segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Deus e os extraterrestres



“Estaremos sós no Universo?”. Esta é uma das grandes questões existenciais da Humanidade, que tem sido colocada desde tempos imemoriais, mas com particular acuidade desde o início da exploração do espaço, a partir dos meados do século XX.
Com efeito, o nosso lar comum, a Terra, é um pequeno planeta de um sistema solar situado na periferia da Via Láctea, uma das 170 biliões das galáxias existentes no universo observável.
A questão acima mencionada tem implicações de diversa ordem, cientifica, filosófica e religiosa.
A descoberta de vida extraterrestre será provavelmente o maior acontecimento da História da Humanidade, o que não deixaria de ter repercussões na sua vivência espiritual.  Contudo, as principais religiões existentes não fecham as portas à existência de vida extraterrestre.
O budismo tem sutras ou textos que estendem o ensinamento do Buda "a todos osmundos". No sutra da Contemplação da vida infinita, Buda faz jorrar da sua fronte um raio de luz "que iluminou todos os mundos e voltou a colocar-se na cabeça do Buda, formando uma torre de luz. Nesta torre, podia ver-se todas as terras dos budas".
O islão vai mais longe. O Alcorão não só admite a existência de vida extraterrestre, mas também refere que haverá um encontro: "Entre as Suas Provas está a criação dos céus e da terra e dos seres vivos que aí disseminou. Tem aliás o poder de reuni-los quando lhe aprouver" (sura 42). "Alá que criou sete céus e outras tantas terras" (sura 65).
No judaísmo, as narrativas da literatura de Midrash (compilação de ensinamentos sobre a Bíblia judaica) demonstram que, se eventuais descobertas científicas revelassem a presença de outros seres vivos no universo, os princípios da Tora e os valores do judaísmo não seriam abalados.
O caso do cristianismo é semelhante. Em 2008, o diretor do Observatório do Vaticano, o jesuíta José Gabriel Funes, indicou numa entrevista concedida ao L’Osservatore Romano que ela não confronta o cristianismo: “Não podemos colocar limites à liberdade criativa de Deus. Se, como disse São Francisco, consideramos todas as criaturas da Terra como irmãos e irmãs, por que não poderíamos falar do nosso irmão extraterrestre? Continua a fazer parte da Criação.” O falecido monsenhor Corrado Balducci, colaborador e amigo próximo do papa João Paulo II, declarou que “é real a possibilidade de que outras criaturas inteligentes vivam na imensidão do espaço”. Para ele, isto seria um sinal inequívoco da gloria de Deus.   
Esta opinião é partilhada por Robin Collins, professor de filosofia no Messiah College, no estado norte-americano de  Pensilvânia, que afirma o seguinte: “Embora não tenha a certeza absoluta, os seres humanos não podem estar sós. Deus é infinitamente criativo”.
Não se trata de uma posição nova. Em 1277, o bispo de Paris, Étienne Tempier, considerava que a afirmação de que Deus só podia fazer um mundo significava limitar o poder divino. Por outro lado, o cardeal Nicolau de Cusa argumentava, na obra De Docta Ignorantia (1440), que poderíamos encontrar em cada região celestial habitantes que, embora de natureza diferente da nossa, deviam a existência ao poder criador de Deus.
Contudo, existem outros pensadores cristãos, como Hipólito de Roma e Agostinho de Hipona, desconfiados da observação metódica como fonte de conhecimento presos a uma interpretação literal das Escrituras, que negavam a pluralidade de mundos e a existência de outros seres dotados de inteligência e consciência.
Em todo o caso, a busca da vida extraterrestre poderá levar-nos a um entendimento mais profundo de Deus. Um Deus como a Fonte da Vida que é exaltada quando vivemos plenamente. Um Deus como a Fonte do Amor que é exaltada quando amamos imensamente. Um Deus como a Base da Existência que é exaltada quando temos a coragem de existir de modo fraterno com todo o Universo.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

O legado de Madiba




“Comprometemo-nos a construir uma sociedade em que todos os sul-africanos, brancos ou negros, possam caminhar de cabeça erguida, sem qualquer medo, seguros do direito inalienável à dignidade humana – uma nação de arco-íris, em paz com ela mesma e com o mundo.”
Estas foram algumas das palavras pronunciadas por Nelson Mandela, no dia 10 de maio de 1994, quando tomou posse como Presidente da República da África do Sul, na sequência das primeiras eleições democráticas, ocorridas no dia 26 de abril.
Num mundo em que a política tende a ser limitada a um pragmatismo errático e inconsequente, Nelson Mandela tem marcado a diferença, demonstrando que valores como a dignidade da pessoa humana, a solidariedade e a compaixão não são luxos, mas condições absolutamente essenciais para o percurso presente e futuro da Humanidade.
Nelson Mandela, carinhosamente chamado de Madiba, soube unir uma nação dividida e oprimida por décadas de discriminação racial  e de autoritarismo, soube fazer a pedagogia da responsabilidade individual e da reconciliação nacional e soube, acima de tudo, demonstrar que na luta de um grande político e de um grande líder espiritual deve haver lugar para o amor pela humanidade, para os valores que nos engrandecem e para o entendimento da vida como um acto permanente de reconciliação com a natureza e com o nosso semelhante.
Na linha de Gandhi, Martin Luther King, Buda, Sócrates, Jesus e de outros indivíduos sábios que contribuíram decisivamente para o progresso ético e espiritual da Humanidade, Nelson Mandela soube fazer da serenidade, da bondade e da capacidade de ouvir e compreender uma grande lição de vida.
Que a vida de Mandela seja um impulso inspirador para que cada um de nós assuma a sua responsabilidade na construção de uma sociedade mais fraterna, mais digna da pessoa humana, e na revalorização do amor compassivo na vida social, nos planos político, económico, cultural e ecológico, fazendo dele a norma suprema e constante da nossa atuação enquanto seres humanos que partilham o planeta Terra.
Aliás, Mandela disse um dia: “Onde houver pobreza e doença, onde houver seres humanos oprimidos, há mais trabalho a fazer. O nosso trabalho é conseguir a liberdade para todos”.

domingo, 16 de junho de 2013

Didaché: um documento atual com dois mil anos




Didaqué significa “ensino”, “instrução” ou “doutrina”, sendo conhecida como A Instrução dos Doze Apóstolos ou Doutrina dos Doze Apóstolos.
Trata-se de um documento de grande valor histórico e teológico. Pode-se afirmar que se trata do primeiro catecismo cristão.
O documento foi mencionado pelos grandes pensadores cristãos dos primeiros séculos e por escritores antigos, nomeadamente por Eusébio de Cesareia, que viveu no século III, no seu livro "História Eclesiástica", mas a descoberta desse manuscrito, na íntegra, em grego, num códice do século XI, mais concretamente do ano de 1056, ocorreu somente em 1873 num mosteiro em Constantinopla, atual Istambul. .
È consensual que foi elaborado na Palestina ou na Síria. Existem estudiosos que consideram que foi elaborado entre os anos 60 e 70 da nossa era, antes da destruição de Jerusalém pelo exército romano, no ano 70, na sequência da revolta judaica.
Fazendo referências às Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos, a Didaqué retrata a tradição viva das primeiras comunidades, que proclamavam o Evangelho como mensagem de amor, de justiça e de retidão para toda a Humanidade.
A Didaqué está dividida em duas partes, uma doutrinária e outra litúrgica, o que nos permite um conhecimento mais profundo da vivência do cristianismo primitivo.
Por isso, pode inspirar os cristãos dos nossos tempos, nomeadamente no caminho de valorização do que é a essência da mensagem cristâ. 
A preocupação do relacionamento com o mundo, a importância de uma fé esclarecida, a valorização do testemunho, a importância dos sacramentos e da oração e a necessidade da vivência comunitária da fé são aspetos tão prementes no nosso tempo como o eram no século I. 
A Didaché é um desafio a todos os cristãos e a todos os seres humanos de boa vontade para que se empenhem na concretização dos valores da paz, da liberdade e da amor para toda a Humanidade.

O futuro que queremos


The Earth seen from Apollo 17.jpg

No dia 5 do presente mês, assinalou-se o Dia Mundial do Ambiente, uma oportunidade privilegiada para refletir sobre a relação entre Humanidade e o meio ambiente na qual está inserida.
Nas últimas décadas, temos assistido a uma crescente consciencialização de que o atual modelo de desenvolvimento das sociedades é insustentável. Das alterações climáticas à destruição das florestas tropicais, passando pela extinção maciça de espécies, são cada vezes mais evidentes os efeitos negativos dos nossos padrões de vida sobre o nosso planeta.
Com efeito, o modo como vivemos atualmente representa um peso cada vez maior sobre o planeta.  
Ao longo das últimas décadas do século XX e dos primeiros anos do presente século, foi ocorreram diversos acontecimentos que marcaram a consciencialização progressiva da Humanidade para o paradigma do desenvolvimento sustentável, segundo o qual o modelo de desenvolvimento adequado é aquele que satisfaz as necessidades das gerações atuais sem comprometer a capacidade das futuras gerações poderem satisfazer as suas próprias necessidades.
A primeira grande manifestação de preocupação dos poderes públicos a nível mundial com as questões ambientais teve lugar em 1972 com a realização em Estocolmo da Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, tendo como finalidade delinear o direito da pessoa humana a um ambiente saudável.
Em 1980, a organização não governamental União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais publicou a Estratégia de Conservação Mundial, na qual estabelece uma estreita interligação entre o futuro da humanidade e a proteção dos recursos do nosso planeta. Neste documento, surge pela primeira vez o conceito de desenvolvimento sustentável. Em 1893, foi criada a Wordl Comission on Environment and Development, que publicou quatro anos depois o Relatório "O nosso futuro comum", também conhecido como relatório Brundtland, que representa um passo significativo para a definição de uma agenda global para a mudança de paradigma no modelo de desenvolvimento. A primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente e Desenvolvimento, decorreu na cidade do Rio de Janeiro em 1992, tendo aprovado uma agenda para o meio ambiente e o desenvolvimento para o século XXI, a denominada Agenda 21.
Nas últimas duas décadas, realizaram-se diversas conferências internacionais sobre a questão ambiental.
Em 2012, realizou-se no Rio de Janeiro a Conferência das Nações Unidas sobre o desenvolvimento Sustentável, também conhecida por Rio+20, que aprovou a Declaração “O Futuro que queremos”, um documento programático que oferece uma base para o bem-estar social, económico e ambiental da Humanidade.
Contudo, os resultados práticos têm ficado aquém das expectativas, em termos de definição e de implementação de políticas públicas. 
Com efeito, as implicações estratégicas da crise ambiental raramente são analisadas e continuam a ser um tema incómodo.
Em outubro de 2003, o Pentágono, o Ministério de Defesa norte-americano, promoveu a elaboração de relatório designado “Um Cenário de Mudança Abrupta do Clima e Suas Implicações na Segurança Nacional dos EUA”. Contudo, a sua análise e as suas propostas foram consideradas inconvenientes pela administração do Presidente George W. Bush e o documento foi colocado na prateleira.
O documento analisava as consequências geopolíticas das alterações climáticas, nomeadamente a escassez de alimentos,-como resultado da redução da produção agrícola a nível mundal, a diminuição de disponibilidade de água potável e o aumento de problemas no acesso aos recursos energéticos.
O efeito global das mudanças climáticas seria a redução significativa da população humana que o planeta pode suportar. Além disso, o relatório acrescenta:
“Á medida que se reduz a capacidade biótica máxima e global, podem aumentar as tensões no mundo, levando a duas estratégias fundamentais: defensiva e ofensiva. As nações com recursos para o fazer podem construir fortalezas virtuais à volta dos seus países, preservando recursos para si próprias. As nações menos afortunadas, especialmente as que têm inimizades antigas com os seus vizinhos, podem desencadear lutas pelo acesso aos alimentos, a agua limpa ou a energia. Podem formar-se alianças improváveis, à medida que as prioridades de defesa mudam e que a meta são os recursos para a sobrevivência  em vez da religião, da ideologia ou da honra nacional.“
O relatório do Pentágono foi inovador na aceitação de que as mudanças climáticas, uma das principais dimensões da crise ecológica contemporânea, poderá  conduzir a uma queda da capacidade do planeta de sustentar a Humanidade.  
Por conseguinte, é essencial fazer uma mudança decisiva no sentido do desenvolvimento sustentável, não apenas porque é a coisa certa a fazer mas também porque é do nosso melhor interesse a longo prazo, proporcionando um futuro de esperança para as gerações atuais e vindouras.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Por uma Europa de valores










No dia 9 de maio, celebra-se o Dia da Europa. A data escolhida recorda o dia 9 de maio de 1950, no qual Robert Schuman, Ministro dos Negócios Estrangeiros de França, apresentou a sua proposta de criação de uma Europa supranacional, requisito essencial para a promoção da paz, da liberdade e do progresso no Velho Continente. Esta proposta, conhecida como "Declaração Schuman", é considerada o início da criação do que é atualmente a União Europeia.
Atualmente, estamos perante uma seria crise nos domínios financeiro, económico e social, e, não menos grave, perante uma crise de confiança.
A superação desta crise requer audácia e sentido estratégico. Mais a superação não pode ser feita sem ter em conta os valores fundamentais que serviram de pilares à construção europeia.
A dignidade da pessoa humana, a liberdade, a democracia e o primado do direito fazem parte do património civilizacional da Europa, cuja construção política surgiu para promover a paz e o progresso num continente duramente dilacerado por duas guerras mundiais num período de uma geração e por diversas formas de totalitarismo e de autoritarismo.
A civilização europeia tem igualmente as suas raízes nas civilizações grega e romana, beneficiou significativamente dos contributos do judaísmo e do islão, mas não pode deixar de ter em conta a relevância fundamental do cristianismo.
Não será mera coincidência que alguns dos pais fundadores da unificação europeia haja indivíduos animados por uma profunda vivência cristã, como são os casos de Robert Schuman, Konrad Adenauer, Alcide De Gasperi, Jean Monnet e Winston Churchill.  
Foi nos valores evangélicos da liberdade e da solidariedade que os pais fundadores da unificação europeia encontraram a inspiração para a concretização deste enorme projeto que visa congregar os povos europeus, respeitando a sua diversidade.
Reconhecer a dimensão espiritual na vida pública não significa contradizer o princípio da laicidade, mas interpretá-la de modo correto. É necessário diferenciar o laicismo, como privatização do religioso e exclusão da vida pública, da laicidade, que supõe a separação necessária entre os poderes públicos e as confissões religiosas, assumindo o religioso como componente da esfera social. A indiferença em relação à dimensão espiritual da condição humana só pode provocar consequências trágicas, como a história da humanidade tem experimentado de uma forma dolorosa.
Perante os desafios do presente, a Europa não pode dispensar uma visão estratégica para o seu futuro.
Esta nova visão estratégica para a Europa deverá passar, nomeadamente, pelos seguintes aspetos, entre outros:
- O alargamento do alcance do princípio de subsidiariedade, de modo a assegurar a salvaguarda dos interesses dos povos dos Estados membros e evitar os riscos de tendências centralistas e burocráticas. Neste contexto, a atuação da União Europeia e das suas instituições deve focar-se na promoção da política externa e de segurança comum, na governação económica à escala supranacional, na regulação dos fluxos migratórios e na promoção do desenvolvimento sustentável a nível europeu e global, reservando os demais assuntos públicos para a esfera da responsabilidade dos Estados-membros e das autoridades regionais e locais.
- O desenvolvimento de mecanismos adequados de coordenação europeia das políticas orçamentais nacionais, o fomento de uma regulação coordenada dos mercados financeiros e a criação de instrumentos de mutualização da divida soberana dos Estados-membros.
- A reforma do Pacto de Estabilidade e Crescimento, de modo a criar condições para um desenvolvimento económico socialmente inclusivo e ecologicamente sustentável, sem prejuízo da necessária preocupação com a consolidação orçamental e a estabilidade dospreços.
A Bíblia, com a narração da Torre de Babel, no Livro do Génesis, adverte para os riscos de uma unidade aparente e imposta, na qual os povos e os indivíduos não reconhecem a dignidade uns dos outros e os laços de fraternidade que os devem unir.
O espirito de Babel é o oposto do espirito do Pentescostes, que apela para uma unidade na diversidade, baseada em duas premissas fundamentais. Uma delas é a de que a pessoa humana, a sua vida, dignidade e consciência, é um valor anterior à sociedade e ao poder politico , dos quais constitui o fundamento. A outra é de que os seres humanos devem reconhecer-se uns aos outros como membros de uma grande família e de uma comunidade de destino comum, que partilham o mesmo planeta.

sexta-feira, 29 de março de 2013

O legado de Jesus: amor e compaixão



“Não há maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus irmãos", Estas palavras de Jesus, narradas no Evangelho de São João, expressam o testemunho mais eloquente do profundo significado da sua paixão e morte . São, por assim dizer, um pequeno resumo do sentido do Mistério Pascal.
No âmbito da Última Ceia, no último discurso antes da Paixão, conhecido como o seu testamento espiritual, que Jesus esclarece aos seus discípulos, mostrando-lhes a sua relação com Deus; e deixando-nos ainda diversos ensinamentos sobre a vida e o amor.
É no pronunciar destas palavras que nos permite compreender um pouco mais do sentido pleno e autêntico do amor, que se revela como a doação de si mesmo aos irmãos. E o próprio Jesus foi coerente com suas palavras, amando os homens até ás últimas consequências , com o maior amor possível, por sua morte na Cruz, que passa a ser a manifestação do amor incondicional de Deus pela Humanidade: Pois Deus amou tanto o mundo, que entregou seu Filho único.
Se Deus ama tanto a Humanidade, é porque deseja que haja uma verdadeira paz entre os seres humanos, que se devem considerar uns aos outros como irmãos.  
Para que haja uma verdadeira paz, tem que haver amor e compaixão. Neste sentido, apresento a Carta pela Compaixão, elaborada com o envolvimento de representantes de várias confissões religiosas e de não crentes.

Carta pela Compaixão
O princípio da compaixão é o cerne de todas as tradições religiosas, éticas e espirituais, nos conclamando sempre a tratar todos os outros da mesma maneira como gostaríamos de ser tratados. A compaixão impele-nos a trabalhar incessantemente com o intuito de aliviarmos o sofrimento do nosso próximo, o que inclui todas as criaturas, de nos destronarmos do centro do nosso mundo e, no lugar, colocar os outros, e de honrarmos a santidade inviolável de todo ser humano, tratando todas as pessoas, sem excepção, com absoluta justiça, equidade e respeito.
É necessário também, tanto na vida pública como na vida privada, abstermo-nos, de forma consistente e empática, de infligir dor. Agir ou falar de maneira violenta devido a maldade, chauvinismo ou interesse próprio a fim de depauperar, explorar ou negar direitos básicos a alguém e incitar o ódio ao denegrir os outros - mesmo os nossos inimigos - é uma negação da nossa humanidade em comum. Reconhecemos que falhamos na tentativa de viver de forma compassiva e que alguns de nós até mesmo aumentaram a soma da miséria humana em nome da religião.
Portanto, conclamamos todos os homens e mulheres a restaurar a compaixão ao centro da moralidade e da religião, a retornar ao antigo princípio de que é ilegítima qualquer interpretação das escrituras que gere ódio, violência ou desprezo, a garantir que os jovens recebam informações exactas e respeitosas a respeito de outras tradições, religiões e culturas, a incentivar uma apreciação positiva da diversidade religiosa e cultural e a cultivar uma empatia bem informada pelo sofrimento de todos os seres humanos - mesmo daqueles considerados inimigos
É urgente que façamos da compaixão uma força clara, luminosa e dinâmica no nosso mundo polarizado. Com raízes numa determinação de princípios de transcender o egoísmo, a compaixão pode quebrar barreiras políticas, dogmáticas, ideológicas e religiosas. Nascida da nossa profunda interdependência, a compaixão é essencial para os relacionamentos humanos e para uma humanidade realizada. É o caminho para a iluminação e é indispensável para a criação de uma economia justa e de uma comunidade global pacífica

terça-feira, 19 de março de 2013

Novo papa, novos desafios

Pope Francis I appears on the central balcony in Vatican City.

A eleição do novo papa Francisco ocorre numa época particularmente relevante da História da Humanidade. 
À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e globalizado, a Humanidade enfrenta, ao mesmo tempo, grandes oportunidades e grandes riscos.
Vivemos numa era de produção e de consumo sem precedentes. O progresso tecnológico desenvolveu as redes de comunicação de tal modo que podemos falar de uma “aldeia global”. A democracia e o primado do direito são valores formalmente reconhecidos pela generalidade dos países do mundo, embora em muitos deles haja uma grande distância entre as proclamações jurídicas e a prática dos poderes públicos  
Contudo, o sistema económico dominante, baseado numa confiança excessiva no mercado, tem causado sérios problemas sociais, políticos e ambientais. Os benefícios do desenvolvimento não estão a ser distribuídos equitativamente e as desigualdades sociais estão a aumentar, inclusive nas sociedades mais democráticas e prósperas do nosso planeta. Os conflitos e a violência têm aumentado e são causa de grande sofrimento. O crescimento sem precedentes da população humana tem sobrecarregado os sistemas ecológicos e sociais. O meio ambiente tem sido seriamente afetado, sendo os resultados mais visíveis as alterações climáticas e a extinção maciça de espécies. 
Neste contexto, a Humanidade espera da Igrejas cristãs e da Igreja Católica em particular que elas sejam faróis de esperança, o que implica uma renovação da Igreja Católica.
Para haver uma renovação genuína da Igreja Católica, é importante superar desde já um equívoco. Hoje, quando se fala de Igreja, é numa instituição gigantesca e nos seus hierarcas e sacerdotes que se pensa: papa, bispos, padres e diáconos. Temos de regressar às origens, quando Igreja significava a comunhão das Igrejas, entendidas como comunidades de cristãos congregados em nome de Jesus.
È interessante constatar que as últimas declarações do papa Bento XVI e as primeiras declarações do papa Francisco partilham a necessidade de valorizar a dimensão espiritual da Igreja Católica em detrimento da sua dimensão institucional.
No dia 14 de fevereiro, ainda papa, Joseph Ratzinger declarou o seguinte. "Nós somos a Igreja; a Igreja não é uma estrutura; nós, os próprios cristãos juntos, todos nós somos o Corpo vivo da Igreja. Naturalmente, isto é válido no sentido de que o 'nós', o verdadeiro 'nós' dos crentes, juntamente com o 'Eu' de Cristo, é a Igreja".
Por sua vez, no dia 16 de março, o papa Francisco anunciou no seu primeiro encontro com os representantes dos meios de comunicação social: “(A Igreja) apesar de ser indubitavelmente uma instituição também humana e histórica, com tudo o que isso implica, não é de natureza política, mas essencialmente espiritual: é o Povo de Deus, o Povo santo de Deus, que caminha rumo ao encontro com Jesus Cristo. (…) Cristo é o centro. Não o sucessor de Pedro, mas Cristo. Cristo é o centro. Cristo é o ponto fundamental de referimento, o coração da Igreja. Sem Ele, Pedro e a Igreja não existiriam, nem teriam razão de ser”. Também defendeu “uma Igreja pobre e para os pobres”. 
Atualmente, estamos perante uma oportunidade histórica de reformar a Igreja Católica. Não é preciso começar do zero. O Concílio Vaticano II foi um começo revolucionário, mas continua, em grande parte, por cumprir e sofreu desvios cujas consequências se sentem de forma amarga.
Importa alterar o modo da designação dos bispos, os lideres das Igrejas locais, na sua imensa diversidade geográfica e cultural. Eles devem ser eleitos por sínodos diocesanos constituídos por representantes dos clérigos e dos leigos, os quais devem ser eleitos democraticamente.
O bispo de Roma, isto é, o Papa, deveria ser eleito por um colégio constituído pelos representantes das conferências episcopais, das congregações religiosas e dos movimentos laicais, seguindo o princípio de o que diz respeito a todos, deve ser tratado por todos.
A Igreja deve assumir um compromisso cada vez mais sólido com a promoção da justiça social e da dignidade da pessoa humana. Se Deus se revelou em Jesus como Deus dos pobres, dos excluídos e das vítimas deste mundo, uma Igreja que não tornar visível essa revelação será sempre infiel a Jesus. A Igreja deveria retomar e propor aos poderes políticos e económicos deste mundo o ensinamento de Jesus de que é impossível servir a Deus e ao dinheiro. Esta será uma reforma constante e difícil, mas a Igreja deve ter muito claro e não esquecer nunca que está em jogo a sua fidelidade ao Deus revelado pelos profetas e de um modo muito especial por Jesus.
Deve ser reconhecida a igualdade de direitos e responsabilidades de homens e mulheres na Igreja, bem como a valorização da sexualidade enquanto dimensão fundamental da condição humana.
Deve ser incentivado o diálogo ecuménico com as demais Igrejas cristãs, o que passa pelo reconhecimento mútuo dos ministérios e dos sacramentos.
Deve ser promovido o diálogo com as religiões não cristãs e os não crentes, para que todos os homens e mulheres de boa vontade possam trabalhar em conjunto em prol de um mundo mais livre, solidário e sustentável.