domingo, 16 de junho de 2013

Didaché: um documento atual com dois mil anos




Didaqué significa “ensino”, “instrução” ou “doutrina”, sendo conhecida como A Instrução dos Doze Apóstolos ou Doutrina dos Doze Apóstolos.
Trata-se de um documento de grande valor histórico e teológico. Pode-se afirmar que se trata do primeiro catecismo cristão.
O documento foi mencionado pelos grandes pensadores cristãos dos primeiros séculos e por escritores antigos, nomeadamente por Eusébio de Cesareia, que viveu no século III, no seu livro "História Eclesiástica", mas a descoberta desse manuscrito, na íntegra, em grego, num códice do século XI, mais concretamente do ano de 1056, ocorreu somente em 1873 num mosteiro em Constantinopla, atual Istambul. .
È consensual que foi elaborado na Palestina ou na Síria. Existem estudiosos que consideram que foi elaborado entre os anos 60 e 70 da nossa era, antes da destruição de Jerusalém pelo exército romano, no ano 70, na sequência da revolta judaica.
Fazendo referências às Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos, a Didaqué retrata a tradição viva das primeiras comunidades, que proclamavam o Evangelho como mensagem de amor, de justiça e de retidão para toda a Humanidade.
A Didaqué está dividida em duas partes, uma doutrinária e outra litúrgica, o que nos permite um conhecimento mais profundo da vivência do cristianismo primitivo.
Por isso, pode inspirar os cristãos dos nossos tempos, nomeadamente no caminho de valorização do que é a essência da mensagem cristâ. 
A preocupação do relacionamento com o mundo, a importância de uma fé esclarecida, a valorização do testemunho, a importância dos sacramentos e da oração e a necessidade da vivência comunitária da fé são aspetos tão prementes no nosso tempo como o eram no século I. 
A Didaché é um desafio a todos os cristãos e a todos os seres humanos de boa vontade para que se empenhem na concretização dos valores da paz, da liberdade e da amor para toda a Humanidade.

O futuro que queremos


The Earth seen from Apollo 17.jpg

No dia 5 do presente mês, assinalou-se o Dia Mundial do Ambiente, uma oportunidade privilegiada para refletir sobre a relação entre Humanidade e o meio ambiente na qual está inserida.
Nas últimas décadas, temos assistido a uma crescente consciencialização de que o atual modelo de desenvolvimento das sociedades é insustentável. Das alterações climáticas à destruição das florestas tropicais, passando pela extinção maciça de espécies, são cada vezes mais evidentes os efeitos negativos dos nossos padrões de vida sobre o nosso planeta.
Com efeito, o modo como vivemos atualmente representa um peso cada vez maior sobre o planeta.  
Ao longo das últimas décadas do século XX e dos primeiros anos do presente século, foi ocorreram diversos acontecimentos que marcaram a consciencialização progressiva da Humanidade para o paradigma do desenvolvimento sustentável, segundo o qual o modelo de desenvolvimento adequado é aquele que satisfaz as necessidades das gerações atuais sem comprometer a capacidade das futuras gerações poderem satisfazer as suas próprias necessidades.
A primeira grande manifestação de preocupação dos poderes públicos a nível mundial com as questões ambientais teve lugar em 1972 com a realização em Estocolmo da Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, tendo como finalidade delinear o direito da pessoa humana a um ambiente saudável.
Em 1980, a organização não governamental União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais publicou a Estratégia de Conservação Mundial, na qual estabelece uma estreita interligação entre o futuro da humanidade e a proteção dos recursos do nosso planeta. Neste documento, surge pela primeira vez o conceito de desenvolvimento sustentável. Em 1893, foi criada a Wordl Comission on Environment and Development, que publicou quatro anos depois o Relatório "O nosso futuro comum", também conhecido como relatório Brundtland, que representa um passo significativo para a definição de uma agenda global para a mudança de paradigma no modelo de desenvolvimento. A primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente e Desenvolvimento, decorreu na cidade do Rio de Janeiro em 1992, tendo aprovado uma agenda para o meio ambiente e o desenvolvimento para o século XXI, a denominada Agenda 21.
Nas últimas duas décadas, realizaram-se diversas conferências internacionais sobre a questão ambiental.
Em 2012, realizou-se no Rio de Janeiro a Conferência das Nações Unidas sobre o desenvolvimento Sustentável, também conhecida por Rio+20, que aprovou a Declaração “O Futuro que queremos”, um documento programático que oferece uma base para o bem-estar social, económico e ambiental da Humanidade.
Contudo, os resultados práticos têm ficado aquém das expectativas, em termos de definição e de implementação de políticas públicas. 
Com efeito, as implicações estratégicas da crise ambiental raramente são analisadas e continuam a ser um tema incómodo.
Em outubro de 2003, o Pentágono, o Ministério de Defesa norte-americano, promoveu a elaboração de relatório designado “Um Cenário de Mudança Abrupta do Clima e Suas Implicações na Segurança Nacional dos EUA”. Contudo, a sua análise e as suas propostas foram consideradas inconvenientes pela administração do Presidente George W. Bush e o documento foi colocado na prateleira.
O documento analisava as consequências geopolíticas das alterações climáticas, nomeadamente a escassez de alimentos,-como resultado da redução da produção agrícola a nível mundal, a diminuição de disponibilidade de água potável e o aumento de problemas no acesso aos recursos energéticos.
O efeito global das mudanças climáticas seria a redução significativa da população humana que o planeta pode suportar. Além disso, o relatório acrescenta:
“Á medida que se reduz a capacidade biótica máxima e global, podem aumentar as tensões no mundo, levando a duas estratégias fundamentais: defensiva e ofensiva. As nações com recursos para o fazer podem construir fortalezas virtuais à volta dos seus países, preservando recursos para si próprias. As nações menos afortunadas, especialmente as que têm inimizades antigas com os seus vizinhos, podem desencadear lutas pelo acesso aos alimentos, a agua limpa ou a energia. Podem formar-se alianças improváveis, à medida que as prioridades de defesa mudam e que a meta são os recursos para a sobrevivência  em vez da religião, da ideologia ou da honra nacional.“
O relatório do Pentágono foi inovador na aceitação de que as mudanças climáticas, uma das principais dimensões da crise ecológica contemporânea, poderá  conduzir a uma queda da capacidade do planeta de sustentar a Humanidade.  
Por conseguinte, é essencial fazer uma mudança decisiva no sentido do desenvolvimento sustentável, não apenas porque é a coisa certa a fazer mas também porque é do nosso melhor interesse a longo prazo, proporcionando um futuro de esperança para as gerações atuais e vindouras.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Por uma Europa de valores










No dia 9 de maio, celebra-se o Dia da Europa. A data escolhida recorda o dia 9 de maio de 1950, no qual Robert Schuman, Ministro dos Negócios Estrangeiros de França, apresentou a sua proposta de criação de uma Europa supranacional, requisito essencial para a promoção da paz, da liberdade e do progresso no Velho Continente. Esta proposta, conhecida como "Declaração Schuman", é considerada o início da criação do que é atualmente a União Europeia.
Atualmente, estamos perante uma seria crise nos domínios financeiro, económico e social, e, não menos grave, perante uma crise de confiança.
A superação desta crise requer audácia e sentido estratégico. Mais a superação não pode ser feita sem ter em conta os valores fundamentais que serviram de pilares à construção europeia.
A dignidade da pessoa humana, a liberdade, a democracia e o primado do direito fazem parte do património civilizacional da Europa, cuja construção política surgiu para promover a paz e o progresso num continente duramente dilacerado por duas guerras mundiais num período de uma geração e por diversas formas de totalitarismo e de autoritarismo.
A civilização europeia tem igualmente as suas raízes nas civilizações grega e romana, beneficiou significativamente dos contributos do judaísmo e do islão, mas não pode deixar de ter em conta a relevância fundamental do cristianismo.
Não será mera coincidência que alguns dos pais fundadores da unificação europeia haja indivíduos animados por uma profunda vivência cristã, como são os casos de Robert Schuman, Konrad Adenauer, Alcide De Gasperi, Jean Monnet e Winston Churchill.  
Foi nos valores evangélicos da liberdade e da solidariedade que os pais fundadores da unificação europeia encontraram a inspiração para a concretização deste enorme projeto que visa congregar os povos europeus, respeitando a sua diversidade.
Reconhecer a dimensão espiritual na vida pública não significa contradizer o princípio da laicidade, mas interpretá-la de modo correto. É necessário diferenciar o laicismo, como privatização do religioso e exclusão da vida pública, da laicidade, que supõe a separação necessária entre os poderes públicos e as confissões religiosas, assumindo o religioso como componente da esfera social. A indiferença em relação à dimensão espiritual da condição humana só pode provocar consequências trágicas, como a história da humanidade tem experimentado de uma forma dolorosa.
Perante os desafios do presente, a Europa não pode dispensar uma visão estratégica para o seu futuro.
Esta nova visão estratégica para a Europa deverá passar, nomeadamente, pelos seguintes aspetos, entre outros:
- O alargamento do alcance do princípio de subsidiariedade, de modo a assegurar a salvaguarda dos interesses dos povos dos Estados membros e evitar os riscos de tendências centralistas e burocráticas. Neste contexto, a atuação da União Europeia e das suas instituições deve focar-se na promoção da política externa e de segurança comum, na governação económica à escala supranacional, na regulação dos fluxos migratórios e na promoção do desenvolvimento sustentável a nível europeu e global, reservando os demais assuntos públicos para a esfera da responsabilidade dos Estados-membros e das autoridades regionais e locais.
- O desenvolvimento de mecanismos adequados de coordenação europeia das políticas orçamentais nacionais, o fomento de uma regulação coordenada dos mercados financeiros e a criação de instrumentos de mutualização da divida soberana dos Estados-membros.
- A reforma do Pacto de Estabilidade e Crescimento, de modo a criar condições para um desenvolvimento económico socialmente inclusivo e ecologicamente sustentável, sem prejuízo da necessária preocupação com a consolidação orçamental e a estabilidade dospreços.
A Bíblia, com a narração da Torre de Babel, no Livro do Génesis, adverte para os riscos de uma unidade aparente e imposta, na qual os povos e os indivíduos não reconhecem a dignidade uns dos outros e os laços de fraternidade que os devem unir.
O espirito de Babel é o oposto do espirito do Pentescostes, que apela para uma unidade na diversidade, baseada em duas premissas fundamentais. Uma delas é a de que a pessoa humana, a sua vida, dignidade e consciência, é um valor anterior à sociedade e ao poder politico , dos quais constitui o fundamento. A outra é de que os seres humanos devem reconhecer-se uns aos outros como membros de uma grande família e de uma comunidade de destino comum, que partilham o mesmo planeta.

sexta-feira, 29 de março de 2013

O legado de Jesus: amor e compaixão



“Não há maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus irmãos", Estas palavras de Jesus, narradas no Evangelho de São João, expressam o testemunho mais eloquente do profundo significado da sua paixão e morte . São, por assim dizer, um pequeno resumo do sentido do Mistério Pascal.
No âmbito da Última Ceia, no último discurso antes da Paixão, conhecido como o seu testamento espiritual, que Jesus esclarece aos seus discípulos, mostrando-lhes a sua relação com Deus; e deixando-nos ainda diversos ensinamentos sobre a vida e o amor.
É no pronunciar destas palavras que nos permite compreender um pouco mais do sentido pleno e autêntico do amor, que se revela como a doação de si mesmo aos irmãos. E o próprio Jesus foi coerente com suas palavras, amando os homens até ás últimas consequências , com o maior amor possível, por sua morte na Cruz, que passa a ser a manifestação do amor incondicional de Deus pela Humanidade: Pois Deus amou tanto o mundo, que entregou seu Filho único.
Se Deus ama tanto a Humanidade, é porque deseja que haja uma verdadeira paz entre os seres humanos, que se devem considerar uns aos outros como irmãos.  
Para que haja uma verdadeira paz, tem que haver amor e compaixão. Neste sentido, apresento a Carta pela Compaixão, elaborada com o envolvimento de representantes de várias confissões religiosas e de não crentes.

Carta pela Compaixão
O princípio da compaixão é o cerne de todas as tradições religiosas, éticas e espirituais, nos conclamando sempre a tratar todos os outros da mesma maneira como gostaríamos de ser tratados. A compaixão impele-nos a trabalhar incessantemente com o intuito de aliviarmos o sofrimento do nosso próximo, o que inclui todas as criaturas, de nos destronarmos do centro do nosso mundo e, no lugar, colocar os outros, e de honrarmos a santidade inviolável de todo ser humano, tratando todas as pessoas, sem excepção, com absoluta justiça, equidade e respeito.
É necessário também, tanto na vida pública como na vida privada, abstermo-nos, de forma consistente e empática, de infligir dor. Agir ou falar de maneira violenta devido a maldade, chauvinismo ou interesse próprio a fim de depauperar, explorar ou negar direitos básicos a alguém e incitar o ódio ao denegrir os outros - mesmo os nossos inimigos - é uma negação da nossa humanidade em comum. Reconhecemos que falhamos na tentativa de viver de forma compassiva e que alguns de nós até mesmo aumentaram a soma da miséria humana em nome da religião.
Portanto, conclamamos todos os homens e mulheres a restaurar a compaixão ao centro da moralidade e da religião, a retornar ao antigo princípio de que é ilegítima qualquer interpretação das escrituras que gere ódio, violência ou desprezo, a garantir que os jovens recebam informações exactas e respeitosas a respeito de outras tradições, religiões e culturas, a incentivar uma apreciação positiva da diversidade religiosa e cultural e a cultivar uma empatia bem informada pelo sofrimento de todos os seres humanos - mesmo daqueles considerados inimigos
É urgente que façamos da compaixão uma força clara, luminosa e dinâmica no nosso mundo polarizado. Com raízes numa determinação de princípios de transcender o egoísmo, a compaixão pode quebrar barreiras políticas, dogmáticas, ideológicas e religiosas. Nascida da nossa profunda interdependência, a compaixão é essencial para os relacionamentos humanos e para uma humanidade realizada. É o caminho para a iluminação e é indispensável para a criação de uma economia justa e de uma comunidade global pacífica

terça-feira, 19 de março de 2013

Novo papa, novos desafios

Pope Francis I appears on the central balcony in Vatican City.

A eleição do novo papa Francisco ocorre numa época particularmente relevante da História da Humanidade. 
À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e globalizado, a Humanidade enfrenta, ao mesmo tempo, grandes oportunidades e grandes riscos.
Vivemos numa era de produção e de consumo sem precedentes. O progresso tecnológico desenvolveu as redes de comunicação de tal modo que podemos falar de uma “aldeia global”. A democracia e o primado do direito são valores formalmente reconhecidos pela generalidade dos países do mundo, embora em muitos deles haja uma grande distância entre as proclamações jurídicas e a prática dos poderes públicos  
Contudo, o sistema económico dominante, baseado numa confiança excessiva no mercado, tem causado sérios problemas sociais, políticos e ambientais. Os benefícios do desenvolvimento não estão a ser distribuídos equitativamente e as desigualdades sociais estão a aumentar, inclusive nas sociedades mais democráticas e prósperas do nosso planeta. Os conflitos e a violência têm aumentado e são causa de grande sofrimento. O crescimento sem precedentes da população humana tem sobrecarregado os sistemas ecológicos e sociais. O meio ambiente tem sido seriamente afetado, sendo os resultados mais visíveis as alterações climáticas e a extinção maciça de espécies. 
Neste contexto, a Humanidade espera da Igrejas cristãs e da Igreja Católica em particular que elas sejam faróis de esperança, o que implica uma renovação da Igreja Católica.
Para haver uma renovação genuína da Igreja Católica, é importante superar desde já um equívoco. Hoje, quando se fala de Igreja, é numa instituição gigantesca e nos seus hierarcas e sacerdotes que se pensa: papa, bispos, padres e diáconos. Temos de regressar às origens, quando Igreja significava a comunhão das Igrejas, entendidas como comunidades de cristãos congregados em nome de Jesus.
È interessante constatar que as últimas declarações do papa Bento XVI e as primeiras declarações do papa Francisco partilham a necessidade de valorizar a dimensão espiritual da Igreja Católica em detrimento da sua dimensão institucional.
No dia 14 de fevereiro, ainda papa, Joseph Ratzinger declarou o seguinte. "Nós somos a Igreja; a Igreja não é uma estrutura; nós, os próprios cristãos juntos, todos nós somos o Corpo vivo da Igreja. Naturalmente, isto é válido no sentido de que o 'nós', o verdadeiro 'nós' dos crentes, juntamente com o 'Eu' de Cristo, é a Igreja".
Por sua vez, no dia 16 de março, o papa Francisco anunciou no seu primeiro encontro com os representantes dos meios de comunicação social: “(A Igreja) apesar de ser indubitavelmente uma instituição também humana e histórica, com tudo o que isso implica, não é de natureza política, mas essencialmente espiritual: é o Povo de Deus, o Povo santo de Deus, que caminha rumo ao encontro com Jesus Cristo. (…) Cristo é o centro. Não o sucessor de Pedro, mas Cristo. Cristo é o centro. Cristo é o ponto fundamental de referimento, o coração da Igreja. Sem Ele, Pedro e a Igreja não existiriam, nem teriam razão de ser”. Também defendeu “uma Igreja pobre e para os pobres”. 
Atualmente, estamos perante uma oportunidade histórica de reformar a Igreja Católica. Não é preciso começar do zero. O Concílio Vaticano II foi um começo revolucionário, mas continua, em grande parte, por cumprir e sofreu desvios cujas consequências se sentem de forma amarga.
Importa alterar o modo da designação dos bispos, os lideres das Igrejas locais, na sua imensa diversidade geográfica e cultural. Eles devem ser eleitos por sínodos diocesanos constituídos por representantes dos clérigos e dos leigos, os quais devem ser eleitos democraticamente.
O bispo de Roma, isto é, o Papa, deveria ser eleito por um colégio constituído pelos representantes das conferências episcopais, das congregações religiosas e dos movimentos laicais, seguindo o princípio de o que diz respeito a todos, deve ser tratado por todos.
A Igreja deve assumir um compromisso cada vez mais sólido com a promoção da justiça social e da dignidade da pessoa humana. Se Deus se revelou em Jesus como Deus dos pobres, dos excluídos e das vítimas deste mundo, uma Igreja que não tornar visível essa revelação será sempre infiel a Jesus. A Igreja deveria retomar e propor aos poderes políticos e económicos deste mundo o ensinamento de Jesus de que é impossível servir a Deus e ao dinheiro. Esta será uma reforma constante e difícil, mas a Igreja deve ter muito claro e não esquecer nunca que está em jogo a sua fidelidade ao Deus revelado pelos profetas e de um modo muito especial por Jesus.
Deve ser reconhecida a igualdade de direitos e responsabilidades de homens e mulheres na Igreja, bem como a valorização da sexualidade enquanto dimensão fundamental da condição humana.
Deve ser incentivado o diálogo ecuménico com as demais Igrejas cristãs, o que passa pelo reconhecimento mútuo dos ministérios e dos sacramentos.
Deve ser promovido o diálogo com as religiões não cristãs e os não crentes, para que todos os homens e mulheres de boa vontade possam trabalhar em conjunto em prol de um mundo mais livre, solidário e sustentável.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A resignação de Bento XVI e o futuro da Igreja Católica




Raio cai na Basílica de S.Pedro em dia de resignação (EPA/ALESSANDRO DI MEO) 

No dia 11 do presente mês, o papa Bento XVI anunciou a sua resignação, um gesto que surpreendeu o mundo.
Com efeito, o último Papa que renunciou de livre vontade foi em 1294 o eremita Pietro Angeleri, que adoptou o nome papal de Celestino V. Mais perto de nós, Gregório XII também se demitiu, em 1415, não tanto por vontade própria, mas para garantir a unidade da Igreja, então dilacerada pelo Grande Cisma do Ocidente.
Foi um gesto de uma grande grandeza moral, lucidez e humildade, que deveria ser seguido como exemplo noutras estruturas da Igreja e da sociedade em geral. De um modo lúcido e ponderado, sentiu que não tinha as energias psíquicas e espirituais para liderar a Igreja Católica, sobretudo numa época, como a nossa, na qual os desafios do mundo, com incidência na fé, são gigantescos e não cessam de crescer.
É ainda prematuro fazer um balanço do pontificado de Bento XVI, mas pode-se apresentar algumas pistas de reflexão.
Deste pontificado fica a relevância do diálogo entre a fé e a razão, o prosseguimento do diálogo com as outras confissões cristãs e com as diferentes religiões, o empenho na paz entre israelitas e palestinianos e a defesa de uma globalização regulada e socialmente justa, que foi proclamada pela encíclica “Caritas in Veritate”.  
Mas não se pode esquecer a incapacidade de reformar a Cúria Romana, uma questão fulcral para o futuro da Igreja Católica. O próprio Bento XVI queixou-se de que as estruturas da Cúria lhe sonegavam informações. Além disso, os escândalos, desde a pedofilia à corrupção, do Vatileaks às intrigas no Vaticano, não contribuíram em nada para o prestígio da Igreja Católica no mundo contemporâneo.
Mais do que um líder, Joseph Ratzinger é um intelectual, aliás brilhante. É justo reconhecê-lo com um dos três pensadores cristãos mais importantes da atualidade, juntamente com o teólogo Hans Küng e o Dr. Rowan Williams, o antigo arcebispo anglicano de Cantuária.
Anunciada a resignação, já começou a ser abordada a questão da sucessão. Mas mais importante do que a questão da sucessão, temos que compreender o atual momento histórico e a necessidade premente de promover reformas estruturais na Igreja, de modo que ela possa ser um farol de esperança não somente para os cristãos de todo o mundo, mas para todos os seres humanos com quem partilhamos o nosso planeta Terra.
Não é tempo de retoques parciais. Na atualidade, é preciso ir ao essencial. Legitimamente, há quem questione a forma de designação do Papa, actualmente feita pelo colégio dos cardeais, sugerindo que ela deveria ser feita por um colégio constituído pelos presidentes de todas as conferências episcopais do mundo, refletindo de uma forma mais adequada a universalidade e a diversidade da Igreja.
A Igreja Católica, tal como as demais Igrejas cristãs, precisa de focalizar-se na essência do cristianismo, seguir Jesus e o seu Evangelho, promover uma evangelização que leve a uma experiência espiritual mais autêntica de Deus. Mas que também seja profética na proclamação de um modelo de desenvolvimento baseado na dignidade da pessoa humana e na ecologia, colocando-se ao lado do mundo dos pobres e excluídos que são a maior parte da Humanidade, e da mãe Terra, que está seriamente ameaçada.
Neste contexto, é da maior relevância que a Igreja Católica seja:
- Uma Igreja fraterna, com abolição do fosso entre leigos e clérigos e onde os crentes participem na designação dos seus bispos;
- Uma Igreja uma nova atitude face ao papel das mulheres, terminando com a sua exclusão dos ministérios ordenados;
- Uma Igreja que não imponha o celibato obrigatório aos sacerdotes;
- Uma Igreja que valorize a sexualidade como dimensão fundamental da condição humana, abandonando a ingerência na consciência dos fiéis, mas condenando, obviamente, todas as formas de abuso sexual;
- Uma  Igreja empenhada na globalização dos direitos humanos e na proteção do meio ambiente.
Numa época de crise universal, a Igreja deve ser um sinal da presença do Espírito de Deus no mundo, o Espírito que pairava sobre o caos inicial para gerar a vida, o mesmo Espírito que inspirou Jesus e o ressuscitou dentre os mortos.  
Por conseguinte, a Igreja é impelida pelo Espírito de Deus para promover a libertação dos seres humanos de todos os tempos e de todos os lugares, de modo a fazer do nosso planeta Terra um mundo mais livre, solidário e sustentável.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

A Liberdade e a Justiça segundo John Rawls



John Rawls,  foi um filósofo norte-americano,  tendo desempenhado um papel proeminente na filosofia política e moral do século passado e do inicio do presente século. 
Do seu nome completo John Rawls Bordley, nasceu em Baltimore, no estado de Maryland, em 21 de fevereiro de 1921, e faleceu em Lexington, Massachussets, em 24 de novembro. Esteve ao serviço do Exército norte-americano na frente do Pacífico da Segunda Guerra Mundial. Na sequência do bombardeamentos atómicos de Hiroshima e de Nagasaki, recusou prosseguir a vida militar e optou pela vida académica. Foi professor de Filosofia Política na Universidade de Harvard, tendo publicado, entre outras, as seguintes obras: Uma Teoria da Justiça (A Theory of Justice, 1971), Liberalismo Politico (Political Liberalism, 1993) e o O Direito dos Povos (The Law of Peoples, 1999).   
Retomando a teoria do contrato social, Rawls propõe-se a responder de que modo podemos avaliar as instituições sociais: a virtude das instituições sociais consiste no fato de serem justas. Em outros termos, para o filósofo norte-americano, uma sociedade coesa e ordenada partilha de uma conceção pública de justiça que regula a estrutura básica da sociedade. Com base nesta preocupação, Rawls formulou a teoria da justiça como eqüidade.
Para chegar a entendimento comum sobre o que é justo, ele imaginou uma situação hipotética e histórica similar ao estado de natureza (chamada de posição original) na qual os indivíduos escolheriam princípios de justiça. Tais indivíduos, concebidos como racionais e razoáveis, estariam ainda submetidos a um véu de ignorância, ou seja, desconheceriam todas aquelas situações que lhe trariam vantagens ou desvantagens na vida social (classe social e status, educação, conceções de bem, características psicológicas, etc.). Desta forma, na posição original todos compartilham de uma situação eqüitativa: são considerados livres e iguais.
Ao retomar a figura do contrato social como método, Rawls não tem como objetivo fundamentar a obediência ao Estado (como na tradição do contratualismo clássico de Hobbes, Locke e Rousseau). Ligando-se ao pensamentio de Kant (construtivismo kantiano), a ideia do contrato é introduzida como recurso para fundamentar um processo de construção de uma sociedade justa
Ao longo da sua obra, John Rawls analisa as consequências filosófico-políticas da questão relativa à possibilidade da existência de uma sociedade justa e estável, constituída por cidadãos livre e iguais, embora profundamente divididos entre eles por causa das suas ideias compreensíveis e razoáveis, de cariz ético, filosófico e religioso.
Segundo Rawls, esta questão prende-se com o problema da justiça. Rawls desenvolve uma teoria da justiça como equidade. Esta propõe uma conceção da justiça que afirma a prioridade do justo sobre o bem e define alguns princípios de justiça, visando a constituição duma estrutura de base social justa: o respeito das liberdades fundamentais; a igualdade de oportunidades e o princípio da diferença.
Rawls apresenta estes princípios da seguinte maneira.
Em primeiro lugar: cada pessoa deve ter um direito igual ao sistema mais alargado de liberdades de base iguais para todos, que seja compatível com um mesmo sistema de liberdades para os outros.   
Em segundo lugar: as desigualdades sociais e económicas devem ser organizadas de tal sorte que, ao mesmo tempo, possamos razoavelmente esperar que elas possam ser vantajosas para cada um eque elas sejam ligadas à posições e funções abertas à todos.
Rawls empreende uma reflexão sobre a conceção de pessoa livre. É à partir desta reflexão que quisemos extrair a significado do conceito de liberdade.
A conceção de Rawls define a pessoa como todo o ser humano capaz de ser, durante toda a sua vida, um membro normal e plenamente cooperante da sociedade.
Para compreender esta conceção, parece-nos imperioso dar conta da significação que Rawls dá ao conceito de sociedade.
Para este autor, a sociedade é um sistema equitativo de cooperação entre as pessoas livres e iguais que são tratadas como membros plenamente cooperantes da sociedade durante toda a sua vida.
Esta definição da pessoa e da sociedade em Rawls apresenta-nos a pessoa como essencialmente um ser cooperante. O pano de fundo desta conceção encontra-se identificado com uma filosofia política que se situa na tradição do contrato social. Com efeito, para Rawls, a pessoa concebida como ser cooperante, é constituída por duas faculdades da personalidade moral: a capacidade de ser razoável e a capacidade de ser racional.
A faculdade de ser razoável consiste na capacidade de respeitar os termos equitativos da cooperação. Estes compreendem substancialmente as ideias de reciprocidade e de mutualidade. Mais precisamente, ser razoável significa ser capaz dum sentido da justiça, isto significa que a pessoa humana deve ser capaz de ter uma compreensão dos princípios de justiça, para os aplicar e deixar-se motivar por um desejo eficaz de ação à partir dos mesmos princípios e de acordo com eles enquanto termos equitativos de cooperação em sociedade.
A faculdade de ser racional é a capacidade de formar e de manter uma conceção do bem. Uma conceção do bem é a ideia que a pessoa tem a propósito duma vida humana que merece ser vivida, quer dizer a representação duma vida digna. Isto compreende um sistema definido de fins e de finalidades que podem ser prosseguidos individualmente ou coletivamente. A conceção do bem comporta também a visão do mundo e da relação que a pessoa aí mantém.
Rawls propõe-nos uma conceção da pessoa livre. Assim, ele apresenta-nos três aspetos da pessoa livre. É livre aquele que:
- Possui a faculdade moral de formar uma conceção do bem;
- É fonte de revindicações válidas que se autenticam elas mesmas;
- É capaz de assumir a responsabilidade dos seus fins.
Analisando a conceção rawlsiana da liberdade, pode ser compreendida como a faculdade humana de formar, revisar e prosseguir uma conceção do bem melhorando-a pelas revindicações válidas que se autenticam elas mesmas e realizando-as através de meios que podemos razoavelmente esperar obter da contribuição de todos os membros da sociedade.
Para Rawls, a liberdade tem necessidade dos outros homens diante dos quais ela possa aparecer, se manifestar, quer dizer ela precisa dum espaço público. Este aspeto do espaço público é também assinalado por Rawls quando ele compreende a pessoa humana como ser cooperante, e a sociedade como sistema equitativo de cooperação entre pessoas livres e iguais.
Notamos também que Rawls contesta a identificação da liberdade ao livre arbítrio. Isto quer dizer que a liberdade é mais da ordem da ação e da palavra. O homem livre é aquele que age, que começa alguma coisa nova, que forma, revisa e prossegue uma conceção do bem; aquele que atual de acordo com os princípios equitativos de justiça.
John Rawls situa-se na perspetiva do liberalismo norte-americano e é levado por uma preocupação de propor uma teoria filosófico-política sobre a possibilidade de uma sociedade justa e livre em condições marcadas por conflitos profundos de ideias e doutrinas. É um apelo ao conceito da tolerância diante do pluralismo, afirmando a possibilidade de ser livre, apesar de condição pluralista da sociedade na qual a pessoa está inserida. Aí se apresenta o paradoxo da existência humana: liberdade e condição.