quarta-feira, 23 de abril de 2014

A nação do arco-iris

 
No dia 24 de abril de 1994, realizaram-se as primeiras eleições livres, democráticas e multirraciais na República de África do Sul.
Este acontecimento marcou o fim do regime do apartheid, um sistema político autocrático baseado na institucionalização da segregação racial.
Embora a discriminação racial fosse um fenómeno já presente na época colonial, a situação agravou-se com a independência da África do Sul em relação ao Império Britânico, proclamada em 1910, e sobretudo com a ascensão ao poder do Partido Nacional, em 1948, uma formação política baseada na comunidade bóer ou afrikaner, de origem holandesa.
A partir de 1948, foram aprovadas diversas medidas legislativas, políticas e administrativas que implementaram o regime de apartheid. Os sul-africanos foram divididos em quatro grandes grupos raciais: “brancos”, “negros”, “de cor” e “indianos”. Os direitos de cidadania das populações não brancas foram sistematicamente restringidos e negados.
A transição do apartheid para a democracia está indissociavelmente ligada a Nelson Mandela, que constitui um dos estadistas mais prestigiados do século XX e do início do século XXI.
Contudo, o fim deste regime não foi o resultado da atuação isolada de um homem, mas sim o resultado de uma luta de milhões de sul-africanos pertencentes a diversas etnias, convicções político-ideológicas e confissões religiosas, que partilhavam o sonho de uma sociedade baseada na dignidade da pessoa humana, tendo sido apoiadas por vários milhões de pessoas um pouco por todo o mundo.
Ao sair da cadeia, naquela manhã de céu límpido, em Franschhoek, no Cabo Ocidental, no dia 11 de fevereiro de 1990, Mandela foi ao encontro de um país envenenado pelo racismo e pela autocracia, é certo, mas, ao mesmo tempo, muito bem preparado para assumir o seu novo papel de potência democrática a nível internacional.
A resistência contra o apartheid aperfeiçoou o país. Os longos anos de combate contra o regime racista explicam a elevada consciência política, organização e combatividade da atual sociedade sul-africana.
Há duas décadas, muitos auguravam para a África do Sul um cenário sinistro de anarquia e de guerra civil fratricida.
Hoje, a África do Sul, apesar de todos os problemas sociais, económicos e inclusive políticos, é uma democracia pluralista estabilizada, dispõe de uma economia moderna e sofisticada, pertence aos G20, o grupo dos vinte países mais poderosos do mundo e é uma das sociedades com maior diversidade étnica e cultural do planeta.
Portanto a África do Sul, mau todas as adversidades afirmou-se como uma nação arco-íris,  honrando as sábias palavras de Nelson Mandela: Cultivei o ideal de uma sociedade democrática e livre na qual todos vivam juntos em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal pelo qual espero viver e que espero alcançar. Mas se for preciso, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer.”

domingo, 13 de abril de 2014

Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?


Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”. Constitui uma das declarações mais conhecidas e aparentemente mais desconcertantes de Jesus.
Com efeito, os Evangelhos de Marcos e de Mateus referem este grito de Jesus na cruz, pouco antes de morrer.
Mutos teólogos interpretam este grito no sentido literal. De acordo com esta interpretação, Jesus, identificado com os pecadores, aceita o castigo que Deus lhes destinou e assume o silêncio dos condenados.
Tal como em diversas passagens das Escrituras bíblicas, as interpretações demasiado literais não são aceitáveis.
A frase acima mencionada indica que Jesus estava a recitar o Salmo 22, que se refere à lamentação do justo perseguido. Jesus identifica-se com o inocente torturado e maltratado, abandonado por todos. Jesus identifica-se como o Servo Sofredor, referido no livro do profeta Isaías.
Ao longo da sua existência terrena, Jesus revela-nos um Deus como a Fonte da Vida e do Amor. Pelo perdão e pela misericórdia, que sempre praticou, Jesus revela um Deus de ternura radical e de amor infinito.
Os gestos, as palavras e a vida de Jesus fazem vislumbrar um Deus totalmente incapaz de abandonar o seu Filho no momento mais angustiante e dolorosa da sua vida. Poderá o Deus de Jesus rejeitar o seu Filho no trágico momento em que este não passa de um agonizante mergulhado nas trevas mais densas? E uma perspetiva que se não pode aceitar.
Por meio de Jesus, Deus intervém na História da Humanidade, de forma radical e transformadora.
Parta-se do princípio que Deus não podia abandonar Jesus, o Messias anunciado pelos profetas do Antigo Testamento e que proclamou o Reino de Deus a Israel e à Humanidade em geral. Então, porquê este silêncio?
Um Deus que interrompesse o silêncio do Calvário, deixaria de ser o Deus que Cristo  manifestou. É que Deus manifesta-se gratuitamente, sem condições e sem nada exigir em troca. Não o faz para que a sua justiça ou a sua honra seja salvaguardada.
Nada há mais desarmado que o amor, porque o amor não pode deixar de se expor à liberdade daquele que se ama.
De facto, Jesus, agonizante na cruz, é a testemunha por excelência do amor gratuito e infinito de Deus.
Se Deus guardou silêncio no Calvário, fê-lo, para não contradizer o testemunho de Jesus, o qual revela um Deus que ama infinitamente a Humanidade, mas que respeita a sua liberdade.
Com efeito, esta aparente fraqueza de Deus remete para a liberdade e a responsabilidade do homem. Um teólogo cristão protestante, Dietrich Bonhoeffer, uma das principais personalidades da Resistência alemã contra a tirania nacional-socialista e executado em 9 de abril de 1945, pouco antes do final da Segunda Guerra Mundial, escreveu o seguinte:  “Perante Deus e com Deus vivemos sem Deus, Deus deixa que o expulsem do mundo e que o cravem numa cruz. Deus é impotente e fraco no mundo e só assim está connosco e nos ajuda… Cristo não nos ajuda pela Sua omnipotência, mas  pela Sua fraqueza e pelos Seus sofrimentos”.
Estar diante de Deus e com Deus e viver sem Deus significa aceitar a nossa condição humana e não esperar que Deus ocupe o nosso  lugar.
Bonhoeffer revela um Deus que tem uma predileção especial pelas vítimas deste mundo, pelos que são atormentados pelas diversas formas de violência e de exclusão.
As vítimas e os pobres são o sinal dos tempos, a realidade dramática, diante da qual é preciso ter olhos novos para ver a verdade da realidade e reagir com um coração cheio de misericórdia, de amor e de justiça.
Mas a cruz não é o fim de tudo. Depois da morte na cruz, renasce a esperança, iluminada pela luz da ressurreição de Jesus, que expressa não só o poder de Deus sobre a morte, mas também sobre as diversas formas de injustiça que produzem as vítimas.
Se Deus ressuscitou um crucificado, há esperança para os crucificados da História
Portanto, a cruz é o lugar em que Deus proclama o seu verdadeiro nome, que em nada se confunde com os ídolos que criamos e adoramos demasiados vezes. O seu nome é Amor, um Amor que se faz próximo. Deus connosco, até no abandono mais absoluto.
 


sábado, 29 de março de 2014

A igualdade de género: uma conquista civilizacional.

O dia 8 de março é o Dia Internacional da Mulher, tendo sido proclamado como tal pela Assembleia Geral das Organização das Nações Unidas em 1975, sendo uma oportunidade privilegiada para refletir sobre a igualdade de direitos entre homens e mulheres, ou igualdade de género, que significa igualdade de direitos e oportunidades de participação, reconhecimento e valorização de mulheres e de homens, em todos as esferas da sociedade. .
Com efeito, assiste-se a uma transformação profunda do modelo familiar, tradicionalmente baseado numa construção social de papéis de género em função do sexo, conduzindo a uma conceção do masculino e do feminino diferenciada e hierarquizada.
De facto, surgiram novas realidades, resultado das várias modificações nas estruturas familiares, que nos permitem hoje em dia reconhecer a existência de vários “modelos familiares”, (famílias monoparentais, famílias reconstituídas, famílias clássicas de dupla profissão) e a assunção por parte das mulheres de uma postura mais participativa na esfera pública.
Daí a relevância da inclusão e da valorização do princípio da Igualdade de género em todas as esferas da nossa sociedade.
Neste sentido, os poderes públicos, as organizações da sociedade civil e os cidadãos em geral têm a responsabilidade de promover uma cultura de igualdade através da integração da perspetiva de género nas estratégias de educação e formação, a igualdade de oportunidades no acesso e na participação no mercado de trabalho, a conciliação entre a vida profissional e familiar e a prevenção da violência de género.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A Internet: nova fronteira espiritual



É praticamente impossível imaginar o mundo do século XXI sem Internet. Estamos na era da comunicação virtual, onde a pessoa pode conhecer o mundo através das novas tecnologias. Em tempo real, as pessoas podem partilhar conteúdos diversos à escala planetária.
Um dos primeiros pensadores a antecipar o impacto do desenvolvimento das tecnologias na comunicação humana à escala global foi o filósofo e teólogo francês Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955), que, na década de 1930, previu a integração do pensamento humano numa rede inteligente que acrescentará mais uma camada em torno do planeta, a Noosfera, que recobrirá a biosfera terrestre.
Basta fazer uma simples pesquisa em qualquer motor de busca e encontra-se uma diversidade enorme de opções religiosas no ciberespaço, desde as religiões mais tradicionais e estruturadas aos novos movimentos religiosos, passando por pessoas e grupos com convicções agnósticas e ateias.
Pode-se afirmar que a Internet é a nova fronteira religiosa. Aliás, o desenvolvimento do fenómeno religioso na Internet mostra uma das principais tendências das sociedades contemporâneas, mais concretamente o crescimento de uma espiritualidade não institucionalizada.
Com efeito, assiste-se a um crescimento da religiosidade, cada vez mais diversificada e plural, e a diminuição do interesse pelas instituições religiosas. Há o aumento dos temas religiosos na esfera pública, mas uma redução de interesse pelos dogmas e pelos conteúdos tradicionalmente fundamentais na doutrina das religiões institucionalizadas.
O despertar religioso do século XXI é ambíguo, ambivalente e múltiplo. A religiosidade do século XXI engloba práticas neo-orientais, neomisticismos e neoesoterismos, com aspetos ecológicos e terapêuticos, mas também conceções de cariz integrista e fundamentalista.
Como é sabido, o ciberespaço está em crescimento exponencial e está a ser utlizada por um crescente número de pessoas afastadas das instituições religiosas, mas que continuam a acreditar no Divino e cultivam uma espiritualidade não institucionalizada, o que não deixa de ter profundas repercussões na vida das sociedades.
Para manifestar a sua religiosidade, os cibernautas não precisam de ter vínculo com alguma comunidade ou instituição religiosa específica, nem deslocar-se no espaço físico para encontrar a comunidade de fé e realizar os seus ritos.
Historicamente, as instituições religiosas eram as principais responsáveis por estabelecer a mediação entre o indivíduo e o transcendente.
Na contemporaneidade, a relação do individuo com o Divino acontece, independentemente da presença da instituição.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

O ecumenismo: novos desafios


No dia 25 de janeiro do presente ano, foi formalizada, em Lisboa, a declaração de reconhecimento mútuo do batismo entre a Igreja Católica Romana, a Igreja Lusitana Católica Apostólica Evangélica, a Igreja Evangélica Metodista Portuguesa, a Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal e Igreja Ortodoxa do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla.
Trata-se de um passo significativo, mas que implica novos passos, mais firmes e sólidos.
De facto, desde que o Batismo seja realizado dentro das condições normais e básicas do seguimento de Jesus, à luz da tradição do Evangelho, o reconhecimento não deveria ser alvo de qualquer problema ou discussão. Há aqui algo mais de simbólico do que de grande acontecimento.
A unidade é um dom ligado ao agir salvífico de Deus, que quer construir uma Humanidade nova baseada no amor, na paz e na justiça.
Segundo as Escrituras, os crentes são chamados a promover a unidade do Espirito de Deus. Na carta de aulo à comunidade cristã de Éfeso, este apelo à unidade é expresso da seguinte forma: “Há um só Corpo e um só Espírito, assim como a vossa vocação vos chamou a uma só esperança; um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por todos e permanece em todos”. Na carta à comunidade cristã de Corinto, Paulo escreve: “Há diversidade de dons, mas um só Espírito. Os ministérios são diversos, mas um só é o Senhor. Há também diversas operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. A cada um é dada a manifestação do Espírito para proveito comum”.
Desde o início, a história do Cristianismo, modelada por pessoas em busca de fidelidade a Deus, mas sempre também sujeitas a falhas e erros, apresenta-se marcada por tensões e divisões, muitas delas dolorosas e que desfiguraram o seu rosto.
Com efeito, o Evangelho de Jesus não nos é transmitido no mundo de hoje por cristãos que professam em comum o essencial da mesma fé, mas por cristãos divididos entre si, separados e afastados uns dos outros.
Diferenças na compreensão da fé, sobretudo conceções diversas acerca da Igreja e da sua unidade, dos sacramentos e dos ministérios, continuam a impedir a realização de uma unidade visível, prejudicando o testemunho credível da mensagem de libertação e de amor contida no Evangelho a favor da Humanidade.
Portanto, cada cristão, cada um a seu modo e dentro do seu âmbito de responsabilidade, deve contribuir para a unidade da Igreja de Jesus Cristo na história
Unidade não significa uniformidade. O ecumenismo deve valorizar a unidade na diversidade, tendo em conta a realidade e as aspirações da Humanidade do século XXI.
As Igrejas cristãs devem promover o reconhecimento mútuo dos sacramentos e dos ministérios. A promoção de uma visão eclesiológica plural é um contributo fundamental para desbloquear tensões, superar mal entendidos, abrir os horizontes e ajudar a perceber melhor a riqueza de um horizonte comum futuro.
Deve-se promover a elaboração de uma nova Profissão de Fé comum a todas as Igrejas cristãs, adaptada ao tempo e que tome como ponto de referência a mensagem cristã original. Não raras vezes, a linguagem utlizada pelas Igrejas é aborrecida, obsoleta, anacrónica, repetitiva e desadaptada à nossa época. Não se trata em absoluto de acomodar-se nem de fazer demagogia, pois a mensagem do Evangelho deve ser apresentada em toda a sua exigência ética. Uma nova evangelização não consiste em repetir a antiga, que já não diz mais nada, mas em inovar, criar uma nova linguagem que expresse a fé de modo apropriado e que tenha significado para a Humanidade de hoje.
Deve-se promover uma renovação em profundidade da teologia e da catequese, que apele mais à dimensão mística e profética e que tenha em conta a totalidade do Homem como ser físico, psíquico e espiritual.
Por fim, sugere-se a convocação de um concílio ou assembleia geral ao nível da Igreja universal, do qual deverão estar representados todos os cristãos, para examinar com toda a franqueza e clareza os assuntos assinalados anteriormente e os que forem propostos. Para este concílio, deverão ser convidadas, na qualidade de observadores, as religiões não cristãs da Terra, tendo em conta o grande ensinamento de que Deus ama toda a Humanidade, sem exceção.
Uma espécie de 2.º Concílio de Jerusalém II, em memória do Concílio de Jerusalém, realizado em 48 EC, sob a liderança de Tiago, irmão de Jesus, que abordou o relacionamento do Cristianismo primitivo com o Judaísmo e o mundo gentio de então.   
A convicção ecuménica brota radicalmente da esperança cristã, não se baseia na simples confiança nas nossas forças, mas sim na fé esclarecida e lúcida no Espirito de Deus que nos interpela, todos os dias, a cultivar um amor profundo por todos os seres que fazem parte do nosso Universo.
 

A religião e a espiritualidade no século XXI


Nas sociedades regidas pelo paradigma da modernidade, a racionalidade, a ciência, o individualismo e o materialismo promoveram o desencantamento do mundo, mas não esvaziam a necessidade genuinamente humana de encontrar um sentido para o Universo e para a existência.
Após o “desencantamento” do mundo", característico da modernidade, que foi analisado por Max Weber e outros pensadores das ciências sociais e humanas, constata-se atualmente um processo de "reencantamento do mundo", conforme assinala o sociólogo e teólogo austro-americano Peter Berger e o sociólogo francês Marcel Gauchet, marcado pela relação entre racionalidade e aspiração à espiritualidade.
O filósofo francês Martin Legros apresenta quatro cenários sobre a evolução da religião e a espiritualidade no nosso século XXI.
O primeiro cenário é o do retorno das religiões tradicionais renovadas. Existem razões para o sucesso das religiões ditas tradicionais. Face ao desenraizamento das sociedades contemporâneas, descobre-se que é essencial o laço comunitário e social das religiões. Com a oferta de um quadro de narrativas, símbolos e ritos, elas estruturam a relação do ser humano com o transcendente. 
O segundo cenário é o da aceleração do processo de secularização, através da convergência das nanotecnologias, das biotecnologias, das ciências cognitivas e das tecnologias de informação. A ciência e a técnica poderão substituir a religião na resposta aos enigmas da Humanidade.
O terceiro cenário é o que se pode chamar "a era das espiritualidades". Não se acredita no Deus pessoal dos monoteísmos, mas também se não aceita que o Universo a Vida e a Humanidade se reduzam a partículas atómicas, células e neurónios. Talvez não se aceite a vida após a morte, mas também se recusa a afirmação ateísta segundo a qual "não há nada". O sentimento de fusão na Natureza como um todo animado, a abertura ao infinito e ao absoluto, uma espiritualidade pós-teísta poderá ser a grande tendência do século XXI, que verá cada vez mais os crentes afastarem-se das religiões institucionalizadas e os não crentes espiritualizarem-se.
O quarto cenário é o do confronto entre os fanatismos religiosos, agravado pela dinâmica do capitalismo global, segundo o pensador alemão H. M. Enzensberger. Na sua perspetiva, com o atual modelo de globalização o número de populações perdedoras aumenta constantemente, o que pode levar ao agravamento dos conflitos, nos quais a religião pode ser utlizada como instrumento de poder e de dominação. O antropólogo francês René Girard é ainda mais pessimista: "A 'guerra justa' de George W. Bush reativou a de Maomé, mais poderosa porque essencialmente religiosa. Duas guerras mundiais, a invenção da bomba atómica, vários genocídios, uma catástrofe ecológica iminente não terão bastado para convencer a Humanidade, e os cristãos em primeiro lugar, de que os textos apocalípticos, mesmo se não tinham qualquer valor de predição, diziam respeito ao desastre em curso".
Os dados estão ai, quando se analisa a geografia do fenómeno religioso. Há o progresso fulgurante do Islão, com 1.300 milhões de crentes, em Africa, no Médio Oriente e na Ásia, e do neo-protestantismo cristão, sobretudo do evangelismo pentecostal, com milhões de adesões na África, na Ásia e nas Américas.
Pessoalmente, tenho esperanças de que o diálogo inter-religioso e inter-espiritual, envolvendo as pessoas das diversas confissões religiosas, bem como os agnósticos e os ateus, possa contribuir para o desenvolvimento de uma civilização universal baseada no amor e na compaixão.
Conforme está enunciado na Carta pela Compaixão, elaborada com a participação global de pessoas de diversas nacionalidades, origens e convicções:"É urgente que façamos da compaixão uma força clara, luminosa e dinâmica no nosso mundo polarizado. Com raízes numa determinação de princípios de transcender o egoísmo, a compaixão pode quebrar barreiras políticas, dogmáticas, ideológicas e religiosas. Nascida da nossa profunda interdependência, a compaixão é essencial para os relacionamentos humanos e para uma humanidade realizada. É o caminho para a iluminação e é indispensável para a criação de uma economia justa e de uma comunidade global pacífica.”

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

O planeta das cidades


As cidades desempenham um papel importante na vida da Humanidade. Não só albergam a maioria da população mundial, como também desempenham um papel essencial no desenvolvimento das sociedades contemporâneas.
Com efeito, a relevância das cidades na economia mundial atual não tem precedentes. Até à Revolução Industrial, nos séculos XVIII e XIX; a história da Humanidade era predominantemente rural, tendo em conta que  apenas cerca de 10% das pessoas viviam nas cidades.
Atualmente, a percentagem de habitantes de cidades na população mundial ascende a cerca de 53% e deverá aumentar para cerca de dois terços em meados do nosso século.
Em termos económicos, estima-se que as cidades mundiais representem atualmente mais de 80% do rendimento mundial. Nas próximas décadas, prevê-se que a maior parte dos novos empregos, serão criados nas cidades, oferecendo meios de subsistência a centenas de milhões de pessoas, nomeadamente nos denominados países emergentes, como a China, a índia e o Brasil.
As cidades são também centros de inovação para as políticas públicas. Todos os dias, em grande parte devido a uma maior proximidade, os cidadãos exigem dos poderes públicos locais que assumam as suas responsabilidades em matérias tão diversas como o ordenamento do território, as infraestruturas básicas, a mobilidade, a proteção contra desastres e serviços de emergência em situações de catástrofe, a defesa do meio ambiente e a promoção do desenvolvimento social e cultural, tendo em conta que o enquadramento legal da sua organização e do seu financiamento é definido pelos Estados nacionais ou pelos Estados federados, no caso dos países com uma estrutura política de cariz federal.  
Assim, não é surpreendente que enquanto os Estados nacionais são frequentemente paralisados pelas questões político-partidárias, os governos locais fomentam a inovação.
O desenvolvimento sustentável oferece um novo conceito para a economia mundial no século XXI. Mais do que o foco somente na produção, no rendimento e no consumo, o desenvolvimento sustentável encoraja as cidades, os países e o mundo a centrarem a atenção na melhoria contínua da qualidade de vida para as gerações atuais e vindouras, através da criação de comunidades sustentáveis capazes de gerir e utilizar os recursos eficazmente e valorizar o potencial de inovação ecológico e social, assegurando prosperidade, proteção ambiental e coesão social.
As cidades estarão na linha da frente da batalha na promoção do desenvolvimento sustentável. Perante as mudanças ocorridas em torno do modelo de desenvolvimento das sociedades, existe uma visão consensual sobre as cidades contemporâneas, as quais deverão:
- Promover um elevado grau de inclusão e coesão social, respeitando os direitos fundamentais de cidadania e a diversidade cultural;
- Garantir um elevado nível de proteção e melhoria da qualidade do ambiente;
- Dinamizar uma economia próspera, inovadora e respeitadora do ambiente, que proporcione elevados níveis de emprego e de qualidade de vida.
Para assegurar a prossecução das finalidades estratégicas acima enunciadas, as cidades precisam de modernizar a sua governação. Com efeito, é crucial promover uma governação eficiente e próxima das aspirações quotidianas dos cidadãos, promotora de uma cultura participativa e solidária, condições fundamentais para a construção de comunidades construídas por todos e para todos. 
Além disso, as cidades devem promover a cooperação entre si. A governação dos assuntos públicos de âmbito metropolitano ou intermunicipal é, assim, crucial, pois o desenvolvimento urbano sustentável e inteligente requer redes que operam a uma escala supramunicipal.
De acordo com o princípio da subsidiariedade, devem atribuir preferencialmente as responsabilidades pelas políticas públicas ao nível de governo mais próximo dos cidadãos.
Mas, deve-se promover igualmente uma governação pública muti-nível ou multiescalar, baseada na cooperação entre diferentes níveis. O leque de instituições envolvidas na definição e concretização das políticas tem de ser alargado de modo a incluir uma maior diversidade de parceiros, inclusive os cidadãos.
Os Estados nacionais, em articulação com a Organização das Nações Unidas, estão agora a negociar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (SDG, na sigla em inglês), que vão orientar a agenda mundial de desenvolvimento de 2015 a 2030.
Em 25 de setembro de 2013, a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas deliberou que os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável devem ser formalmente adotados numa cimeira mundial em setembro de 2015
Os efeitos negativos da globalização, as tendências demográficas e a crise económica ameaçam a coesão económica, social e ambiental. Assiste-se a um aumento da segregação e da polarização socioeconómicas. Os recursos naturais e a energia não estão a ser utlizados de forma sustentável.
Por conseguinte, é da responsabilidade de todos os níveis de governação pública, das organizações da sociedade civil e dos cidadãos garantir que o pleno potencial das cidades e do nosso planeta em geral possa ser aproveitado em benefício de todos os seus habitantes. O futuro da Humanidade depende do futuro das nossas cidades.