendo Jesus um rabi devia necessariamente ter casado. Contudo o judaísmo rabínico é posterior ao tempo de Jesus, no qual havia diferentes formas de exercer o judaísmo. Por outro lado, em grupos religiosos daquele tempo, como os Essénios, que tinham alguns pontos em comum com Jesus, praticava-se o celibato, o que permite pensar que Jesus tenha sido celibatário.
Mas, mesmo que tivesse casado tal não levantaria qualquer questão à essência da fé cristã, pois, desde os primeiros séculos se professa que em Jesus coexiste a dimensão divina com o a dimensão humana. É essa a grande afirmação do Credo de Niceia e de Constantinopla, quando declara Jesus como plenamente divino e humano. A questão do possível casamento de Jesus com Maria Madalena é do foro meramente histórico, de que não existe prova. Mas, mesmo que fosse verdadeira, isso não interferiria na natureza messiânica de Jesus.
Como escreveu o Abade Pierre (1912-2007), fundador dos Irmãos de Emaús e uma das figuras mais prestigiadas da França contemporânea, Jesus tanto pode ter tido uma vida sexual num amor partilhado como não, o que não o impediu de ser plenamente humano.
As mulheres foram muito importantes no desenvolvimento do cristianismo primitivo pelo papel que  desempenharam nas diversas  comunidades como apóstolas, profetizas, diaconisas, discípulas e cooperadoras, dando continuidade à tradição iniciada no movimento de Jesus  com Maria Madalena, Maria, mãe de Jesus e outras mulheres que acompanharam o Mestre ao longo da sua vida terrena.
Uma visão nova do papel das mulheres não pode deixar de ter repercussões na organização e na vivência das Igrejas, as quais devem ser cada vez mais comunidades inclusivas, que contribuam para um testemunho mais autêntico do amor de Deus pela Humanidade.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A visita de Magos a Jesus: uma abordagem multidisciplinar




No primeiro domingo de cada ano, celebra-se a festividade da Epifania, na qual se recorda a visita dos Magos ao menino Jesus.
A palavra Epifania significa aparição manifestação e vem do grego “epiphanéia.” No sentido religioso, a festividade da Epifania é a festa do reconhecimento da universalidade da salvação. Não há um povo, um grupo, uma pessoa a quem se destina com exclusividade a salvação oferecida por Deus em Jesus de Nazaré.
É importante que os cristãos e todas as pessoas de boa vontade meditem neste mistério. É o mistério de amor e da salvação da Humanidade e de toda a Criação. É Deus que vem ao encontro do ser humano para libertá-lo, para chamá-lo à plenitude da vida e da felicidade.
A visita dos Magos a Jesus é descrita no Evangelho de Mateus. É um texto de caráter essencialmente teológico,  o que não significa que não tenha uma base histórica, como veremos. Olhando para o povo da antiga Aliança, o evangelista quer falar do significado e do lugar do Messias na história da salvação. O Messias prometido pelos profetas do Antigo Testamento, enviado por Deus, realmente veio não somente para cumprir as promessas realizadas na antiga Aliança, mas para salvar a humanidade no seu todo. Jesus é o Messias da humanidade, o enviado por excelência de Deus, para transformar a História humana.
Os Magos não são personagens criados por dois milénios de tradição cristã. A sua existência, além de estar bem testemunhada no Evangelho, pode ser constatada por descobertas históricas.
Os Evangelhos marcam o nascimento de Jesus quando Octávio Cesar Augusto era imperador de Roma, quando Quirino era governador da província romana de Síria, e nos últimos anos do rei Herodes, o monarca vassalo dos romanos que governava a Palestina, que faleceu no mês de março do ano 4 a.C. Para os historiadores, Jesus nasceu uns sete anos antes da nossa era. O evangelista Mateus relaciona o evento com a aparição de uma estrela particularmente luminosa no céu do Médio Oriente.
Esta curiosa e extraordinária aparição está descrita numa tabuinha, na qual foram redigidos caracteres cuneiformes (uma das antigas formas de registos escritos). Trata-se de um autêntico documento astronómico e astrológico (então as duas ciências eram irmãs gêmeas) que revela a existência de uma conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes no ano 7 antes da nossa era.
Existem muitas hipóteses sobre a estrela que os magos viram e que os levou a enfrentar uma longa viagem com o objetivo de prestar homenagem a um recém nascido.
Em 1603, Johannes Kepler, astrônomo e matemático da corte do imperador Rodolfo II de Habsburgo, descobriu que tinha existido uma conjunção planetária de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, no ano 7 antes da nossa era, lembrando também que o famoso rabino e escritor Isaac Abravanel (1437-1508) havia falado de um influxo extraordinário atribuído pelos astrólogos hebreus àquele fenômeno.
Faltava uma demonstração clara. Chegou em 1925, quando o erudito alemão Padre Schnabel decifrou anotações neobabilônicas de escritura cuneiforme gravadas numa tábua encontrada entre as ruínas de um antigo templo,, na escola de astrologia de Sippar, antiga cidade localizada na confluência dos rios  Tigre e Eufrates, a uns cem quilômetros ao norte da Babilônia. A tabuinha encontra-se agora no Museu estadual de Berlim.
Entre os vários dados de observação astronómica sobre os dois planetas, Schnabel encontra na tábua um dado surpreendente: a conjunção entre Júpiter e Saturno na constelação de Piscis ocorreu no ano 7 antes da nossa era.. Além disso, segundo os cálculos matemáticos, esta tripla conjunção pôde ser vista com grande claridade na região do Mediterrâneo.
Os magos pertenciam à casta de sacerdotes persas e babilônios que se dedicavam ao estudo da astronomia e da astrologia. Apesar de não serem judeus, provavelmente eram seguidores da religião de Zoroastro e tinham conhecimento das profecias do Antigo Testamento sobre a vinda do Messias, dado que exstiam importantes comunidades judias na Mesopotãmia e na Pérsia.
Na astrologia antiga, Júpiter era considerado como a estrela do Príncipe do mundo e a constelação de Peixes como o sinal do final dos tempos. O planeta Saturno era considerado no Oriente a estrela da Palestina. Quando Júpiter se encontrou com Saturno na constelação de Peixes, significou que o Messias tinha surgido neste ano na Palestina.
Para finalizar, a visita dos Magos a Jesus mostra a universalidade da missão e da mensagem de Jesus, que visa a salvação para todos os seres humanos. Além disso, é uma salvação integral, que diz respeito à pessoa humana na sua plenitude, em todas as suas dimensões: pessoal e social, espiritual e corpórea, histórica e transcendente.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Rússia: o País das duas revoluções


Ficheiro:Soviet Union, Lenin (55).jpg

O ano que está a terminar marca o 95.º aniversário de um dos processo de transformação social e histórica mais significativos do século XX e da História da Humanidade em geral: a Revolução Russa.
Escrevi “Revolução Russa”, mas será mais correto falar de Revoluções Russas. Com efeito, houve duas revoluções russas: a revolução de fevereiro e a revolução de outubro.
No início de 1917, a Rússia, um dos principais países beligerantes na Primeira Guerra Mundial, era um verdadeiro vulcão em vias de explosão.
No domínio social, caraterizava-se por uma sociedade em que a nobreza e a Igreja Ortodoxa constituíam dois grupos sociais claramente privilegiados, que detinham a grande maioria das propriedades, num país de dimensões continentais em que cerca de 80% da população era constituída por camponeses que viviam em condições miseráveis e de verdadeira servidão, apesar de esta ter sido formalmente abolida pelo czar Alexandre II em 1861. O operariado industrial, que representava 2% da população vivenciava igualmente duras condições de vida. A burguesia russa não era muito numerosa e forte, o que contribuía para uma sociedade cada vez mais polarizada e desigual. 
No domínio económico, predominava uma agricultura arcaica, tecnicamente atrasada e de baixo rendimento. A industrialização, intensificada no último quartel do século XIX, concentrava-se num reduzido número de cidades e empresas de grande dimensões, muitas delas dominadas por capitais estrangeiros. 
Politicamente, vigorava o regime de monarquia absoluta e autocrática. O czar Nicolau II, que reinava desde 1881, assenta o seu poder numa corte corrupta e ostensiva, nas forças armadas e policiais e numa Igreja Ortodoxa alheia a todas as tentativas de renovação teológica, eclesial e espiritual. 
Etnicamente, a Rússia czarista era uma prisão de povos. As numerosas nacionalidades não russas da Império achavam-se completamente privadas de direitos, submetidas continuamente a todo o género de ultrajes e humilhações. O regime czarista tinha ensinado a população russa a ver as nacionalidades não russas como etnias inferiores, às quais se dava o qualificativo oficial de gente "de outras raças", e inha inculcado o desprezo e o ódio em relação a elas. O regime alimentava conscientemente as discórdias nacionais, instigava uns povos contra os outros, organizava perseguições de judeus e massacres entre tártaros e arménios no Cáucaso.
Na sequência da derrota da Rússia na guerra com o Japão (1903-1905), as diversas forças políticas de oposição ao absolutismo czarista tentaram uma revolução, em 1905. Apesar da revolução ter sido violentamente reprimida, o czar Nicolau II, relutantemente,  lançou o famoso Manifesto de outubro, que permitiu a criação de uma Duma (Parlamento) nacional e a existência de partidos políticos. Estas medidas surtiram escasso efeito, visto que os partidos eram sistematicamente vigiados e a Duma era controlada pela aristocracia e pelo czar, cujos poderes continuaram bastante amplos, fazendo dele o último monarca absoluto da Europa. Em 1914, a Rússia entrou em guerra como aliada da Entente contra as Potências Centrais (Alemanha, Império Austro-Hungáro e Império Otomano). A guerra agravou as dificuldades da população do vasto Império Russo em geral, agravando as suas precárias condições de vida. No plano militar, a Rússia foi derrotada pela Alemanha e pelos seus aliados com certa facilidade.
Em 23 de fevereiro de 1917, pelo calendário juliano, que se refere ao dia 8 de março no calendário gregoriano, uma série de reuniões e manifestações aconteceram em Petrogrado, por ocasião do Dia Internacional da Mulher. Nos dias que se seguiram, a agitação continuou a aumentar, recebendo a adesão das tropas encarregadas de manter a ordem pública, que se recusavam a atacar os manifestantes.
No dia 27 de fevereiro, uma multidão de soldados e trabalhadores com trapos vermelhos em suas roupas invadiu o Palácio Tauride, onde a Duma se reunia. Durante a tarde, formaram-se dois comités provisórios em salões diferentes do palácio. Um, formado por deputados moderados da Duma, que se tornaria o Governo Provisório. O outro era o Soviete de Petrogrado, formado por trabalhadores, soldados e militantes socialistas de várias correntes. Temendo uma repetição dos incidentes sangrentos de 1905, o grão-duque Mikhail ordenou que as tropas leais baseadas no Palácio de inverno não se opusessem à insurreição e se retirassem. Em 2 de março, cercado por amotinados, Nicolau II assinou sua abdicação.
Em face desta situação, a Duma proclamou a República, pondo fim à Monarquia imperial. Formou-se o Governo Provisório presidido pelo príncipe Georgy Lvov, um liberal, tendo o socialista Aleksandr Kerenski como um dos seus ministros mais proeminentes.  
Era um governo interessado em manter a participação russa na Primeira Guerra Mundial e que pretendia fazer instaurar Rússia um regime político democrático e federal.
O Governo Provisório não conseguiu debelar a crise interna e ainda insiste na continuação da guerra contra a Alemanha, em 4 de maio, um novo governo Provisório é formado, agora por mencheviques e socialistas-revolucionários, sendo presidido por Aleexandr Kerenski. 
A crise social e as derrotas na guerra contra a Alemanha provocam diversas sublevações, como as Jornadas de julho, que tiveram a participação dos marinheiros de Kronstadt. As insubordinações são controladas, porém é grande a pressão da população, é justamente depois desses incidentes, que Kerensky surge como principal dirigente do Governo Provisório e os socialistas reformistas chegam a obter maioria. 
Nessa conjuntura, o derrube do Governo Provisório já estava certamente desenhado, Lenine, líder do Partido Bolchevique, com a ajuda secreta da Alemanha, entrou clandestinamente na Rússia, criando as condições para a organização de uma insurreição armada que tem seu ponto culminante no dia 25 de outubro de 1917, que marcou a Revolução Vermelha.
Nessa ação, merece destaque a constituição de um Comitê Militar Revolucionário sob a liderança de Trotsky formado por quarenta e oito bolcheviques, quatro anarquistas e quatorze socialistas revolucionários de esquerda, sendo responsável pela ação que toma o Palácio de inverno em Petrogrado, sede de Kerensky e do seu governo. Kerensky fugiu da Rússia. Os bolcheviques, largamente maioritários no Congresso Panrusso dos Sovietes, tomam o poder em 7 de novembro de 1917. É criado um Conselho dos Comissários do Povo, presidido por Lênine. Trotsky assume o Ministério dos Negócios Estrangeiros e Estaline o das Nacionalidades. . 
Com o  fim da Revolução Branca, que vislumbrava uma Rússia democrática, verificou-se o surgimento do primeiro regime comunista do mundo, que assumiu rapidamente um caráter totalitário, escravizando e exterminando milhões de pessoas sistematicamente durante várias décadas, até ao derradeiro colapso, em 1991. E esta mesma ditadura por fim, dividiu o mundo, originando a Guerra Fria.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Contemplar Deus para além do masculino e do feminino

Eye of God


Quando se fala de Deus, geralmente a sua imagem está ligada à dimensão masculina. Mas esta imagem não tem fundamento sólido na História de revelação divina.
Com efeito, no primeiro livro da Bíblia, o, Génesis, é mencionado claramente que Deus criou a Humanidade e a criou homem e mulher; e criou ambos como sua imagem e semelhança (Gn 1, 27).
Portanto, somente enquanto masculino e feminino, a Humanidade representa Deus no planeta Terra. Deus está muito para além do género.
Nas últimas décadas, muitos cristãos deram conta de que a linguagem religiosa estava demasiado presa dentro da dimensão masculina.
Baseados na verdade fundamental da fé de que cada pessoa humana é imagem e semelhança de Deus, muitos crentes questionaram se não devemos superar a linguagem sexista (usando só os termos de um sexo, no caso, do masculino) e chegar a utilizar um discurso que aproveita tanto os valores de um sexo quanto de outro para expressar a riqueza infinita do Mistério Divino.
Efectivamente, um crescente número de crentes evitam de falar só de homem para expressar a humanidade e aprendem a dizer sempre homem e mulher, ou simplesmente o ser humano, ou a pessoa humana.
De forma semelhante, evitam de falar de Deus apenas como Pai; introduzindo também a palavra Mãe. Em 1978, o Papa João Paulo I, cujo pontificado durou somente 33 dias, fez um dia a seguinte proclamação numa audiência pública:"Deus é Pai, mas é principalmente Mãe". Esta proclamação provocou um profundo incómodo nos setores mais conservadores da Igreja Católica.
No Antigo Testamento, os profetas usavam expressões que simbolizavam Deus como a Mãe que eleva as pessoas até o colo, beija-as e enxuga-lhes as lágrimas. Ao dizer que Deus é misericordioso, para a mentalidade judaica significa dizer: Deus é como uma mãe que possui entranhas e se compadece de seus filhos e filhas como toda mãe se comove de seus filhos e de suas filhas.
Em Jesus, encontramos a integração perfeita do feminino e do masculino. Em primeiro lugar do masculino, pois Jesus não foi mulher, mas homem. Mas como todo o ser humano, ele incluía dentro de sua realidade também a dimensão feminina que ele expressou de uma forma admirável e verdadeiramente revolucionária para o seu tempo. Todo o dinamismo de Jesus, a sua coragem em enfrentar as oposições e a forma como encarou a própria morte, revelam a dimensão masculina dele, presente também na mulher, mas de forma distinta. A faceta feminina de Jesus expressa-se em aspectos essenciais como a ternura da existência humana, o cuidado, a misericórdia, a sensibilidade ao mistério da vida, particularmente para com os mais vulneráveis e excluídos e a interioridade na oração,
Os relatos dos Evangelhos apresentam-nos que Jesus como alguém que havia integrado a "anima" (dimensão feminina) dentro do seu "animus"(dimensão masculina). Primeiramente elabora uma relação profundamente humana e terna para com as mulheres que passam pelo seu caminho, várias das quais são suas discípulas (Lc. 10,38-42). Ele considera as mulheres como iguais em dignidade aos homens, uma ideia então verdadeiramente revolucionária.
Sempre toma a defesa da mulher desamparada como a adúltera, a mulher sirio-fenícia que suplica ajuda, a samaritana, a mulher corcunda e a que sofria de hemorragia.
Com atitudes bem femininas se verga sobre os pobres que encontra pelos caminhos; enche-se de compaixão face ao povo abandonado (Mc. 6,34), não esconde as lágrimas quando sabe do amigo Lázaro que morrera (Jo. 11,35). De forma muito feminina diz que quis juntar os filhos de Jerusalém como uma galinha reúne os pintainhos sob suas asas e eles não quiseram (Lc. 13,34).
Uma visão nova de Deus e de Jesus como seu enviado por excelência não pode deixar de ter repercussões na organização e na vivência das Igrejas, as quais devem ser cada vez mais comunidades inclusivas, nas quais mulheres e homens formem um discipulado de iguais, e contribuam no desenvolvimento de sociedades mais inclusivas, justas e solidárias.