domingo, 8 de setembro de 2013

Maria: uma visão para o nosso tempo

'Kissing the Face of God', by Morgan Weistling

No dia 8 de Setembro, o calendário litúrgico cristão assinala o nascimento de Maria, mãe de Jesus. Trata-se de uma oportunidade privilegiada para uma reflexão sobre o papel de Maria no Cristianismo contemporâneo..
A História ajuda-nos a compreender as diferenças entre as diversas confissões cristãs. Os caminhos da Igreja bifurcaram-se ao longo dos séculos e com ela a percepção sobre o papel de Maria . Nas Igrejas do Oriente, a devoção mariana começa no século III, enquanto no Ocidente torna-se algo mais relevante no século IV, mas foi a partir do século X que esta devoção teve uma expressão mais significativa na religiosidade popular e na liturgia. Mais tarde, com a Reforma Protestante, há uma ruptura com a veneração de Maria professada pela Igreja Católica Romana.
O Concílio Vaticano II, após um longo debate, optou por integrar um capítulo sobre o papel de Maria na Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja, criando condições para um diálogo ecuménico entre cristãos de diferentes confissões.
O documento conciliar fez vir à luz um rosto humano de Maria, revelando a Maria das Escrituras, a mulher de Nazaré que aceitou e testemunhou o chamamento de Deus. O papel de Maria foi posto no seu devido lugar, centrado no mistério de Cristo e da Igreja, intimamente unida a Cristo e a Igreja, ao mesmo tempo que muito próxima de Cristo, mas por outro lado unida a Igreja e como parte dela. 
O Concílio Vaticano II abriu um novo tempo no diálogo ecuménico, no qual a figura de Maria foi submetida a uma intensa releitura, com a recuperação do património de tradições teológicas e litúrgicas comuns.
Esse novo percurso tem sido enriquecido por estudos, diálogos, encontros locais e internacionais, com o envolvimento de cristãos de diversas confissões. 
De modo a abrir caminho para uma imagem de Maria adequado à realidade do século XXI, parecem importantes as seguintes linhas orientadoras: 
- Segundo o Novo Testamento, Maria constitui um ser plenamente humano e nada tem de um ser celeste. Maria é a mãe de Jesus. E não só. As Escrituras falam dos irmãos e das irmãs de Jesus. John P. Meier, possivelmente o maior especialista em exegese histórica dos evangelhos, escreve : "Se o historiador ou exegeta - deixando de lado a fé e a posterior doutrina da Igreja - for solicitado a emitir um julgamento sobre o Novo Testamento (...), encarados apenas como fontes históricas, a opinião (...) é que os irmãos de Jesus eram legítimos."Sendo mulher e mãe, ela manifesta a plena humanidade de Jesus, que não contradiz a fé de que a existência de Jesus se explica, em última instância, a partir de Deus. A este respeito, é importante referir que o próprio Joseph Ratzinger, o papa emérito  Bento XVI escreveu em 1969: "A filiação divina de Jesus não se baseia (...) no facto de Jesus não ter pai humano; a doutrina da divindade de Jesus não seria posta em causa se Jesus fosse o fruto de um casamento normal."
- Maria constitui um modelo de fé. As palavras de Maria no Novo Testamento revelam uma espiritualidade profunda e conservam na atualidade todo o sentido. Maria louva Deus que derrubou os poderosos e exaltou os humildes. O seu papel foi relevante na forma revolucionária como Jesus encarava as mulheres e o seu papel espiritual e social. Jesus foi um grande defensor da dignidade feminina, convidando inclusive mulheres para o seu círculo mais intimo de discipulos. Recorde-se o papel fundamental de Maria Madalena e de outras mulheres nas comunidades primitivas.
Maria, ou melhor, Myriam, uma mulher judia, que foi esposa e mãe, que sofreu por Jesus e com ele. Mas que nunca perdeu a esperança. Que conhecemos por causa de Jesus. Porque cada criança é um espelho da sua mãe. Partilhando em tudo a nossa condição humana, mas que contribuiu para transformar a História.  

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Eu tenho um sonho



Há cinquenta anos, Martin Luther King, Jr. proferiu um dos discursos mais significativos da História da Humanidade. 
O discurso de Martin Luther King, Jr., foi pronunciado na escadaria do Monumento ao presidente Abraham Lincoln, em Washington, D.C., tendo sido escutado por mais de 250.000 pessoas, reunidas na capital dos Estados Unidos da América, no âmbito da "Marcha para Washington por Emprego e Liberdade". 
A marcha foi um grande manifestação em prol da defesa da igualdade de direitos entre os todos os cidadãos, independentemente da sua cor da pele,  exigindo igualmente das instituições políticas federais um compromisso mais firme no reconhecimento desses mesmos direitos, sobretudo nos Estados do sul, onde os afro-americanos eram considerados como pessoas de seguida categoria. 
A marcha foi realizada num contexto particularmente tenso.Havia muita ansiedade, medo e esperança também. Ansiedade, porque os manifestantes não sabiam se iam  conseguir chegar a Washington e sair de lá. Medo, porque muitos dos manifestantes tiveram de atravessar fronteiras de Estados que defendiam claramente a segregação e a discriminação. Washington, D.C. estava virtualmente em estado de sítio. O Governo Federal tinha receio de distúrbios. Pela primeira vez desde a abolição da Lei Seca em 1933, foram fechados todos os estabelecimentos de bebidas alcoólicas. As forças policiais tinham turnos de 18 horas. O Exército foi mobilizado.
E, apesar de tudo isto, nasceu um movimento magnífico de pessoas de diversas etnias, condições sociais e confissões religiosas, que se juntaram pacificamente, que se inspiraram umas às outras, que proclamaram juntas a dignidade fundamental da pessoa humana. 
A marcha teve consequências duradouras. Em 1964, o Congresso dos Estados aprovou a Lei dos Direitos Civis, e no ano seguinte, a Lei sobre o Direito de Voto, consagrando a igualdade de direitos civis e políticos. 
Em 1964, Martin Luther King, Jr. foi galardoado com o Prémio Nobel da Paz. 


Discurso “I Have a Dream”

Há cem anos, um grande americano, sob cuja sombra simbólica nos encontramos, assinava a Proclamação da Emancipação. Esse decreto fundamental foi como um raio de luz de esperança para milhões de escravos negros que tinham sido marcados a ferro nas chamas de uma vergonhosa injustiça. Veio como uma aurora feliz para terminar a longa noite do cativeiro. Mas, cem anos mais tarde, devemos enfrentar a realidade trágica de que o Negro ainda não é livre.
Cem anos mais tarde, a vida do Negro é ainda lamentavelmente dilacerada pelas algemas da segregação e pelas correntes da discriminação. Cem anos mais tarde, o Negro continua a viver numa ilha isolada de pobreza, no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos mais tarde, o Negro ainda definha nas margens da sociedade americana, estando exilado na sua própria terra.
Por isso, encontramo-nos aqui hoje para dramaticamente mostrarmos esta extraordinária condição. Num certo sentido, viemos à capital do nosso país para descontar um cheque. Quando os arquitectos da nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração de independência, estavam a assinar uma promissória de que cada cidadão americano se tornaria herdeiro.
Este documento era uma promessa de que todos os homens veriam garantidos os direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à procura da felicidade. É óbvio que a América ainda hoje não pagou tal promissória no que concerne aos seus cidadãos de cor. Em vez de honrar este compromisso sagrado, a América deu ao Negro um cheque sem cobertura; um cheque que foi devolvido com a seguinte inscrição: "saldo insuficiente". Porém nós recusamo-nos a aceitar a ideia de que o banco da justiça esteja falido. Recusamo-nos a acreditar que não existam recursos suficientes nos grandes cofres de oportunidades deste país.
Por isso viemos aqui cobrar este cheque - um cheque que nos dará quando o recebermos as riquezas da liberdade e a segurança da justiça. Também viemos a este lugar sagrado para lembrar à América da clara urgência do agora. Não é o momento de se dedicar à luxuria do adiamento, nem para se tomar a pílula tranquilizante do gradualismo. Agora é tempo de tornar reais as promessas da Democracia. Agora é o tempo de sairmos do vale escuro e desolado da segregação para o iluminado caminho da justiça racial. Agora é tempo de abrir as portas da oportunidade para todos os filhos de Deus. Agora é tempo para retirar o nosso país das areias movediças da injustiça racial para a rocha sólida da fraternidade.
Seria fatal para a nação não levar a sério a urgência do momento e subestimar a determinação do Negro. Este sufocante verão do legítimo descontentamento do Negro não passará até que chegue o revigorante Outono da liberdade e igualdade. 1963 não é um fim, mas um começo. Aqueles que crêem que o Negro precisava só de desabafar, e que a partir de agora ficará sossegado, irão acordar sobressaltados se o País regressar à sua vida de sempre. Não haverá tranquilidade nem descanso na América até que o Negro tenha garantido todos os seus direitos de cidadania. 
Os turbilhões da revolta continuarão a sacudir as fundações do nosso País até que desponte o luminoso dia da justiça. Existe algo, porém, que devo dizer ao meu povo que se encontra no caloroso limiar que conduz ao palácio da justiça. No percurso de ganharmos o nosso legítimo lugar não devemos ser culpados de actos errados. Não tentemos satisfazer a sede de liberdade bebendo da taça da amargura e do ódio. 
Temos de conduzir a nossa luta sempre no nível elevado da dignidade e disciplina. Não devemos deixar que o nosso protesto realizado de uma forma criativa degenere na violência física. Teremos de nos erguer uma e outra vez às alturas majestosas para enfrentar a força física com a força da consciência. 
Esta maravilhosa nova militância que engolfou a comunidade negra não nos deve levar a desconfiar de todas as pessoas brancas, pois muitos dos nossos irmãos brancos, como é claro pela sua presença aqui, hoje, estão conscientes de que os seus destinos estão ligados ao nosso destino, e que sua liberdade está intrinsecamente ligada à nossa liberdade. 
Não podemos caminhar sozinhos. À medida que caminhamos, devemos assumir o compromisso de marcharmos em frente. Não podemos retroceder. Há quem pergunte aos defensores dos direitos civis: "Quando é que ficarão satisfeitos?" Não estaremos satisfeitos enquanto o Negro for vítima dos incontáveis horrores  da brutalidade policial. Não poderemos estar satisfeitos enquanto os nossos corpos, cansados das fadigas da viagem, não conseguirem ter acesso a um lugar de descanso nos motéis das estradas e nos hotéis das cidades. Não poderemos estar satisfeitos enquanto a mobilidade fundamental do Negro for passar de um gueto pequeno para um maior. Nunca poderemos estar satisfeitos enquanto um Negro no Mississipi não pode votar e um Negro em Nova Iorque achar que não há nada pelo qual valha a pena votar. Não, não, não estamos satisfeitos, e só ficaremos satisfeitos quando a justiça correr como a água e a rectidão como uma poderosa corrente.
Sei muito bem que alguns de vocês chegaram aqui após muitas dificuldades e tribulações. Alguns de vocês saíram recentemente de pequenas celas de prisão. Alguns de vocês vieram de áreas onde a vossa procura da liberdade vos deixou marcas provocadas pelas tempestades da perseguição e sofrimentos provocados pelos ventos da brutalidade policial. Vocês são veteranos do sofrimento criativo. Continuem a trabalhar com a fé de que um sofrimento injusto é redentor.
Voltem para o Mississipi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para a Luisiana, voltem para as bairros de lata e para os guetos das nossas modernas cidades, sabendo que, de alguma forma, esta situação pode e será alterada. Não nos embrenhemos  no vale do desespero.
Digo-lhes, hoje, meus amigos, que apesar das dificuldades e frustrações do momento, ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.
Tenho um sonho que um dia esta nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado da sua crença: "Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais".
Tenho um sonho que um dia nas montanhas rubras da Geórgia os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos proprietários de escravos poderão sentar-se à mesa da fraternidade.
Tenho um sonho que um dia o estado do Mississipi, um estado deserto, sufocado pelo calor da injustiça e da opressão, será transformado num oásis de liberdade e justiça.
Tenho um sonho que meus quatro pequenos filhos viverão um dia numa nação onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pela qualidade do seu caractér.
Tenho um sonho, hoje.
Tenho um sonho que um dia o estado de Alabama, cujos lábios do governador actualmente  pronunciam palavras de ... e recusa, seja transformado numa condição onde pequenos rapazes  negros, e raparigas negras, possam dar-se as mãos com outros pequenos rapazes brancos, e raparigas brancas, caminhando juntos, lado a lado, como irmãos e irmãs.
Tenho um sonho, hoje.
Tenho um sonho que um dia todo os vales serão elevados, todas as montanhas e encostas serão  niveladas, os lugares ásperos serão polidos, e os lugares tortuosos serão endireitados, e a glória do Senhor será revelada, e todos os seres a verão, conjuntamente.
Esta é nossa esperança. Esta é a fé com a qual regresso ao Sul. Com esta fé seremos capazes de retirar da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé poderemos transformar as dissonantes discórdias de nossa nação numa bonita e harmoniosa sinfonia de fraternidade. Com esta fé poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, ir para a prisão juntos, ficarmos juntos em posição de sentido pela liberdade, sabendo que um dia seremos livres.
Esse será o dia quando todos os filhos de Deus poderão cantar com um novo significado: "O meu país é teu, doce terra de liberdade, de ti eu canto. Terra onde morreram os meus pais, terra do orgulho dos peregrinos, que de cada localidade ressoe a liberdade".
E se a América quiser ser uma grande nação isto tem que se tornar realidade. Que a liberdade ressoe então dos prodigiosos cabeços do Novo Hampshire. Que a liberdade ressoe das poderosas montanhas de Nova Iorque. Que a liberdade ressoe dos elevados Alleghenies da Pensilvania!
Que a liberdade ressoe dos cumes cobertos de neve das montanhas Rochosas do Colorado!
Que a liberdade ressoe dos picos curvos da Califórnia!
Mas não só isso; que a liberdade ressoe da Montanha de Pedra da Geórgia!
Que a liberdade ressoe da Montanha Lookout do Tennessee!
Que a liberdade ressoe de cada Montanha e de cada pequena elevação do Mississipi.
Que de cada localidade, a liberdade ressoe.
Quando permitirmos que a liberdade ressoe, quando a deixarmos ressoar de cada vila e cada aldeia, de cada estado e de cada cidade, seremos capazes de apressar o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar-se as mãos e cantar as palavras da antiga canção negra: "Liberdade finalmente! Liberdade finalmente! Louvado seja Deus, Todo Poderoso, estamos livres, finalmente!"

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Deus e os extraterrestres



“Estaremos sós no Universo?”. Esta é uma das grandes questões existenciais da Humanidade, que tem sido colocada desde tempos imemoriais, mas com particular acuidade desde o início da exploração do espaço, a partir dos meados do século XX.
Com efeito, o nosso lar comum, a Terra, é um pequeno planeta de um sistema solar situado na periferia da Via Láctea, uma das 170 biliões das galáxias existentes no universo observável.
A questão acima mencionada tem implicações de diversa ordem, cientifica, filosófica e religiosa.
A descoberta de vida extraterrestre será provavelmente o maior acontecimento da História da Humanidade, o que não deixaria de ter repercussões na sua vivência espiritual.  Contudo, as principais religiões existentes não fecham as portas à existência de vida extraterrestre.
O budismo tem sutras ou textos que estendem o ensinamento do Buda "a todos osmundos". No sutra da Contemplação da vida infinita, Buda faz jorrar da sua fronte um raio de luz "que iluminou todos os mundos e voltou a colocar-se na cabeça do Buda, formando uma torre de luz. Nesta torre, podia ver-se todas as terras dos budas".
O islão vai mais longe. O Alcorão não só admite a existência de vida extraterrestre, mas também refere que haverá um encontro: "Entre as Suas Provas está a criação dos céus e da terra e dos seres vivos que aí disseminou. Tem aliás o poder de reuni-los quando lhe aprouver" (sura 42). "Alá que criou sete céus e outras tantas terras" (sura 65).
No judaísmo, as narrativas da literatura de Midrash (compilação de ensinamentos sobre a Bíblia judaica) demonstram que, se eventuais descobertas científicas revelassem a presença de outros seres vivos no universo, os princípios da Tora e os valores do judaísmo não seriam abalados.
O caso do cristianismo é semelhante. Em 2008, o diretor do Observatório do Vaticano, o jesuíta José Gabriel Funes, indicou numa entrevista concedida ao L’Osservatore Romano que ela não confronta o cristianismo: “Não podemos colocar limites à liberdade criativa de Deus. Se, como disse São Francisco, consideramos todas as criaturas da Terra como irmãos e irmãs, por que não poderíamos falar do nosso irmão extraterrestre? Continua a fazer parte da Criação.” O falecido monsenhor Corrado Balducci, colaborador e amigo próximo do papa João Paulo II, declarou que “é real a possibilidade de que outras criaturas inteligentes vivam na imensidão do espaço”. Para ele, isto seria um sinal inequívoco da gloria de Deus.   
Esta opinião é partilhada por Robin Collins, professor de filosofia no Messiah College, no estado norte-americano de  Pensilvânia, que afirma o seguinte: “Embora não tenha a certeza absoluta, os seres humanos não podem estar sós. Deus é infinitamente criativo”.
Não se trata de uma posição nova. Em 1277, o bispo de Paris, Étienne Tempier, considerava que a afirmação de que Deus só podia fazer um mundo significava limitar o poder divino. Por outro lado, o cardeal Nicolau de Cusa argumentava, na obra De Docta Ignorantia (1440), que poderíamos encontrar em cada região celestial habitantes que, embora de natureza diferente da nossa, deviam a existência ao poder criador de Deus.
Contudo, existem outros pensadores cristãos, como Hipólito de Roma e Agostinho de Hipona, desconfiados da observação metódica como fonte de conhecimento presos a uma interpretação literal das Escrituras, que negavam a pluralidade de mundos e a existência de outros seres dotados de inteligência e consciência.
Em todo o caso, a busca da vida extraterrestre poderá levar-nos a um entendimento mais profundo de Deus. Um Deus como a Fonte da Vida que é exaltada quando vivemos plenamente. Um Deus como a Fonte do Amor que é exaltada quando amamos imensamente. Um Deus como a Base da Existência que é exaltada quando temos a coragem de existir de modo fraterno com todo o Universo.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

O legado de Madiba




“Comprometemo-nos a construir uma sociedade em que todos os sul-africanos, brancos ou negros, possam caminhar de cabeça erguida, sem qualquer medo, seguros do direito inalienável à dignidade humana – uma nação de arco-íris, em paz com ela mesma e com o mundo.”
Estas foram algumas das palavras pronunciadas por Nelson Mandela, no dia 10 de maio de 1994, quando tomou posse como Presidente da República da África do Sul, na sequência das primeiras eleições democráticas, ocorridas no dia 26 de abril.
Num mundo em que a política tende a ser limitada a um pragmatismo errático e inconsequente, Nelson Mandela tem marcado a diferença, demonstrando que valores como a dignidade da pessoa humana, a solidariedade e a compaixão não são luxos, mas condições absolutamente essenciais para o percurso presente e futuro da Humanidade.
Nelson Mandela, carinhosamente chamado de Madiba, soube unir uma nação dividida e oprimida por décadas de discriminação racial  e de autoritarismo, soube fazer a pedagogia da responsabilidade individual e da reconciliação nacional e soube, acima de tudo, demonstrar que na luta de um grande político e de um grande líder espiritual deve haver lugar para o amor pela humanidade, para os valores que nos engrandecem e para o entendimento da vida como um acto permanente de reconciliação com a natureza e com o nosso semelhante.
Na linha de Gandhi, Martin Luther King, Buda, Sócrates, Jesus e de outros indivíduos sábios que contribuíram decisivamente para o progresso ético e espiritual da Humanidade, Nelson Mandela soube fazer da serenidade, da bondade e da capacidade de ouvir e compreender uma grande lição de vida.
Que a vida de Mandela seja um impulso inspirador para que cada um de nós assuma a sua responsabilidade na construção de uma sociedade mais fraterna, mais digna da pessoa humana, e na revalorização do amor compassivo na vida social, nos planos político, económico, cultural e ecológico, fazendo dele a norma suprema e constante da nossa atuação enquanto seres humanos que partilham o planeta Terra.
Aliás, Mandela disse um dia: “Onde houver pobreza e doença, onde houver seres humanos oprimidos, há mais trabalho a fazer. O nosso trabalho é conseguir a liberdade para todos”.

domingo, 16 de junho de 2013

Didaché: um documento atual com dois mil anos




Didaqué significa “ensino”, “instrução” ou “doutrina”, sendo conhecida como A Instrução dos Doze Apóstolos ou Doutrina dos Doze Apóstolos.
Trata-se de um documento de grande valor histórico e teológico. Pode-se afirmar que se trata do primeiro catecismo cristão.
O documento foi mencionado pelos grandes pensadores cristãos dos primeiros séculos e por escritores antigos, nomeadamente por Eusébio de Cesareia, que viveu no século III, no seu livro "História Eclesiástica", mas a descoberta desse manuscrito, na íntegra, em grego, num códice do século XI, mais concretamente do ano de 1056, ocorreu somente em 1873 num mosteiro em Constantinopla, atual Istambul. .
È consensual que foi elaborado na Palestina ou na Síria. Existem estudiosos que consideram que foi elaborado entre os anos 60 e 70 da nossa era, antes da destruição de Jerusalém pelo exército romano, no ano 70, na sequência da revolta judaica.
Fazendo referências às Escrituras do Antigo e do Novo Testamentos, a Didaqué retrata a tradição viva das primeiras comunidades, que proclamavam o Evangelho como mensagem de amor, de justiça e de retidão para toda a Humanidade.
A Didaqué está dividida em duas partes, uma doutrinária e outra litúrgica, o que nos permite um conhecimento mais profundo da vivência do cristianismo primitivo.
Por isso, pode inspirar os cristãos dos nossos tempos, nomeadamente no caminho de valorização do que é a essência da mensagem cristâ. 
A preocupação do relacionamento com o mundo, a importância de uma fé esclarecida, a valorização do testemunho, a importância dos sacramentos e da oração e a necessidade da vivência comunitária da fé são aspetos tão prementes no nosso tempo como o eram no século I. 
A Didaché é um desafio a todos os cristãos e a todos os seres humanos de boa vontade para que se empenhem na concretização dos valores da paz, da liberdade e da amor para toda a Humanidade.

O futuro que queremos


The Earth seen from Apollo 17.jpg

No dia 5 do presente mês, assinalou-se o Dia Mundial do Ambiente, uma oportunidade privilegiada para refletir sobre a relação entre Humanidade e o meio ambiente na qual está inserida.
Nas últimas décadas, temos assistido a uma crescente consciencialização de que o atual modelo de desenvolvimento das sociedades é insustentável. Das alterações climáticas à destruição das florestas tropicais, passando pela extinção maciça de espécies, são cada vezes mais evidentes os efeitos negativos dos nossos padrões de vida sobre o nosso planeta.
Com efeito, o modo como vivemos atualmente representa um peso cada vez maior sobre o planeta.  
Ao longo das últimas décadas do século XX e dos primeiros anos do presente século, foi ocorreram diversos acontecimentos que marcaram a consciencialização progressiva da Humanidade para o paradigma do desenvolvimento sustentável, segundo o qual o modelo de desenvolvimento adequado é aquele que satisfaz as necessidades das gerações atuais sem comprometer a capacidade das futuras gerações poderem satisfazer as suas próprias necessidades.
A primeira grande manifestação de preocupação dos poderes públicos a nível mundial com as questões ambientais teve lugar em 1972 com a realização em Estocolmo da Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, tendo como finalidade delinear o direito da pessoa humana a um ambiente saudável.
Em 1980, a organização não governamental União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais publicou a Estratégia de Conservação Mundial, na qual estabelece uma estreita interligação entre o futuro da humanidade e a proteção dos recursos do nosso planeta. Neste documento, surge pela primeira vez o conceito de desenvolvimento sustentável. Em 1893, foi criada a Wordl Comission on Environment and Development, que publicou quatro anos depois o Relatório "O nosso futuro comum", também conhecido como relatório Brundtland, que representa um passo significativo para a definição de uma agenda global para a mudança de paradigma no modelo de desenvolvimento. A primeira Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente e Desenvolvimento, decorreu na cidade do Rio de Janeiro em 1992, tendo aprovado uma agenda para o meio ambiente e o desenvolvimento para o século XXI, a denominada Agenda 21.
Nas últimas duas décadas, realizaram-se diversas conferências internacionais sobre a questão ambiental.
Em 2012, realizou-se no Rio de Janeiro a Conferência das Nações Unidas sobre o desenvolvimento Sustentável, também conhecida por Rio+20, que aprovou a Declaração “O Futuro que queremos”, um documento programático que oferece uma base para o bem-estar social, económico e ambiental da Humanidade.
Contudo, os resultados práticos têm ficado aquém das expectativas, em termos de definição e de implementação de políticas públicas. 
Com efeito, as implicações estratégicas da crise ambiental raramente são analisadas e continuam a ser um tema incómodo.
Em outubro de 2003, o Pentágono, o Ministério de Defesa norte-americano, promoveu a elaboração de relatório designado “Um Cenário de Mudança Abrupta do Clima e Suas Implicações na Segurança Nacional dos EUA”. Contudo, a sua análise e as suas propostas foram consideradas inconvenientes pela administração do Presidente George W. Bush e o documento foi colocado na prateleira.
O documento analisava as consequências geopolíticas das alterações climáticas, nomeadamente a escassez de alimentos,-como resultado da redução da produção agrícola a nível mundal, a diminuição de disponibilidade de água potável e o aumento de problemas no acesso aos recursos energéticos.
O efeito global das mudanças climáticas seria a redução significativa da população humana que o planeta pode suportar. Além disso, o relatório acrescenta:
“Á medida que se reduz a capacidade biótica máxima e global, podem aumentar as tensões no mundo, levando a duas estratégias fundamentais: defensiva e ofensiva. As nações com recursos para o fazer podem construir fortalezas virtuais à volta dos seus países, preservando recursos para si próprias. As nações menos afortunadas, especialmente as que têm inimizades antigas com os seus vizinhos, podem desencadear lutas pelo acesso aos alimentos, a agua limpa ou a energia. Podem formar-se alianças improváveis, à medida que as prioridades de defesa mudam e que a meta são os recursos para a sobrevivência  em vez da religião, da ideologia ou da honra nacional.“
O relatório do Pentágono foi inovador na aceitação de que as mudanças climáticas, uma das principais dimensões da crise ecológica contemporânea, poderá  conduzir a uma queda da capacidade do planeta de sustentar a Humanidade.  
Por conseguinte, é essencial fazer uma mudança decisiva no sentido do desenvolvimento sustentável, não apenas porque é a coisa certa a fazer mas também porque é do nosso melhor interesse a longo prazo, proporcionando um futuro de esperança para as gerações atuais e vindouras.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Por uma Europa de valores










No dia 9 de maio, celebra-se o Dia da Europa. A data escolhida recorda o dia 9 de maio de 1950, no qual Robert Schuman, Ministro dos Negócios Estrangeiros de França, apresentou a sua proposta de criação de uma Europa supranacional, requisito essencial para a promoção da paz, da liberdade e do progresso no Velho Continente. Esta proposta, conhecida como "Declaração Schuman", é considerada o início da criação do que é atualmente a União Europeia.
Atualmente, estamos perante uma seria crise nos domínios financeiro, económico e social, e, não menos grave, perante uma crise de confiança.
A superação desta crise requer audácia e sentido estratégico. Mais a superação não pode ser feita sem ter em conta os valores fundamentais que serviram de pilares à construção europeia.
A dignidade da pessoa humana, a liberdade, a democracia e o primado do direito fazem parte do património civilizacional da Europa, cuja construção política surgiu para promover a paz e o progresso num continente duramente dilacerado por duas guerras mundiais num período de uma geração e por diversas formas de totalitarismo e de autoritarismo.
A civilização europeia tem igualmente as suas raízes nas civilizações grega e romana, beneficiou significativamente dos contributos do judaísmo e do islão, mas não pode deixar de ter em conta a relevância fundamental do cristianismo.
Não será mera coincidência que alguns dos pais fundadores da unificação europeia haja indivíduos animados por uma profunda vivência cristã, como são os casos de Robert Schuman, Konrad Adenauer, Alcide De Gasperi, Jean Monnet e Winston Churchill.  
Foi nos valores evangélicos da liberdade e da solidariedade que os pais fundadores da unificação europeia encontraram a inspiração para a concretização deste enorme projeto que visa congregar os povos europeus, respeitando a sua diversidade.
Reconhecer a dimensão espiritual na vida pública não significa contradizer o princípio da laicidade, mas interpretá-la de modo correto. É necessário diferenciar o laicismo, como privatização do religioso e exclusão da vida pública, da laicidade, que supõe a separação necessária entre os poderes públicos e as confissões religiosas, assumindo o religioso como componente da esfera social. A indiferença em relação à dimensão espiritual da condição humana só pode provocar consequências trágicas, como a história da humanidade tem experimentado de uma forma dolorosa.
Perante os desafios do presente, a Europa não pode dispensar uma visão estratégica para o seu futuro.
Esta nova visão estratégica para a Europa deverá passar, nomeadamente, pelos seguintes aspetos, entre outros:
- O alargamento do alcance do princípio de subsidiariedade, de modo a assegurar a salvaguarda dos interesses dos povos dos Estados membros e evitar os riscos de tendências centralistas e burocráticas. Neste contexto, a atuação da União Europeia e das suas instituições deve focar-se na promoção da política externa e de segurança comum, na governação económica à escala supranacional, na regulação dos fluxos migratórios e na promoção do desenvolvimento sustentável a nível europeu e global, reservando os demais assuntos públicos para a esfera da responsabilidade dos Estados-membros e das autoridades regionais e locais.
- O desenvolvimento de mecanismos adequados de coordenação europeia das políticas orçamentais nacionais, o fomento de uma regulação coordenada dos mercados financeiros e a criação de instrumentos de mutualização da divida soberana dos Estados-membros.
- A reforma do Pacto de Estabilidade e Crescimento, de modo a criar condições para um desenvolvimento económico socialmente inclusivo e ecologicamente sustentável, sem prejuízo da necessária preocupação com a consolidação orçamental e a estabilidade dospreços.
A Bíblia, com a narração da Torre de Babel, no Livro do Génesis, adverte para os riscos de uma unidade aparente e imposta, na qual os povos e os indivíduos não reconhecem a dignidade uns dos outros e os laços de fraternidade que os devem unir.
O espirito de Babel é o oposto do espirito do Pentescostes, que apela para uma unidade na diversidade, baseada em duas premissas fundamentais. Uma delas é a de que a pessoa humana, a sua vida, dignidade e consciência, é um valor anterior à sociedade e ao poder politico , dos quais constitui o fundamento. A outra é de que os seres humanos devem reconhecer-se uns aos outros como membros de uma grande família e de uma comunidade de destino comum, que partilham o mesmo planeta.