terça-feira, 6 de março de 2012

Entre Damieta e Assis: a opção entre a guerra e a paz

Outono de 1219. Um exército de cruzados oriundos da Europa Ocidental cerca a cidade egícia de Damieta, no âmbito da Quinta Cruzada.
A cruzada foi liderada por André II, rei da Hungria; Leopoldo VI, duque da Áustria; Jean de Brienne, rei titular de Jerusalém, e Frederico II, imperador do Sacro Império Romano-Germânico.
Decidiu-se que para se conquistar Jerusalém (controlada pelos muçulmanos desde 1187) era necessário conquistar o sultanato do Egito primeiro, uma vez que este controlava o território da Palestina. Em maio de 1218, as tropas de Frederico II se puseram a caminho do Egito, sob o comando de Jean de Brienne. Desembarcados em São João de Acre, decidiram atacar Damieta, cidade que servia de acesso ao Cairo, a capital. Em agosto começaram o cerco de Damieta.
Num ambiente marcado pela guerra e pela violência, um homem marcou a diferença: Francisco de Assis.
Francisco,  já então conhecido como fundador da Ordem dos Frades Menores, deixou a sua cidade de Assis para ir ao encontro dos irmãos muçulmanos para lhes anunciar o evangelho da Paz. A 5 de novembro assistiu à tomada de Damieta por parte dos cruzados cristãos, depois de os ter tentado convencer a evitar a sangrenta batalha.
Em seguida, manteve uma entrevista com o sultão Malik Al-Kamil que, impressionado, ao fim da visita pediu que Francisco orasse para que Deus lhe mostrasse a forma de cultuá-lo que fosse de seu agrado e permitiu que pregasse entre os seus súbditos. Dali passou para a Palestina, peregrinando pelos Lugares Santos, onde recebeu a notícia de que os irmãos no Marrocos haviam sido martirizados
Num tempo em que muitos pregavam a cruzada e usavam a violência das armas em nome da fé, Francisco teve a inspiração de propor outro caminho, ordenando, na sua Regra, que “os irmãos que vão para entre os Muçulmanos se devem comportar no meio deles do seguinte modo: não litiguem nem disputem mas sujeitem-se a toda a criatura humana por amor de Deus e confessem ser cristãos”.
Mas haveria que lembrar mais um acontecimento, de entre os diversos gestos de paz promovidos pelo "Povorello" de Assis, para melhor percebermos o motivo pelo qual Assis aparece associada ao renovamento do Espírito de Paz.
Contam as fontes franciscanas que, pelo ano de 1225, entre o bispo de Assis e o podestá (governante) da cidade, houve um conflito grave, ao ponto de o primeiro ter excomungado este último. Francisco, triste e indignado sobretudo por ver que ninguém fazia algo para restabelecer a paz entre os dois, decidiu intervir. Envolveu então seus irmãos para que convidassem bispo e podestà e a população da cidade para celebrarem um encontro de reconciliação.
Compôs, para essa circunstância, mais uma estrofe do seu Cântico do Irmão Sol que reza assim: “Louvado sejas tu, meu Senhor, por quem perdoa por teu amor; por quem sofre provações e doença; feliz quem as suporta em paz, porque será por ti, Altíssimo, coroado!”
Deu-se o encontro, em que os frades cantaram esta estrofe e, e a paz foi restabelecida. Recordo estes episódios e as palavras de Francisco para recordar – caso fosse necessário - que é o mesmo Espírito que moveu Francisco a transpor fronteiras para dialogar com o Outro ou que o moveu a intervir em tantas situações de conflito entre pessoas, poderes e instituições, que está na génese do “Espírito de Assis”.
O Papa João Paulo II, inspirando-se na ousadia evangélica dos gestos e palavras do Santo de Assis, quis fazer renascer das cinzas do século XX, um século marcado por guerras e pela intolerância, esse Espírito que nos convoca ao encontro e ao diálogo para a paz. Momentos que se foram repetindo ao longo das últimas duas décadas e meia, em Assis e por todo o mundo, que constituem já um património valioso da humanidade.
O Espírito de Assis não é, pois, o espírito de Francisco ou de qualquer outro homem, é o Espírito do próprio Deus.
O Espírito de Deus está fora do qualquer controlo humano. Ele é como o vento. É o que Jesus afirmava a Nicodemos. “Tu ouves o vento, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim acontece àquele que nasce do Espírito” (Evangelho de João 3, 8). 
O Espírito não se deixa fechar por quem quer que seja, superando as fronteiras que os seres humanos levantam entre classes socias, países, etnias e culturas. É por isso que aqueles que estão sob ação são os mais livres de entre os homens e mulheres.
Ele não sopra unicamente entre os cristãos, mas também nas mentes e nos corações de todos os homens e de todas as mulheres de boa vontade. Os cristãos deverão reconhecer a sua presença e a sua ação nas mais diversas manifestações em prol da dignificação da pessoa humana.
Não há, pois, que ter medo dos que são movidos por esse Espírito, devemos é perguntar, que espírito nos move a nós. Só percorrendo o caminho da paz, estamos no caminho certo, porque estamos no caminho do Deus da paz e do amor. Por isso, não existe um caminho para o diálogo: o caminho é o diálogo; assim como não há uma via para a paz: a via é a própria Paz.
O diálogo, não é, para o cristão, opcional, mas uma exigência da própria fé, que nos diz que nenhuma situação humana nos é estranha ou indiferente, muito menos quando a dignidade e os direitos fundamentais da pessoa humana são postos em causa.

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