sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011

Jesus como modelo ético universal, segundo Espinosa


Se a forma como Espinosa pensou Deus foi polémica, a sua cristología não foi igualmente consensual.
Espinosa era um conhecedor profundo da Bíblia, podendo ser considerado um dos fundadores da exegese bíblica, na medida em que fez uma análise histórica, filosófica e e filológica das Escrituras.
Espinosa enalteceu a figura de Jesus e designou-o como “a boca de Deus”, considerando-o o único homem a quem Deus falou diretamente. Tal facto elevou-o acima dos profetas, incluindo Moisés, conferindo-lhe um estatuto singular. Contudo, considera Jesus exclusivamente como ser humano, negando-se a aceitar a sua divindade.
Ao abordar a figura de Jesus, Espinosa tem duas finalidades. Por um lado, contribuir para a sua desmitologização, tratando-o como um ser humano e não como Deus. Por outro lado, a sua vida e atuação devem ser entendidas como um modelo ético a seguir por todos os seres humanos.
A sua conceção cristológica aceita a história. De acordó com Espiniosa, Jesus é uma personagem cuja historicidade não levanta dúvidas, considerando-o como judeu, que revolucionou a religião na qual foi educado, transformando as leis particulares da Torah numa ética universal. Ao valorizar a sua atuação mediadora e o seu papel como exemplo para a Humanidade no seu todo, Jesus é considerado como o caminho da salvação.
Espinosa preconiza que a salvação pode ser obtida mediante o cumprimento de determinadas regras morais, que estão apresentadas nas Escrituras. De acordo com a sua perspetiva, o homem comum move-se essencialmente por paixões, que geram dissensões e conflitos, daí resultando a obediência às leis da sociedade humana e às regras morais. Neste contexto, o exemplo de Jesus é fundamental, pois quem seguir o seus ensinamentos salva-se.
Espinosa reconhece na mensagem de Jesus uma ética que proporciona estabilidade e harmonia aos seres humanos.
Para Espinosa, Jesus conseguiu conciliar uma dimensão filosófica, dificilmente compreensível pelos seus contemporâneos, e um pensamento ético expresso em ternos éticos e aceitáveis pelo senso comum, sem nunca denunciar as verdades fundamentais. Segundo Espinosa, ele foi a manifestação suprema, mas humana, da Sabedoria Divina. Foi o homem sábio, que mais do que qualquer outro, que se identificou com o Espírito de Deus. Por isso, deve ser considerado como modelo para a Humanidade no seu todo, não perdendo a sua condição humana.
Apesar de utilizar a expressão “Filho de Deus”, Espinosa atribui-lhe um significado diferente do usual, identificando-o com a Sabedoria Divina que se manifesta em todas as coisas.
Recusa o dogma da Encarnação, considerando-o incompreensível. A Ressurreição é analisada por Espinosa com maior cautela, tendo em conta que as aparições de Jesus após a sua morte foram presenciadas fora do círculo dos seus discípulos. Espinosa não duvida da boa fé dos discípulos nem os acusa de embuste.
Na sua perspetiva, os acontecimentos pós-pascais, nomeadamente a Ressurreição e a Ascensão, foram manifestações da revelação divina, adaptadas a mentes humanas muito presas a explicações corporais.
Assim, defende que a Ressurreição deu-se num plano estritamente espiritual e foi revelada através dos meios ao alcance da compreensão humana dos discípulos.
Na sua reflexão sobre o cristianismo, Espinosa entende que a maioria das suas doutrinas são supérfluas e circunscreve-se ao que entende como essencial: que Deus se mantém em nós e nós nos mantemos em Deus.
Jesus é apresentado como um modelo de justiça e de caridade, chegando a afirmar: “onde as encontramos (a justiça e a caridade), está realmente Cristo; onde faltam, Cristo está ausente”.
Embora não reconhecendo a divindade de Jesus, Espinosa considera Jesus como um modelo ético exemplar e a fidelidade á sua mensagem é considerada como um critério para uma vida eticamente digna, à qual todos os seres humanos devem aspirar.

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